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"O trabalho é mais fácil quando a gente está preparado." Já ouvi frases assim muitas vezes, mas "a gente" é substantivo feminino. Então o predicativo do sujeito deveria concordar com o sujeito, não é? Então o gramatical seria dizer "quando a gente está preparada". Qual é o certo e por quê? Obrigado.

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  • 1
    Claro, você tem razão em relação ao feminino. Essa pergunta vindo de alguém que fala português me surpreende um pouco. Só que falta o subjuntivo: quando a gente esteja ou estiver preparada. A menina está pronta para sair. A gente, preparado, não.
    – Lambie
    Commented Apr 1 at 18:17
  • Interessante, eu não sabia que há pessoas que usam o masculino com "a gente", mas vejo na Internet que estes erros (ou usos alternativos?) existem. Pensei que era igual a "a criança" e "uma pessoa".
    – Dan Getz
    Commented Apr 1 at 18:52
  • 2
    @DanGetz Não é "alternativo" e muito menos erro. :-D
    – stafusa
    Commented Apr 1 at 19:17
  • O Priberam diz isso: a gente • [Informal] Locução que corresponde semanticamente ao pronome pessoal nós, mas gramaticalmente a uma terceira pessoa do singular, e que designa o grupo em que se integra quem fala ou escreve (ex.: a gente vai chegar atrasada). Assim eu entendo o assunto. "gente", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, dicionario.priberam.org/gente.
    – Lambie
    Commented Apr 4 at 16:17

1 Answer 1

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Em poucas palavras

Usa-se:

  • "a gente está preparado", quando equivalente a "eu/nós estou/estamos preparado(s)"; e
  • "a gente está preparada", quando equivalente a "eu/nós estou/estamos preparada(s)".
Explicação

O ponto é que "a gente" não é um substantivo, é um pronome. Conferir, por exemplo, Jessé Mourão (note contudo que a aplicabilidade do que ele afirma ao pt-PT é questionável):

Há atualmente uma concepção bem consensual de que a expressão a gente no português brasileiro e europeu, como nos exemplos 8a e 8b [a gente faz; a gente fazemos], sofreu um processo de gramaticalização e já é considerado um pronome pessoal de primeira pessoa do plural equivalente ao pronome nós, e não um sintagma nominal formado por determinante e substantivo.

O "a gente" tem dois significados básicos:

  • nós / eu
  • pessoa genérica (como "one" em inglês, e.g., "One should be careful.")

Ou, como colocado pelo Houaiss:

a gente (1871)
1 a pessoa que fala; eu
2 a pessoa que fala em nome de si própria e de outro(s); nós ‹a g. resolveu ficar aqui mesmo
gramática
nos usos informais da língua, é comum ocorrer a expressão a gente substituindo o pronome nós; a concordância é na 3ª p.s., mas, por associação com o significado do pronome, muitas vezes ela se faz pela primeira pessoa do plural, o que não corresponde à norma padrão: A gente foi à festa ontem (uso comum, principalmente informal); *A gente fomos à festa ontem (uso não correspondente à norma padrão)

E, via de regra, a concordância é com o gênero daquele que fala/escreve:

  • "A gente pode ser feio e ser bom. Isso é que importa." [2]
  • "A gente só é valorizada como mulher se formos mãe ou bonita, decorativa." [3]
  • "Quando a gente não é rico, acaba pensando nessas coisas. E, quando é preto, percebe logo que cada centavo é valioso, suado." [4]

Esse uso, inclusive, seria gramático desde pelo menos a primeira metade do século XX, Silveira Bueno (1938) [5]:

tal forma pronominal indefinida "exige a concordância com o gênero da pessoa que ela representa e não com o gênero dessa palavra". Assim, o homem haverá de dizer: "A gente ficou pasmado"; a mulher, porém, dirá: "A gente ficou pasmada".

Para os mais interessados, a pronominalização de "a gente" é descrita na tese [6] de Célia dos Santos Lopes, por exemplo (pg. 29, minha ênfase):

O contraste de gramaticalidade, nos exemplos abaixo, evidencia a mudança nos traços morfo-semânticos propostos para gente [+fem, φFEM] > a gente [φfem, αFEM]:
A) Toda a gente da minha aldeia ficou arrasada com as inundações.
B) *Toda a gente da minha aldeia ficou arrasado com as inundações.
C) A gente ficou arrasada com as inundações (eu + alguém/todo mundo, mas com referência exclusiva a mulheres).
D) A gente ficou arrasado com as inundações. (eu + alguém/todo mundo, referindo-se a um grupo misto e/ou a um grupo exclusivo de homens).

Por enquanto, pode-se dizer que a passagem da agramaticalidade de (B) para gramaticalidade de (D) deu-se pela perda da especificação do traço formal de gênero presente no substantivo e neutro nos pronomes pessoais “legítimos”:
[+fem] > [φfem]. Semanticamente a passagem do gênero neutro [φFEM] para o subespecificado [αFEM] também referenda a pronominalização da forma, na medida em que, como se viu, os pronomes pessoais “legítimos”, apesar de terem gênero formal zero, são subespecificados quanto ao gênero semântico.

Fontes

[1] Jessé Mourão (2023) "A concordância de número no português brasileiro: uma análise formal no quadro na gramática léxico-funcional", Fórum Linguístico v. 20 n. 3, DOI: http://dx.doi.org/10.5007/1984-8412.2023.e76146
[2] Jaime, citado em: Míria Helen Ferreira de Souza, dissertação de mestrado "Literatura e formação humana: Nas entrelinhas das obras infantis de Clarice Lispector" (2014) Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Mossoró, pg. 150. (pdf)
[3] Lola Aronovich, citada em matéria de Paula Guimarães, 2019, Portal Catarinas: https://catarinas.info/a-gente-so-e-valorizada-como-mulher-se-for-mae-ou-decorativa/ (acessado em abril de 2024).
[4] El País Brasil, 2019, "“Racismo acontece de uma forma não dita. Aí reside a sordidez”. A dor do preconceito em primeira pessoa", G.D. de Oliveira, E.B.S. Silva, K.W.R. da Silva, https://brasil.elpais.com/politica/2019-11-27/racismo-acontece-de-uma-forma-nao-dita-ai-reside-a-sordidez-a-dor-do-preconceito-em-primeira-pessoa.html (acessado em abril de 2024).
[5] Bueno, Francisco da Silveira. Português pelo Rádio. São Paulo: Saraiva & Cia., 1938, p. 76. via José Maria da Costa, "A gente - Briga? Ficou sozinho?" Gramatigalhas, setembro de 2021, https://www.migalhas.com.br/coluna/gramatigalhas/350949/a-gente--briga-ficou-sozinho (acessado em abril de 2024).
[6] Santos Lopes, Célia dos. "A inserção de “a gente” no quadro pronominal do português", Frankfurt a. M., Madrid: Vervuert Verlagsgesellschaft, 2003. https://doi.org/10.31819/9783865278494 (pdf)

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  • 1
    Caro @stafusa, muito, muito grato pela aula! Commented Apr 2 at 11:36
  • Í could poke some holes in those arguments. For example: Assim, o homem haverá de dizer: "A gente ficou pasmado"; a mulher, porém, dirá: "A gente ficou pasmada". That assumes a gente is referring to we. A man could be referring to others, not to his own group...A gente que lá estava, for instance...
    – Lambie
    Commented Apr 2 at 15:00
  • 1
    Se perguntares a um falante do português europeu ele dir-te-ia que a concordância devia ser no plural "a gente estamos" o Jessé Mourão está errado quando fala pelos europeus.
    – bad_coder
    Commented Apr 2 at 17:55
  • 1
    Obrigado pelo aviso, @bad_coder, adicionei uma advertência à resposta.
    – stafusa
    Commented Apr 3 at 6:03
  • A gente fomos à festa ontem (uso não correspondente à norma padrão) Claro, fora do padrão além de soar muito mal. O Priberam explica claramente: a gente • [Informal] Locução que corresponde semanticamente ao pronome pessoal nós, mas gramaticalmente a uma terceira pessoa do singular, e que designa o grupo em que se integra quem fala ou escreve (ex.: a gente vai chegar atrasada). "gente", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, dicionario.priberam.org/gente.
    – Lambie
    Commented Apr 4 at 16:19

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