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Ouvi uma senhora portuguesa, já de certa idade, dizer: "em maio há muito ceifão, mas em Santa Isabel é que se vê quem eles são". Fiz uma busca no Google mas sem nenhum resultado. Encontrei, no entanto, "... em junho é que se vê quem eles são". No contexto da conversa que ouvi, o significado pareceu ser "leva algum tempo para se conhecer a verdade". Pergunto então:

  • Qual o significado exato do(s) provérbio(s)?
  • "...mas em Santa Isabel é que se vê...", é o mesmo provérbio que "em junho é que se vê"? Têm o mesmo significado? Por que "Santa Isabel"?
  • Conheço "ceifão" como sendo um tipo de foice e é essa a definição que encontrei no dicionário. Porque então "há muito ceifão"? O correto não seria "muitos ceifões"?
  • "Em junho é que se vê quem eles são" — Eles quem? Os ceifões?
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  • O dicionário que viste é o Aurélio, certo? Nos que vi, ceifão não aparece como ferramenta, apenas como pessoa que ceifa. Mas encontrei numa Etnografia da Beira um ceifão que é tipo de foice. Exemplo único, por oposição aos muitos (que deves imaginar que vi) de ceifão pessoa. – Jacinto Feb 10 at 10:40
  • @Jacinto Não foi o Aurélio. Foi um dicionário online, mas não me recordo qual. Procurei agora e não o encontrei. Posso ter me enganado. – Centaurus Feb 10 at 20:10
  • Você, downvoter, estaria ajudando a melhorar minha pergunta se explicasse o que não lhe agradou. Se eu recebo um downvote juntamente com o motivo, não serei eu vil e medíocre a ponto de pensar em retaliação. O ambiente aqui tem que ser esse, o de aceitar críticas construtivas. Já basta um outro site que frequento onde alguns membros dão seus downvotes de acordo com simpatias ou antipatias pessoais, e não pelo valor do que foi postado. – Centaurus Feb 11 at 22:57
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Também não encontrei a versão com Santa Isabel. A versão com junho vem em vários livros de provérbios, mas não encontrei explicações nem sequer exemplos de uso. No entanto o que descobri acerca dos vários elementos é coerente com a tua interpretação — “leva tempo para se descobrir a verdade” — mas o texto sugere-me algo mais preciso: é na hora de agir que se vê o que uma pessoa vale. Temos de ir por partes.

Ceifão é o mesmo que ceifeiro, ou ’homem que trabalha na ceifa, que colhe o cereal com uma foice’ (ver Priberam, Infopédia ou, porque não, já que falamos de coisas antigas, o Moraes Silva de 1789). E muito ceifão é o mesmo que muitos ceifões (ver esta pergunta).

Santas Isabéis há quatro, mas de longe a mais conhecida em Portugal é a Rainha Santa Isabel de Portugal, padroeira de Coimbra. Toda a gente em Portugal já ouviu falar dela e do milagre das rosas. Acresce que o dia dela é o 4 de julho, muito próximo de junho, o que permite admitir que “em Santa Isabel” e “em junho” se refiram à mesma coisa, nomeadamente ao tempo das ceifas, que é por essa altura. Já os dias das outras Santas Isabéis são muito afastados de junho: em novembro (Isabel mãe de João Batista e Isabel da Hungria) e fevereiro (Isabel de França).

Agora, o ditado diz que “em maio há muito ceifão”, mas maio não é mês de ceifa em Portugal: as ceifas são em junho e julho. É assim na região onde cresci (Torres Vedras, a uns 50 km a norte de Lisboa), e a Revista Lusitana (1927, p. 14-15) diz o mesmo de Portugal em geral:

O amanho das terras dá que fazer em Abril. Maio sossega, e deixa esperar as colheitas […] Em Junho, são as ceifas (Sul) com a actividade febril dos ceifeiros, as segas (Norte) com o segadores (segar = ceifar).

A Revista ilustra isto com vários provérbios (que eu não conhecia): “Em Junho, fouce em punho” (fouce = foice, ’ferramenta para ceifar’), “Feno alto e baixo, em Junho é segado”, ou “Maio pardo (chuvoso, nevoado), Junho claro, — para aloirar as searas e ter ceifas ou ségas enxutas”. E este Boletim (1960) regista “Por São João [24 de junho] / Ergue as uvas do chão / E apronta a roipa ao ceifão”.

Então uma interpretação razoável é: em maio, antes das ceifas, há muitos que se dizem ceifões, que se mostram disponíveis para ceifar, mas quando chega realmente o tempo da ceifa, em junho ou em Santa Isabel (4 de julho), é que se vê quem é que é mesmo ceifão: quem é que realmente quer e sabe ceifar, e aguenta este trabalho muito árduo (esta Memória... de 1811 relata que morriam trabalhadores na ceifa por causa da posição curvada e exposição ao sol e calor do verão, “o único trabalho em que o homem morre”). Generalizando, eu posso dizer maravilhas de mim mesmo, e que faço e que aconteço, mas quando chega a hora de agir é que tu vês se eu realmente valho alguma coisa, se sou o que digo ser, se faço como prometi.

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  • Então "em Santa Isabel" refere-se ao dia de Santa Isabel. Faz sentido. "Em maio tem muito ceifão" refere-se a muitos homens plantando, semeando a terra? E, em junho ou em Santa Isabel estão a colher a safra? Não é muito pouco tempo para alguma coisa crescer e ser colhida? – Centaurus Feb 9 at 20:41
  • Torres Vedras é conhecida aqui pelos festejos de Carnaval. – Centaurus Feb 9 at 20:44
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    @bad_coder, pois, cada voto é uma decisão individual, e cada votante é soberano; é o que é. A tua resposta ajudou-me, porque fiquei logo a saber que havia várias Santas Isabéis (só conhecia a de Portugal). Mas de resto não achei convincente; por isso não votei. Também não critiquei; tanta coisa a discutir, ficaria um estendal de comentários; teríamos de ir para o chat. Eh pá, eu espero que o pessoal não veja na minha resposta uma elaboração sobre devoções. Conhecer um santo e o seu dia nem implica devoção. Eu sabia da Rainha Santa Isabel de Portugal, mas (lá vai estendal) >> – Jacinto Feb 10 at 10:05
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    Lendo novamente a tua resposta, penso que "é na hora de agir que se vê o que uma pessoa vale" é exatamente o que o provérbio diz. – Centaurus Feb 14 at 1:29
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    Sim, faz sentido. Acho muito bom alguém desenterrar provérbios antigos de vez em quando para que não se percam de vez. E quando entendemos o que significavam, melhor ainda. – Centaurus Feb 14 at 13:31
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É preciso ver que se perguntarmos ao falantes o significado exacto de um provérbio eles normalmente dão uma resposta muito simples e intuitiva. O uso dos provérbios também é algo local, muitas vezes ligado às culturas e estações do ano num dado micro-clima:

Visto por partes, a primeira é mais fácil de responder:

“Em maio há muito ceifão

Isto significaria ou a estação das colheitas ou a época antes de começar o clima seco do verão. Em geral, tomando o clima de Portugal como referência, eu consideraria isto o tempo que marca o fim de "roçar erva" ou "ceifar erva" nas hortas e nos campos. É o momento em que deixa de haver chuva sufficiente e a erva começa a secar - passando a paisagem de verde a castanho.

A importância disto prende-se a várias razões, o gado herbívoro é alimentado a erva que é preciso ceifar, portanto os criadores de gado quando a erva seca deixam de ceifar e começam a preparar-se para a colheita do milho e armazenamento de palha e forragens. O mesmo para o agricultor, que neste momento do ano vê a erva no seu máximo crescimento a roubar nutrientes às plantas horticulas e de cultivo - precisa pois de ceifar a erva para consevar as culturas.

"...mas em Santa Isabel é que se vê...", é o mesmo provérbio que "em junho é que se vê"? Têm o mesmo significado? Porque "Santa Isabel"?

Essecialmente Junho marca o ínicio da época de verão, portanto da época seca. É uma altura em que se pode começar a prever se as colheitas vão ser mais ou menos abundantes. Na prática é o primeiro mês do ano em que as colheitas podem entrar visivelmente em "stress hídrico". Dependendo da região de Portugal, é um momento que pode ser mais ou menos grave ou reversivel se o tempo mudar.

A referência a Santa Isabel é um bocado mais complicada de análisar. Seria necessário primeiro ver de qual Santa Isabel se está a falar. Pode ser Santa Isabel mãe de João Baptista, Santa Isabel da Húngria, etc...

Não é possivel deduzir unicamente do provérbio a qual santo se refere, até porque se um determinado santo for padroeiro de certa terra poderá referir-se a esse santo e não a outro homónimo.

Uma forma de tentar deduzir qual poderá ser o santo é olharmos para os dias de festa no calendário litúrgico. No link por acaso não aparece assinalado mas para Santa Isabel mãe de João Baptista será o dia 5 de Novembro - o que é interessante pois é a altura do ano em que as colheitas já estão terminadas e por aí poder dizer-se: "é que se vê", ou seja, "como correram as colheitas e o ano".

"quem eles são"

Neste caso é uma simples personificação dos destinos e das sortes. "Como as coisas correram e ficaram" personificado "como eles são". (Sim, porque com as pessoas é como com o tempo, só passado um tempo ficamos a saber como as coisas correram e quem eles afinal são.)

Finalmente: Não fui capaz de encontrar a referências mas estudos universitários recentes dos próverbios populares ligados a meteorologia indicam que aproximadamente 80% estão correctos na sabedoria que as suas previsões contém.

Ficam um link para leitura (a bibliográfia deste artigo é relevante):

CORES DO CÉU – METEOROLOGIA POPULARNOS PROVÉRBIOS PORTUGUESES, Zyta Padała. Romanica Olomucensia 27.2 (2015): 203–211 (ISSN 1803–4136)

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