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Eu estava a ler "Morfemas do Português" escrito por Valter Kehdi que reproduz a separação das desinências verbais em morfemas de Mattoso da Câmara. O problema é que Mattoso da Câmara não elencou a separação por morfemas Modo-Tempo e Número-Pessoa das desinências do Imperativo Afirmativo. Quero saber como seria feita essa separação? Vou incluir abaixo uma tabela com parte to paradigma de conjugação do verbo cantar da 1ª conjugação para referência que inclui exemplos dos morfemas com alomorfes e excepções.

Base Verbal Vogal Temática Modo-Tempo Número-Pessoa
Presente do Indicativo
cant Ø Ø o
cant a Ø s
cant a Ø Ø
cant a Ø mos
cant a Ø is
cant a Ø m
Pretérito Perfeito do Indicativo
cant e Ø i
cant a Ø ste
cant o Ø u
cant á Ø mos
cant a Ø stes
cant a ra m
Presente do Conjuntivo
cant Ø e Ø
cant Ø e s
cant Ø e Ø
cant Ø e mos
cant Ø e is
cant Ø e m
Condicional
cant a ria Ø
cant a ria s
cant a ria Ø
cant a ría mos
cant a ríe is
cant a ria m

Como deveria ser feita a separação para o Imperativo Afirmativo?

Base Verbal Vogal Temática Modo-Tempo Número-Pessoa
Imperativo Afirmativo
cant a Ø Ø
cant Ø e Ø
cant Ø e mos
cant a Ø i
cant Ø e m

Reparem por comparação que no pretérito perfeito do indicativo os morfemas número-pessoa são excepções ao padrão normal. Eu assumo que os morfemas número-pessoa da 2ª pessoa do singular e 2ª pessoa do plural do imperativo afirmativo também são excepções.

Fazendo a comparação dos morfemas modo-tempo, no condicional podemos ver a alomorfe tempo-modo na 2ª pessoa do plural. Mas se olharmos para o pretérito perfeito vemos que a vogal temática também muda na 1ª e 3ª pessoa do singular. Portanto eu não consigo perceber se no imperativo afirmativo o "a" e "e" são variações na vogal temática ou se são alomofores do morfema modo-tempo. Devia o morfema zero (Ø) preencher a coluna da vogal temática ou a coluna do morfema modo-tempo? (Ou devemos considerar que ocorre acumulação?)

Termino com esta citação de Valter Kehdi:

As desinências acima ilustram, também, o fenômeno da cumulação: exprimem tempo e modo, simultaneamente, bem como número e pessoa. Algumas acumulam outros valores gramaticais: é o caso da desinência número-pessoal -o, que, por figurar apenas no presente do indicativo, passa também a ser marca desse tempo e modo.

Valter Kehdi in "Morfemas do Português".

Também relevante

Assim, temos uma formula geral da estrutura do vocâbulo verbal português:

T (R + VT) + SF (SMT + SNP)

A cumulação num único morfema das noções de modo e tempo determina evidentemente, em princípio, 13 sufixos modo-temporais. Só esporadicamente há neles alomorfia na base da classe mórfica, ou conjugação a que o verbo pertence. Da mesma sorte, há 6 sufixos numero-pessoais,

Segue-se este comentário que penso ser a razão pela qual o Imperativo Pessoal não é analisado no livro:

Tambem, entre os sufixos modo-temporais, não levamos em conta o pouco rendimento do pretérito mais-que-perfeito, já aqui salientado. Nem a obsolescência da área do subjuntivo não-subordinado, ou imperativo, invadida pelo indicativo.

Mattoso da Câmara, in "Estrutura da língua portuguesa" capítulo XIII A flexão verbal Portuguesa do padrão geral.

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  • 1
    Olha isto é muita coisa para absorver duma só vez. Mas duas observações. De origem só havia imperativo na 2ª pessoa; as outras foram tomadas de empréstimo do conjuntivo/subjuntivo. No conjuntivo e condicional, 1ª pessoa, número-pessoa, tens "o", quando deveria ser "Ø". Deves ter feito copy e paste do presente do indicativo.
    – Jacinto
    Apr 14, 2022 at 8:10

1 Answer 1

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É exatamente como tu propões, e não podia ser mais simples. As segundas pessoas, singular e plural, do imperativo afirmativo derivam do presente do indicativo por subtração do -s final:

Modo Tempo
Presente do Indicativo tu cantas vós cantais tu vendes vós vendeis tu partes vós partis
Imperativo Afirmativo     canta       cantai     vende       vendei     parte       parti

Logo, tal como no presente do indicativo, nas segundas pessoas do imperativo de cantar, tens radical cant + vogal temática a. A desinência pessoa-número no presente do indicativo é s na 2ª pessoa do singular, desaparece no imperativo; é is na 2ª do plural, fica só i no imperativo.

Estas são as únicas formas próprias do imperativo (ver esta pergunta sobre o assunto). As restantes do afirmativo ― 3ª do singular e 1ª e 3ª do plural ― e todas do negativo foram tomadas de empréstimo do presente do conjuntivo (subjuntivo no Brasil). E este forma-se a partir do radical da 1ª pessoa do singular do presente do indicativo. De (eu) cant(o) temos que eu cante, tu cantes, ele cante, nós cantemos, vós canteis, eles cantem. Isto é radical cant + desinência tempo-modo e, e o resto é desinência pessoa-número. Nos verbos em -er e -ir a única diferença é que a desinência tempo-modo é a em vez de e: que tu vendas, que nós partamos, etc. Que é a partir da 1ª pessoa do singular e não das outras só se nota quando há irregularidades: eu ouço, tu ouves, ele ouve, mas que tu ouças, ele ouça, etc.

Isto vem explicado na Nova Gramática do Português Contemporâneo do Celso Cunha e Lindley Cintra (Lisboa, 2014, p. 489-90).

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