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Se, em geral, "picada" é uma coisa negativa, pois remete a dor e coceira, como pode ser que "o fim da picada" seja uma expressão também negativa?

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Picada (Aulete, 3) é também “caminho aberto em mata fechada a golpes de facão ou foice”. E a minha interpretação foi sempre que o fim da picada é ’o fim do caminho’, e quando chegamos ao fim do caminho, não podemos avançar mais, e ficamos numa situação complicada. Esta é também a intertretação no Wikicionário e na revista Veja (2013):

Pois. O fim da picada nada mais é que o fim do caminho, o ponto além do qual já não se pode ou não se quer avançar.

Agora, o que eu não sabia era que o fim da picada já significou também ’muito bom’. Só depois é que passou a significar apenas, nas palavras do Aulete (verbete fim, lá mesmo em baixo), “desagradável, penoso, inconveniente”.

Evolução do uso

Até princípios do século XX, só encontrei mesmo no sentido literal, tipo: “Precisa-se saber quem é o proprietario de um terreno sito no fim da picada em seguimento á rua de Leopoldo” (Jornal do Commercio, Rio de Janeiro,1900). Depois também encontrei no sentido figurado de ir até ao fim, à conclusão, às últimas consequências. N’A Verdade (Cidade de Cabo Verde, MG, 1919), diz-se que o Delegado “chegará ao fim da picada”, querendo dizer que ele irá concluir a investigação e capturar o criminoso. Ou n’(O Jornal (Rio de Janeiro, 1962): “Mulher é assim. Quando toma partido político se apaixona. Vai ao fim da picada”. Mais um exemplo de 1965.

A minha surpresa foi quando vi na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira de 1936 que fim da picada é “superlativo de bom”! E encontrei alguns exemplos desse uso. O Paiz (Rio de Janeiro, 1920) noticia uma festa de Carnaval que ia “ser uma coisa estupenda, que nunca se viu em logar nenhum”, e que ia ser, “incontestavelmente, o fim da picada!!!” Em anúncios no Lavoura e Commercio de Uberaba (1936), a “Loja Benção”, grande “emporio de tecidos” sem “concorrencia em seus preços”, gaba-se de ser “o fim da picada”. Ainda se encontram exemplos deste uso nos anos 50 e 60. Este Boletim… (São Paulo, 1954), depois de explicar que os sul-africanos tinham desenvolvido um boi muito bem adaptado aos trópicos, mas que o brasileiro não era pior, continua:

[…] os moçambicanos não deverão ficar na suposição de que, em matéria de gado de talho no trópico, o Africander é a quintessência ou o “fim da picada”, conforme se diz ente nós.

E Mariazinha Congíli (Môco de recados, 1966) tem:

— Qual é a profissão dêle?
— Ah! Isso não sei. Mas tem um carro que é o máximo! Vou lhe dizer: perto dêle, até o Tony Curtis fica sem graça! E o charme? Poderia dar lições ao Laurence Olivier. Tem uma personalidade mais marcante que o príncipe Philip de Inglaterra. Minha filha, êle é o fim da picada

Mas por esta altura também já se encontram exemplos em que o fim da picada é uma coisa má, como em João Bettencourt (1965):

[…] nunca vi nada pagar tão mal no Brasil quanto jornal. Pior que jornal só mesmo tradução, que é o fim da picada. Agora, o supra-sumo é que o intelectual é tão explorado, tão explorado […]

Portanto, pelos vistos, por volta de 1950, 1960, o fim da picada era usado com no sentido ’o extremo, o máximo’, que poderia ser bom ou mau, e só mais tarde se passou a ser, ainda ’extremo, máximo’, mas já só no mau sentido.

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  • Ja tentou no google
    – ClMend
    Oct 8 at 13:03
  • @ClMend, se eu já tentei no Google? Tentar o quê?
    – Jacinto
    Oct 9 at 6:41
  • A expressão é de uso corrente pelas bandas de cá, mas eu desconhecia essa evolução. +1
    – Centaurus
    Oct 11 at 0:45
  • @Centaurus, pois, fiquei muito surpreendido quando vi aquele "superlativo de bom". Eu só conheço o fim da picada das bandas daí, mas só me lembro de ter ouvido com sentido negativo.
    – Jacinto
    Oct 11 at 18:08

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