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A palavra "pau" foi e ainda é usada como um dos sinônimos para dinheiro (no singular mesmo — linguagem coloquial e das ruas), porém de onde ela surgiu? Exs.:

  • "Isso aqui custa 5 pau"
  • "Deu 100 pau de desconto"
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Coisas como cinco pau, cem pau são uma variante popular brasileira de cinco paus, cem paus, que é uma gíria comum possivelmente a todos os países de língua portuguesa — não encontrei em São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, mas possivelmente apenas porque há pouca coisa desses países na net.

E é uma gíria já antiga. No Brasil já estava em uso em 1895, como mostra este artigo no Jornal do Brasil de 13 de janeiro de 1895 — um indivíduo empresta “20$” a um “inimigo íntimo” e fica muito contente, porque (grafia original e negrito meu em todas as citações):

— Pudera não? Aquelle sujeito mordeu-me vinte páus.
— E é por isso que estás alegre assim?!
— De certo! Poderia ter me mordido muito mais.

Em Portugal encontrei a partir de 1939, mas já num dicionário, no Novo Dicionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo:

Pau […] Fam[iliar] Dez tostões, um escudo: gastou 20 paus no almôço

Não encontrei nada sobre a razão de se chamar pau ao dinheiro, e imagino que não será fácil ou mesmo possível encontrar. Além das designações não-oficiais para unidades monetárias partilhadas por Portugal e Brasil, como mil réis que deu em merréis, contos e paus, existe, só em Portugal (possivelmente também no Brasil), uma quase infinidade de gírias para dinheiro, identificada por Heinz Kröll em O eufemismo e o disfemismo no português moderno (Lisboa, 1984; p. 55-57). Para dinheiro em geral há:

massa, massaroca, bagalhoça, c’roas, cobres, arame, bago baguinho, bagulho, caroço, cascalho, mosca, painço, cacau, carcanhóis, cebo, chinfres, ferros, guita, lecas, milho, naipe, pasta, pilim

Falando-se de quantias pequenas, normalmente para se dizer que não se tem dinheiro:

chavo, chelpa, vintém

Equivalente a escudo, a moeda portuguesa antes do euro, além de paus:

barrote, malho, mango, manguço, palhaço

E depois ainda havia gírias para as notas: bilhestres e pápulas para notas em geral, lençóis para notas de grande valor, folha de alface (20$), linguado, pacote ou quilo (1000$), pintor (100$) e meio pintor (50$).

Portanto parece que no que toca a gírias para dinheiro, o pessoal tem uma imaginação ilimitada.


Pau versus Paus

O pau sem a marca de plural /s/ da língua padrão, é um fenómeno comum em certos falares populares brasileiros, em que (ver Thaïs Cristófaro Silva, Organização fonológica de marcas de plural no português brasileiro) :

[…] a marca do plural é preservada somente no constituinte mais à esquerda do sintagma nominal [nota de rodapé omitida] “os meninos bonitos” e “os menino bonito”, ou “uns dias alegres” e “uns dia alegre”.

É fácil de ver que o plural pode também ser marcado simplesmente pelo número: “Quatro perna tem a mesa, quatro dia o carnaval” (Raul Seixas, Os números), “dois pau de jacarandá” (Anais do Arquivo Público da Bahia, 1985), “eu sustento duas mulher, e a minha mulher sustenta dois home” (Gabriel O. Alvarez e Luiz Santos, Tradições negras, políticas brancas, 2006).

Paus enquanto ’dinheiro’ é gíria, e é possível que na gíria o pessoal tenha mais tendência a usar formas de expressão popular, e daí a não marcação do plural no pau de cinco pau, cem pau, etc.

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