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Já vi, em alguns textos mais antigos, se escrever (1) "tratal-o" ao invés de "tratá-lo". Escrever-se "tratal-o" tem mais sentido, já que é como se o R tivesse "se transformado" em L — algo que não é incomum, em línguas. Não estou falando do acento.

Tendo isso em vista, por que foi mudada a grafia de "l-o" para "-lo"?

(1) http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/LIM3270.htm

§ 13. Todos os libertos maiores de 60 annos, preenchido o tempo de serviço de que trata o § 10, continuarão em companhia de seus ex-senhores, que serão obrigados a alimental-os, vestil-os, e tratal-os em suas molestias, usufruindo os serviços compativeis com as forças delles, salvo si preferirem obter em outra parte os meios de subsistencia, e os Juizes de Orphãos os julgarem capazes de o fazer.

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A grafia acertá-lo faz sentido porque os nossos pronomes o, a eram antigamente lo, la. Eis o que diz a Nova Gramática do Português Contemporâneo de Celso Cunha e Lindley Cintra (Lisboa, 2014, p. 358):

1.ª As formas antigas do pronome oblíquo objeto direto eram lo(s) e la(s), provenientes do acusativo do demonstrativo latino ille, illa, illud (= aquele, aquela, aquilo). Pospostas a formas verbais terminadas em   -r, -s ou -z, o seu l- inicial assimilou aquelas consoantes, que depois desapareceram:

        fazer-lo > fazel-lo > fazê-lo
        fazes-lo > fazel-lo > faze-lo
        fiz-lo > fil-lo > fi-lo

A assimilação mencionada acima refere-se ao primeiro passo: o l- assimilar o -r, -s e -z significa torná-los semelhantes a si. Manuel Said Ali (Gramática Histórica da Língua Portuguesa, 1931, p. 36-35) dá a mesma explicação.

Agora, até ao século XVI, a tua questão não se punha, porque, explica Said Ali, o pronome enclítico se escrevia pegado ao verbo, sem hífen. Diz ele que o Padre António Vieira (1608-1697) ainda escrevia assim. Depois passou a escrever-se fazel-o, fil-o, etc., e as reformas ortográficas de 1911 em Portugal e 1943 no Brasil é que oficializaram a grafia atual (isto explico eu, que o próprio Said Ali ainda escrevia com o l antes do hífen).

Não encontrei ninguém que justificasse diretamente a mudança da posição do hífen. Para mim faz sentido, porque podemos conceber o lo, la como as formas antigas dos pronomes: o -r, -s e -z não passariam a -l se não estivesse lá originalmente o l- do lo, la. O Formulário Ortográfico de 1911 (XXXIV — outro empregos do hífen) vai ao ponto de dizer que:

São erros inadmissíveis, mas muito frequentes, louval-o, devel-o, punil-o, etc.

Não justificam esta posição, que me parece extremista e absurda. Eu acho acertá-lo mais razoável que acertal-o, mas em 1911, acertal-o era a convenção geral. Eu tenho lido edições antigas de livros do Machado de Assis, Eça de Queiroz, Alexandre Herculano e outros clássicos, e todos eles escreviam fazel-o, fil-o; o Fernando Pessoa ignorou a nova ortografia oficial e continuou a escrever na antiga. Não se pode acusar uma pessoa de cometer um erro inadmissível por ignorar uma norma ortográfica acabada de ser instituída e continuar a escrever como aprendeu.

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  • Eu achava que era "fazer-o" -> "fazê-lo". Mas assim tem mais sentido, realmente. – user4788 Jun 15 '20 at 23:38
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    @Schilive, eu não sei se alguma vez tinha pensado alguma coisa. A exposição na Gramática Histórica (link na resposta) é muito interessante. Dá exemplos antigos, fosteslo (foste-lo), creerlos (crê-los), e coisas que já não se usam, como todolos, formado pelo mesmo processo de todos + los. – Jacinto Jun 16 '20 at 7:10

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