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Venho a ler Moderna Gramática Portuguesa de Bechara.

No livro, se fala que "propriíssimo" é correto, mas cita que Dias Gomes escrevia "propríssimo"; porém, não diz que Dias Gomes estava errado, diz "a língua padrão insiste no atendimento à manutenção dos dois ii". Não se diz "errado" de "propríssimo", apenas que há uma insistência da língua padrão a "ií".

Parece que Bechara tem um tom mais descritivo, porém seu livro é usado como referência do correto. Se alguém escrever "propríssimo", um professor o/a tacha de burro e inculto; mas não diria o mesmo de Dias Gomes.

Por que isso acontece tanto? Digo, qual diferença entre a Maria escrever "propríssimo" e Dias Gomes escrever "propríssimo"?

P.S.: eu coloquei esse título, pois, não consegui pensar num que seja melhor.

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    O Evanildo Bechara é tido como uma referência mas alguns aspectos (detalhes) da sua obra são considerados controversos. É preciso ter em conta que na época em que o autor escreveu as gramáticas de referência para o português contemporâneo eram escassas. O mercado editorial era completamente diferente. Também, a linguística enquanto campo científico a nivel internacional teve um forte crescimento na década de 60. Hoje pode parecer que esses autores estavam errados mas são aspectos sobre os quais eles decidiram pronunciar-se e que sem reunir consenso dão margem para discussão. – bad_coder Aug 15 '20 at 9:02
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    @bad_coder, eu não estava dizendo que Bechara está (ava) errado. Estou dizendo que o livro não disse que A em vez de B era errado, um livro que é referência para muitas pessoas; mas que muitas dessas pessoas tacham quem usa A de burro, porém jamais falariam o mesmo de Dias Gomes. Eu não estava falando especificamente de "í" em vez de "ií". Desculpa, se não escrevi bem a pergunta; eu estou com sono. – user4788 Aug 15 '20 at 9:53
  • Não tem problema, foi só um comentário (para dar um contexto histórico ao autor). Acho a pergunta boa e estou interessado em ver as respostas que possa ter. Gosto da obra do Evanildo Bechara mas calhou nunca ser a minha gramática de referência, vou revisitando os livros dele sem ter um conhecimento profundo. – bad_coder Aug 15 '20 at 10:00
  • @bad_code, qual é a tua gramática de referência? Estou perguntando, pois, será o próximo item da minha lista de leitura. – user4788 Aug 15 '20 at 19:50
  • Eu gosto da "Nova Gramática do Português Contemporâneo" de Celso Cunha e Lindley Cintra sei que há obras melhores e mais modernas, mas continua a ser a minha primeira escolha porque gosto. A obra sempre foi louvada, apesar das críticas. Não é um tratado de linguística, muito menos com a terminologia mais moderna. É limitado em muitos aspectos, mas continua a ser uma referência. Também é livro muito comum, se procurares no sebo encontras barato. – bad_coder Aug 15 '20 at 19:59
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O tratamento do assunto pelo Bechara é razoabilíssimo. Taxar de erro todo e qualquer desvio à norma padrão é tacanhez. E se o professor procede assim com a Mariazinha, certamente não é o Bechara que tem a culpa.

Para quem ainda não viu, vale a pena ver por inteiro o que diz o Bechara (Moderna Gramática Portuguesa) acerca do sufixo -íssimo:

Observação: Chamamos a atenção para as palavras terminadas em -io que, na forma sintética, apresentam dois is, por seguirem a regra geral da queda do -o final para receber o sufixo:
          cheio → cheiíssimo, cheiinho
          feio → feiíssimo, feiinho
          frio → friíssimo, friinho
          necessário → necessariíssimo
          precário → precariíssimo
          sério → seriíssimo
          sumário → sumariíssimo
          vário → variíssimo
Observação: a tendência da língua à fuga ao hiato leva a que apareçam formas com fusão dos dois ii, embora num ou outro adjetivo a eufonia impede a mudança: *fríssimo, *varíssimo, por exemplo, embora Dias Gomes (séc. XVIII) escrevesse propríssimo. Ainda que escritores usem formas com um só i (cheíssimo, cheinho, feíssimo, seríssimo, etc.), a língua padrão insiste no atendimento à manutenção dos dois ii.

Portanto o Bechara descreve a norma padrão, dois ii, e a escrita desviante só com um i de alguns escritores. Agora, é preciso ver a natureza da norma padrão e desvios a ela. A língua compreende, e sempre compreendeu, muitas variedades; uma dessas variedade é a norma culta, que compreende, ela mesma, grande diversidade. Dessa variada norma culta extrai-se a norma padrão. Nas palavras do Prof. Carlos Alberto Faraco (ver esta pergunta, em que eu tratei esta questão mais desenvolvidamente):

a norma padrão é uma codificação relativamente abstrata, uma baliza teoricamente extraída do uso real para servir de referência a projetos políticos de uniformização linguística.

Algumas pessoas, como o proverbial professor da Mariazinha, parecem querer inverter isto. Parecem pensar que a língua começa com a norma padrão, como se a língua tivesse sido criada a régua e esquadro por uma comissão de sábios, e que qualquer desvio a essa norma padrão é um erro; é as pessoas que não sabem falar.

Mas um desvio à norma padrão pode ser simplesmente uma parte dessa diversidade, que existe mesmo dentro da norma culta, que ficou de fora da norma padrão. No caso em apreço encontra-se no uso culto formas com dois ii e com um só i. A norma padrão elegeu a forma com dois ii. É possível que tenha sido esta a forma mais comum no passado; uma busca sumariíssima no Google Books para isso aponta (mas, possível exceção, nos século XIX só encontrei sumaríssimo, não sumariíssimo). Os dois ii podem ser enquadrados numa regra geral: quando o adjetivo termina em vogal simples a, e ou o, a vogal cai e acrescenta-se -íssimo (belo → belíssimo), como menciona o Bechara. Como este sufixo foi introduzido na língua tardiamente por via culta, é natural que a aplicação de uma regra geral tenha tido peso. E nalguns casos os dois ii são indispensáveis: ninguém entenderia *fríssimo ou *píssimo; tem de ser friíssimo e piíssimo (de pio).

Portanto a norma padrão elegeu uma derivação regular: cai a vogal final e acrescenta-se o sufixo. Mas mesmo na expressão culta, surgiram formas com um só i por razões de eufonia, que têm vindo a ser crescentemente adotadas. Quer-me parecer que mesmo a norma padrão — o que dizem as gramáticas e dicionários — está em fluxo, e que o Bechara está no extremo mais conservador. No dicionário Houaiss (Lisboa, 2002) e no Vocabulário Ortográfico Comum da CPLP encontrei apenas formas com os dois ii, mas existem já gramáticos que vão mais longe que o Bechara, e dizem não só que há escritores que usam formas com um só i, mas, explicitamente, que as duas formas são aceitáveis. Ver artigo do Prof. Pasquale na Folha de S. Paulo e estoutro da Cláudia Pinto no FLiP.

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  • Obrigado, @Jacinto. Por sinal, eu não tinha quisto dizer que Bechara estava errado, mas acho que me expressei mal. – user4788 Sep 3 '20 at 21:48
  • @Schilive, não entendi que quisesses dizer que o Bechara estava errado; mais que ele tinha dado tratamento especial ao Gomes Dias. – Jacinto Sep 4 '20 at 6:49
  • eu quis dizer que Prof. Joana chamaria a Mariazinha de errada e inculta se escrevesse "propríssimo", mas nunca chamaria Gomes Dias de errado e inculto; enquanto um livro de gramática não chamaria nem a Mariazinha, nem Gomes de errados e incultos. – user4788 Sep 4 '20 at 21:12
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    @Schilive, foi a pensar nesse tipo de professor que eu escrevi "Algumas pessoas parecem querer inverter isto". Vou meter isto mesmo na resposta. – Jacinto Sep 7 '20 at 10:55

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