3

Quero saber por que o artigo indefinido se escreve "uns" e não "ums"?

Olhando para os quatro artigos indefinidos:

  • Uma - feminino, singular.
  • Um - masculino, singular.
  • Umas - feminino, plural.
  • Uns - masculino, plural.

Vemos que só no masculino plural se escreve com "n".

Fazendo a análise morfemática acho este exemplo interessante pela simplicidade - apesar de tratar-se de um morfema gramatical e não lexical. Podiamos considerar o "s" como morfema do plural. Para o contraste de género o morfema "a" para o feminino e o morfema zero Ø para o masculino. Portanto:

  • Um-a - feminino, singular.
  • Um-Ø - masculino, singular.
  • Um-a-s - feminino, plural.
  • Un-Ø-s - masculino, plural.

A pergunta que fica é se consideramos como base o morfema "um" e alomorfe o "un"? Como se chama ao processo linguístico que leva à mudança de consoante (e que teoricamente cria a alomofre na base derivante)?

4
  • Isto tudo é de cabeça, então, talvez me falhe a memória. bad_coder, acho que escrevemos uns por dois motivos: escrevia-se assim há provavelmente mais de um milênio, e porque hoje m só indica anasalamento no final de palavra, ou antes de p e b — antigamente, tudo era n. No caso de um, escrevemos -m pela regra que disse. Escrevemos uma, com m, por uma coincidência, pois, uma antes era /ũa/, que leva a uma, imagino pela proximidade de /ũ/ a /m/, Mas acho que já sabias disto.
    – Schilive
    Jul 10, 2022 at 16:49
  • /ũ/ que dizes é fonema de "un" não sei se será o mesmo de "ua". Estive a pensar desde que postei e talvez seja flexão nominal em número simples e.g. jovem -> jovens (nesse caso o "m" também troca para "n" com o plural "s"). Mas fica a pergunta como chamamos tecnicamente à mudança na consoante? (Resposta ao teu segundo comentário: Sim acho que o morfema seria o mesmo porque tem o mesmo significado, portanto alomorfes).
    – bad_coder
    Jul 10, 2022 at 16:49
  • bad_coder, o que me intriga é se é uma mudança de consoante tanto quanto é uma mudança de grafema. Digo, a pronúncia de un-X e um são a mesma (em Portugal, acho que un teria seu n pronunciado), e me parece que a única mudança é a letra. Só por isto, dois morfemas são diferentes?
    – Schilive
    Jul 10, 2022 at 16:53
  • @Schilive eu não sei fazer transcrições de fonética, mas sei que em Portugal "um" e "uns" é distinto na nazalisação do n, mesmo de disséssemos "ums" a pronúncia do n é diferente. Segunda pergunta: não; se o morfema expressa a mesma coisa é 1 só morfema, se tem grafemas diferentes por uma diferença na pronúnica/fonética são 2 alomorfes de 1 morfema. Neste caso o morfema é "um" que coincide com o numeral, e "un" seria alomorfe por ser menos frequente considerando todas as flexões nominais e derivações em conjunto.
    – bad_coder
    Jul 10, 2022 at 17:04

2 Answers 2

3

É mera convenção ortográfica. Os m e n de um e uns não se realizam como consoantes; simplesmente nasalam o u, resultando na vogal nasal [ũ], a mesma nas duas palavras. Eu sei que isto já gerou desacordo nos comentários acima, mas é o que está de acordo com tudo o que vi sobre fonologia da língua portuguesa.

A Gramática do Português da Gulbenkian (tomo III, 2ª edição, 2021), diz explicitamente que um se pronuncia [ũ] (pp. 2828 e 3243), a mesma vogal que em assunto (p. 3255). E no tomo I diz que de um e de uns, quando não se fazem as contrações dum, duns, se pronunciam (em Portugal) [djũ] e [djũꭍ] ([j] como i em diurno, [ꭍ] como em chá). A Infopédia também indica [ũ] em um, e [ũꭍ] tanto em circunscrição como em circum-escolar.

Portanto as terminações -m do singular e -ns do plural são mera convenção ortográfica. Que aliás resultam da regra geral da nossa ortografia que dita que a vogal nasal, quando não é indicada por til (lã, leões), é indicada por m em fim de palavra e antes de b e p, e por n antes de qualquer outra consoante (incluindo s, quer este indique plural ou não): ele tem, vem; tu tens, vens.

Isto não quer dizer que um ouvido atento e apurado não possa detetar diferenças entre o [ũ] de um e o de uns. A Gramática do Português (p. 3247) diz que na fala normal a coprodução de uma vogal (ou outro som) com sons adjacentes “dá lugar a uma variação significativa relativamente ao que se pode considerar serem as suas características canónicas”. Ou seja, a pronúncia exata do [ũ] em uns vai ser afetada pelo s; e em um, pelo som inicial da palavra seguinte se a houver.

Análise morfológica

Isto baseia-se nos capítulos “54 Introdução à morfologia” e “55 Morfologia do nome e do adjetivo” de Maria Antónia Mota (doravante simplesmente Mota) na Gramática do Português da Gulbenkian (tomo III, pp. 2787-2930). Em primeiro lugar, note-se que a morfologia se baseia na fonologia e não na ortografia. A exposição do assunto recorre à forma ortográfica da palavra só para facilidade de leitura (pp. 2836-7), com explicações adicionais onde necessário.

Na notação de Mota, depreende-se que o radical de um e uns é U/N/ (omitem-se as barras, UN, se não houver perigo de confusão), em que /N/ é um “autossegmento fonológico nasal flutuante”, uma “consoante subespecificada” (pp. 2809 e 2855), que para o que nos interessa, quando se liga a uma vogal à esquerda, nasaliza-a, podendo desencadear ditongos (jovem); quando se liga a vogal à direita, realiza-se como [n] (juvenil). Mota apresenta apenas uma breve discussão da morfologia de um e uns (pp. 2827-8):

O artigo indefinido um, que se reduz a uma vogal nasal, sugere a possibilidade de duas análises: um radical com a forma fonológica /uN/ (cf. Nota 23), paralelamente a atum

Mota não nos mostra diretamente a decomposição de um e uns, mas mostra a de atuns. Nas pp. 2868-9 fica claro que o radical de atum é ATU/N/, o de jejum é JEJU/N/, etc., e na p. 2881 mostra-nos o plural de atuns, dizendo explicitamente que a formação do plural não acarreta nada de especial nesta classe de palavras:

A adjunção de -/S/ a uma base que apresenta o segmento nasal /N/ em final absoluto do radical/tema e uma vogal nasal ([ũ], por exemplo), ou o ditongo [ɐ̃j̃] em realização fonética não desencadeia nenhum fenómeno em particular: enter image description here

Explicando: “ATUN” é um radical nominal (RN), onde “N” é o segmento nasal; “―” indica a inexistência de índice temático (IT, corresponde à vogal temática dos verbos); logo, o tema coincide com o radical, dando-nos o singular atum; e /S/ é o marcador fonológico do plural, cuja realização depende do dialeto e ambiente fonológico.¹

Portanto não há nada de especial na passagem do singular ao plural. Há é entre o masculino e feminino. Não nos deixemos enganar pela ortografia: em uma há realmente a consoante fonética [m], enquanto em um há apenas o segmento nasal /N/. Pelo que consegui compreender, uma possibilidade (Mota refere “duas possibilidades de análise”) é admitirmos dois radicais diferentes: U/N/ para o masculino e UM para o feminino. A preferência de Mota vai no entanto para um radical comum U/N/, em que o segmento nasal /N/ em uma e umas se realiza excecionalmente como [m]. Mais ainda, ela adota para um a seguinte abordagem (em alternativa a /uN/ indicada acima, p. 2828):

um tem a forma fonológica /uNu/, sendo a última vogal o índice temático. /N/ nasaliza a vogal precedente (/N/ não se realiza como consoante nasal ― cf. grafia arcaica do português ũu, hũum, huum). Na forma final, há fusão das duas vogais idênticas em [ũ], um.

A elegância desta abordagem é que do mesmo radical U/N/ resulta um paradigma completo em género e número (um, uns, uma, umas) à semelhança dos adjetivos biformes (e.g. belo, belos, bela, belas, do radical BEL). Adotando a notação de Mota ficaria (o índice temático -o é fonologicamente /u/, Ø indica marcador nulo do singular, e /N/ nasaliza o /u/ anterior no masculino e realiza-se como [m] no feminino): enter image description here

No português medieval não havia nada destas complicações: a representação morfológica seria a mesma, mas o índice temático -o do masculino não se fundia com o radical, e o segmento nasal simplesmente nasalava o u anterior quer no masculino quer no feminino (não se realizava como [m]), daí as formas medievais ũu e ũa, pronunciadas com hiato, [ũ.u] e [ũ.ɐ] (resultante da queda no n fonético do latim). O [m] de uma terá surgido como forma de preencher o hiato em [ũ. ɐ] (basicamente os lábios quase fecham para pronunciar [ũ]; se fecharem completamente, ao reabrirem para pronunciar o [ɐ], produzem [mɐ]; vê esta pergunta que explica isto muito bem, e estoutra sobre quando isso terá acontecido).


Nota: ¹ Na pronúncia padrão de Portugal, e em geral de quem chia o s, o /S/ realiza-se como [ꭍ], de chá, em uns cordeiros, como [ʒ], de já, em uns borregos, e como [z] em uns anhos; para quem não chia o s, a maioria dos brasileiros, realiza-se como [s], de aço, em uns cordeiros e como [z] em uns borregos e uns anhos.

1

No português existem algumas regras especiais para colocar uma palavra no plural, não é simplesmente adicionar a letra "s" no final de qualquer palavra.

Uma dessas regras especiais diz que quando os substantivos terminam com a letra "m", no plural trocamos o "m" por "ns".

Ex:

  1. Viagem - Viagens
  2. Comum - Comuns
  3. Capim - Capins

Existem outras regras especiais também para os seguintes casos:

  • Substantivos que terminam com "al", "el", "ol" ou "ul".
  • Substantivos que terminam com "il" caso sejam oxítonos.
  • Substantivos que terminam com "il" caso sejam paroxítonos.
  • Substantivos que terminam em "ão".
  • Substantivos que terminam em "s" ou "x" caso sejam paroxítonos.
2
  • 1
    Sim, depois fui ver e é a simples regra de mudança da consoante m para n quando ocorre o plural. Mas fica o problema formal se consideramos "um" e "un" alomorfes ou simplesmente realizaçõe fonéticas diferentes de um mesmo morfema. Uma outra questão, também formal, é que as gramáticas não dizem explicitamente se os artigos admitem flexão em número ou se devemos considera-los estritamente lexemas diferentes? Sei que é uma formalidade, mas estava à procura de uma referência na literatura em que algum autor tomasse posição sobre estas formalidades.
    – bad_coder
    Jul 27, 2022 at 20:53
  • 1
    Só para complicar mais um pouco, na análise mofemática os artigos são considerados gramemas. A pergunta era se consideramos os quatro gramemas como tendo um radical comum em que um único lexema coincide com um dos quatro gramemas, e se podemos considerar isto como resultado de flexão nominal após o normal contraste de género (contraste de género esse que alguns autores consideram flexão, outros não).
    – bad_coder
    Jul 27, 2022 at 21:02

Your Answer

By clicking “Post Your Answer”, you agree to our terms of service, privacy policy and cookie policy

Not the answer you're looking for? Browse other questions tagged or ask your own question.