3

Eu hoje li, em outro site, a citação de um provérbio português que seria traduzido como "a procissão ainda nem saiu da igreja". Esse provérbio, ou ditado, ainda é de uso corrente em Portugal? É usado no Brasil? O significado não é difícil de perceber embora, pessoalmente, eu nunca tenha ouvido. Imagino que seja bem antigo, visto que procissões já "saiíram de moda" há muito tempo aqui no Sudeste do Brasil.

4
  • Talvez exista uma versão mais longa: "a procissão ainda nem saiu da igreja e nem sequer chegou ao adro" (fonte; adro: pátio, "espaço descoberto na frente [...] das igrejas").
    – stafusa
    Oct 26 at 23:29
  • @stafusa, esse exemplo parece ser único e uma elaboração de a procissão nem saiu da igreja influenciada por a procissão ainda vai no adro. E é uma elaboração mal pensada: se dissesses a procissão não saiu do adro, nem sequer ainda da igreja, ainda vá, mas se não saiu do igreja, é óbvio que não pode ter chegado ao adro (o adro é fora da igreja).
    – Jacinto
    Oct 27 at 12:28
  • @Jacinto Concordo, do ponto de vista lógico é um mau complemento (ou há procissões que partem da igreja?). Se ainda por cima não está em uso nem há registro anterior, seria o caso de remover meu comentário inicial.
    – stafusa
    Oct 27 at 13:48
  • @stafusa, não vejo necessidade de retirar o comentário: foi a tua primeira ideia. As procissões mais comuns são no fim da missa: abre-se a porta principal, o pessoal sai e vai formando a procissão no adro. Creio que naquele exemplo, é um título de artigo, o autor simplesmente quis reforçar a versão tradicional.
    – Jacinto
    Oct 27 at 15:40
2

Bem, sendo eu o “culpado”, tenho de responder. É bem conhecida em Portugal a frase feita a procissão ainda vai no adro, significando ’isto é só o começo, vem aí muito mais do mesmo’. O adro (Priberam) é um espaço aberto em frente à igreja, onde normalmente começam as procissões. A Infopédia dá uma definição ligeiramente diferente:

diz-se quando queremos dar a entender que os factos sucedidos não passam do prólogo de outros mais graves que hão de suceder

Isto parece-me demasiado restritivo: provavelmente usa-se a frase sobretudo acerca de coisas más, mas não tem de ser assim. A procissão ainda nem saiu da igreja eu não conhecia, mas encontra-se com o mesmo significado na imprensa portuguesa recente, e a variante ainda a procissão não saiu da igreja ao que parece já vem num livro de 1981 (o Google não mostra o conteúdo). A frase tradicional já vem do século XIX, mas continua perfeitamente atual. Exemplos:

A bravata da defunta [Aliança Democrática] está a produzir cada vez mais vítimas. […] Alguém nos diz que “ainda agora a procissão vai no adro” e mais vitimas vão surgir
Público, 15-4-1999

[…] tudo isto, dizia, determinou a multiplicação dos estudos sobre o salazarismo — e a procissão ainda vai no adro.
Análise Social, 1984

Aqui encontrei uma elaboração que nunca tinha ouvido, apropriada para quando alguém quer fazer algo antes de tempo, parece-me; algumas procissões levam da igreja uma estátua de algum santo, que no fim é posto de novo no altar:

— Quer isso dizer que não tencionas viver um dia com ele?
— Caramba mulher. Isso é o que eu chamo pôr o carro à frende dos bois. Pois se a procissão ainda agora vai no adro já tu queres meter o santo no altar?
Manuela Inês, 2013

No Brasil

Vendo as coisas aqui de Portugal, quer-me parecer que no Brasil a frase sempre foi rara, se não praticamente desconhecida. Vi tudo quanto vai no adro (desde 1800) na Hemeroteca Digital Brasileira e encontrei apenas oito exemplos, sendo cinco de correspondência de Portugal e apenas três de produção local brasileira: um no Jornal do Comércio (1978) de Manaus, e um n’O Dia (1924) e outro na Última Hora (1964) de Curitiba:

Escrevemos nos primeiros dias deste ano que [??] seria marcado pela agudização da divergência franco-americana. Ainda a procissão vai no adro e já o sr. Truman acha dever botar palavra. A que não iremos assistir daqui a meses quando Washington começar a sentir os efeitos da política externa francesa de que se apercebe ainda difusamente?
Vitor Rego, “Truman e a dívida histórica”, Última Hora, Curitiba, 3-3-1964

Your Answer

By clicking “Post Your Answer”, you agree to our terms of service, privacy policy and cookie policy

Not the answer you're looking for? Browse other questions tagged or ask your own question.