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Perguntinha simples, que tenho certeza que a etimologia será capaz de explicar:

Os vocábulos prisão e cárcere são sinônimos, mas por que os substantivos deles derivados, prisioneiro e carcereiro não o são? Até pode-se dizer que são antagonistas!

  • Olhando na lista de sinônimos seria engraçado fazer algumas palavras como "celeiro", "ferreiro" e "xadrezeiro" e tentar ver a relação entre elas. – Math Aug 17 '15 at 13:11
  • O meu dicionário diz que que as origens são do latim carcerarius e do castelhano prisionero, o que se limita a chutar a pergunta um pouco mais para trás. – Jacinto Aug 17 '15 at 13:42
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    Se açougue e casa de carnes são sinônimos, por que açougueiro e carneiro não são? ;-) – bfavaretto Aug 17 '15 at 15:12
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A resposta curta é que o par cárcere-carcereiro é típico na língua portuguesa; prisão-prisioneiro é atípico e possivelmente caso único. Mas vamos à etimologia das palavras.

Cárcere e Carcereiro

Segundo o dicionário Houaiss (Lisboa, 2002) cárcere e carcereiro vêm já do latim. Cárcere vem de carcer, que já significava “‘prisão, calabouço, masmorra’”, mas também (ver verbete carcer-) “‘barreiras que formam a pista por onde devem seguir os carros, bigas, quadrigas; recinto de onde partem os carros numa corrida’”. Carcereiro vem do latim tardio carcerarĭus, que significava ‘relativo ao cárcere’, donde vem a palavra portuguesa carcerário, e também ‘o guarda da prisão, carcereiro’.

O uso do sufixo -eiro para exprimir a relação semântica entre carcereiro e cárcere é comum no português. Segundo o Houaiss (verbete -eiro) o sufixo -eiro vem do sufixos latinos ārĭus e -arĭus e, passo a citar, desenvolvendo as abreviaturas,

[…] quanto às noções semânticas, o sufixo ocorre: 1) predominantemente em vocábulos qualificativos e/ou designativos de homens e mulheres que exercem determinados ofícios, profissões, atividades, etc., os quais são formados por: […] e) substantivo indicativo de local, estabelecimento ou exploração (de mina, de comércio, etc.) + -eiro/-eira, formando designativos daqueles que trabalham em tais locais: açougueiro, adegueiro, banqueiro, fazendeiro, hoteleiro, mineiro ‘trabalhador de mina’, taberneiro, vendeiro, etc.

Prisão e Prisioneiro

Prisão (Houaiss) vem também do latim “prehensĭo, radical de prehensum, supino de prehendĕre”, verbo que originou o português prender. No verbete prend-, o Houaiss esclarece que pre(he)nsĭo significava “‘direito de prender alguém’ (que assiste a alguns magistrados), donde o sentido concreto de ‘prisão’ em romance”. Prisioneiro, segundo o Houaiss, formou-se já no português “provavelmente por influência do francês prisonnier”.

A comparação de prisão prisioneiro com cárcere-carcereiro não é inteiramente justa, porque prisioneiro pode ter derivado de prisão não no sentido de ‘cárcere’ mas de ‘ato de prender’ ou ‘estado de quem está preso’, sentidos estes que estão mais próximos do sentido original do latim *pre(he)nsĭo e que por isso poderão ter surgido mais cedo. No francês, relevante porque poderá ter influenciado o português, de acordo com o Centre Nationell de Ressources Textuelles et Lexicales (CNTRL), prisonnier está atestado em 1176-81, um pouco mais cedo que prison (CNTRL) no sentido de ‘lugar de detenção’, 1210; o sentido ‘captura’ de prison estava já atestado por volta de 1100. Mas as diferenças são pequenas para serem conclusivas.

Mas independentemente da aceção de prisão que tenha originado prisioneiro, não encontro entre as dezassete noções semânticas de -eiro apresentadas no Houaiss (cada uma com várias alíneas) nenhuma que enquadre a relação entre prisão e prisioneiro. E na verdade, o substantivo que designa alguém sujeito a uma ação ou estado derivados de um verbo (como prisão de prender) é normalmente o particípio passado do verbo. Por exemplo, espoliar, espoliação, o espoliado; condenar, condenação, o condenado, excomungar, excomunhão, o excomungado; ferir, ferimento, o ferido; e na verdade nós temos prender, prisão, o preso. Preso vem do latim prehesus ou prensus que é o particípio passado de prehendĕre (Houaiss).

Procurando pares com relações semânticas parecidas, ainda pensei em passagem-passageiro: o passageiro é alguém que é sujeito a passagem, ainda que voluntariamente, ao contrário do prisioneiro relativamente a prisão. Mas nas primeiras ocorrências que encontrei no Corpus do Português, passageiro era alguém que passava pelo seu próprio pé, tento portanto a mesma relação de agência relativamente a passagem que caminheiro tem em relação a caminho. Portanto parece-me que o par prisão-prisioneiro é provavelmente caso único na língua portuguesa

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Uma resposta simples seria que cárcere é um objeto, enquanto que prisão é um lugar, o que induz à acepção do sufixo (que é apenas um indicador de relação) em um termo emprestando o sentido de agente, e em outro o de pertencente.

Outros exemplos desse segundo caso são os gentílicos (brasileiro, etc.)

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A língua é convencional, e o uso de sufixos é convencional também.

Veja só:

marmelada - doce feito de marmelo

limonada - suco de limão

martelada - golpe dado com martelo

palhaçada - ação ou comportamento típico de palhaço

ou seja, o sufixo "ada" pode ter diferentes significados ou funções, dependendo de a qual substantivo ele se liga (e nem sempre há lógica nisso; goiabada é coisa de comer, mas laranjada é para beber, embora tanto laranja quanto goiaba sejam frutas).

"-Eiro" é geralmente um sufixo que carrega a noção "quem faz":

Padeiro - quem faz pão

Sapateiro - quem faz sapatos

Coveiro - quem faz covas

Daí parece ter adquirido um sentido profissional, que nem sempre tem a ver com a atividade de fazer (o substantivo a que -eiro se liga):

Banqueiro - quem é dono do banco

Barqueiro - quem "dirige" o barco

Açougueiro - quem trabalha num açougue

Carcereiro - quem cuida do cárcere

Palheiro - quem trabalha com palha

E não quem faz bancos, barcos, açougues, cárceres, ou palha.

Ou seja, o uso do sufixo -eiro é extremamente irregular, como aliás o da maioria dos sufixos. Então a resposta genérica para a sua pergunta é a seguinte: por que não há nenhuma regra fixa que estabeleça qual a relação entre um substantivo "x" e um substantivo "x+eiro". O exemplo é chamativo porque "cárcere" e "prisão" são praticamente sinônimos, enquanto "carcereiro" e "prisioneiro" são complementares. Mas a semelhança de significado entre dois substantivos não implica a semelhança de significado entre as palavras derivadas desses substantivos pela justaposição de um mesmo sufixo.

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