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Escutei pela primeira vez o ditado e fiquei muito curioso sobre sua origem:

“Boi preto conhece boi preto”.

Encontrei o mesmo numa frase do Clodovil Hernandes que diz assim:

“Da fruta que eu gosto, o Leonardo di Caprio chupa até o caroço. Falo isso porque boi preto conhece boi preto.”

Qual é o significado deste ditado? Qual a sua origem histórica?

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  • Não conheço o ditado, mas parece indicar que iguais se reconhecem. É o que o contexto do exemplo de uso sugere.
    – stafusa
    Nov 25 '20 at 23:49
  • Estou quase certo que ele "parafraseou" isso. Nov 26 '20 at 3:39
  • Grande @GuilhermeNascimento ... então, ontem foi a primeira vez que ouvi aqui no trampo. Achei curioso a colocação do meu colega aqui no momento em que falou. Parece mesmo que foi parafraseada, mas não da para ter certeza.
    – viana
    Nov 26 '20 at 11:45
  • Pesquisando na Internet, encontrei um site (forum.wordreference.com/threads/…) que contém alguma dica de significado: “Existe um ditado popular que é ‘Boi preto conhece Boi Preto’, que significa algo algo como: ‘Malandro (re)conhece Malandro’ ou ‘trambiqueiro (re)conhece trambiqueiro’”. Logo, indica-se que @stafusa está certo.
    – Schilive
    Nov 26 '20 at 16:57
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    Nunca ouvi, e acredito não ser um ditado popular na minha região. Pode até ter sido criado pelo próprio Clodovil, e muitas variações são possíveis: "raposa conhece raposa", "falsário conhece falsário". Tudo em cima do mesmo tema: dois iguais se reconhecem.
    – Centaurus
    Nov 26 '20 at 18:20
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Ao que tudo indica, a frase boi preto conhece boi preto foi criada pelo próprio Clodovil Hernandes numa entrevista à revista Veja em 8 de fevereiro de 2006. Digo isto porque:

  1. Vários artigos posteriores atribuem boi preto conhece boi preto a Clodovil Hernades, como estes no Jornal do Brasil (29-1-2008) e no Correio Braziliense (24-9-2008). Este no Plantão de Ponta Grossa (23-3-2010) afirma que a frase “[n]ão é uma criação do meio rural, muito ao contrário, é uma metáfora zoológica de Clodovil”. E estoutro n’O Explorador (24-4-2019) dá-nos a referência exata: entrevista a Amaury Júnior na Veja nº 5, 8 de fevereiro de 2006, p. 40/41.
  2. Não encontrei em lado nenhum a frase antes de 2006. Procurei no Google geral, Google Books, na Hemeroteca Digital Brasileira, que tem o texto integral de centenas de periódicos brasileiros dos últimos duzentos anos, e nada.
  3. Das várias pessoas que se pronunciaram, ver comentários à pergunta, quase ninguém conhecia a frase.

O Explorador conta que Clodovil nessa entrevista de 2006 afirmou que o casamento de Leonardo di Caprio com Gisele Bündchen não deu certo porque ele é gay. E que ele, Clodovil, sabe isso porque “boi preto conhece boi preto”: Clodovi, gay assumido, sabe ver se outro homem é também gay.

A frase foi depois usada a propósito de outro tipo de pessoas. Por exemplo, no Plantão de Ponta Grossa (2010) é a propósito de político conhecer outro político. Mas pessoal escrevendo sobre homossexualidade teve naturalmente uma predileção por ela. Por exemplo, este “Ensaio sobre o radar ou Boi preto conhece boi preto” (Inconfidências íntimas,1-12-2010); o título refere-se à alegada capacidade de um gay “encontrar outros gays mesmo em ambientes eminentemente heteronormativos”.

Como observado nos comentários à pergunta, a noção pode ser expressa de mil maneiras diferentes, e é bem possível que o Clodovil tivesse simplesmente adaptado uma frase já ouvida. Por exemplo, no Monitor Mercantil em 2003 temos “Ladrão conhece ladrão”, apresentado como mais ou menos equivalente ao “provérbio americano ‘Set a Thief to Catch a Thief’”. E temos “malandro conhece malandro no olho” (que imagino exprima a mesma ideia) já em 1979 neste Manuscrito do heróico empregadinho de bordel de Mário Lago.

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O exemplo dado é uma figura de linguagem plurissignificativa, em todos os casos naturalista e biológica. Podemos dizer que tem ambiguidade por conter um duplo sentido que não pode ser inteiramente resolvido.

Permite simultaneamente uma interpretação em sentido literal e em sentido figurado. Se figurado é uma metáfora zoomórphica em que associamos características do animal à pessoa, se em sentido literal remete para as características do animal no seu todo.

O jogo de sentidos é deixado em aberto, embora mantendo um duplo sentido estrito, com uma semántica tão vasta quantos sentidos e características possamos ou queiramos associar ao animal nomeado. A semántica essencial é:"semelhante reconhece semelhante".

Por outro lado é minimalista em termos sintáticos, o jogo de palavras assenta na seguinte estrutura fixa: a repetição do nome comum de uma espécie de animal (variável) -nos comentários foi dado outro exemplo com adjectivo em vez de substantivo- em torno de uma verbo fixo "conhece" ou o seu derivado por prefixação "reconhece" sempre conjugados na 3ª pessoa do singular do pretérito presente do indicativo de "reconhecer". A adjectivação é uma redundância, portanto um pleonasmo; O boi ser preto ou branco particulariza mas não faz diferença - nada acescenta.

O conjunto não constitui um ditado popular, excepto talvez se for um provincianismo restrito no espaço a uma sociedade particular. Constitui sim uma figura de linguagem, nisso é universal, e deve a sua força à simplicidade mnemónica.

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