4

Qual a pronúncia que se assemelha mais com o Português falado há séculos? 4 Séculos atrás, Ex.

A pronúncia do Brasil, a de Portugal, ou outra?

1
  • 1
    Você se refere à pronuncia ou sotaque ? (pronunciation or accent?) falado há séculos onde ? Em Portugal ou nas colonias ? Quantos séculos atrás ? Falado há 10 séculos em Portugal ? Talvez ainda nem fosse língua portuguesa, mas sim o galego-português. Falado há 3 ´seculos no Brasil ? Sua pergunta precisa ser mais específica e mostrar o que você encontrou a respeito.
    – Centaurus
    May 24 '20 at 17:23
10

Provavelmente uma do Brasil.

Nenhum lugar manteve a pronúncia (ou gramática, ou vocabulário) exatamente como era há séculos; e não é trivial julgar quais diferenças seriam mais ou menos significativas, para que se possa declarar que esse ou aquele dialeto é o que teria sofrido menor alteração.

Mas, baseado no que encontrei, eu diria que algum dos dialetos brasileiros provavelmente é o mais próximo do falar antigo português - talvez algum mato-grossense ou nordestino.

Por exemplo, o jornalista e editor Denis Burgierman escreve:

nós, brasileiros, mantivemos os sons que viraram arcaísmos empoeirados para os portugueses.

e dá um exemplo interessante:

Luís de Camões (1524-1580) foi o maior poeta da língua. Mesmo assim, o escritor luso Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) achava seus versos péssimos. Há motivo para tal implicância. Um verso de Camões como “e se vires que pode merecer-te”, que para um poeta brasileiro é um decassílabo perfeito – frase de dez sílabas poéticas –, soa mal no ouvido de escritor luso moderno. “Os portugueses comem as vogais que precedem a sílaba tônica, a mais forte da palavra”, explica o gramático Evanildo Bechara, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Assim, o verso vira “e se v’res que pode m’recer-te”. Fica com só oito sílabas, estragando a métrica.

Uma matéria da Revista Pesquisa FAPESP detalha:

“Conservamos o ritmo da fala, enquanto os europeus começaram a falar mais rápido a partir do século XVIII”, observa Ataliba Castilho, professor emérito da USP, que, nos últimos 40 anos, planejou e coordenou vários projetos de pesquisa sobre o português falado e a história do português do Brasil.

É verdade que o português brasileiro contou com a influência considerável de outras línguas europeias e, especialmente, de línguas africanas e indígenas, mas isso se passou de maneira muito heterogênea (o 'r' caipira se concentra ao longo dos caminhos dos tropeiros, a influência do italiano e do alemão se faz sentir mais no sul do país, etc.), e mesmo a influência do português europeu não ocorreu de forma pontual - por exemplo, o 's' chiado, tido como tipicamente carioca, teria chegado, junto com o 'r' gutural afrancesado, com a corte portuguesa ao Brasil no início do século 19.

Mas, aparentemente, todas essas influências se somaram à língua, sem que isso fizesse sua componente portuguesa ter pressa em se alterar.

O linguista Ataliba Castilho (USP) sumariza:

com o desenvolvimento da pesquisa, se verificou que nós estamos muito mais continuando o português [...] do século XV. [...] Não seria o português brasileiro que estava se afastando do português europeu, mas o contrário. Em algum momento o português europeu se afastou do ritmo que ele vinha tomando [...] enquanto que o português brasileiro deu continuidade, claro que com algumas alterações, àquele vocabulário, àquela gramática recebidos quando começou a colonização portuguesa aqui no Brasil.

Outro exemplo concreto, além do ritmo da fala, inclui o infinitivo gerundivo ("está a andar" ao invés de "está andando"), que começou a ganhar popularidade em Portugal apenas no final do século XIX.

Ainda sobre o ritmo de fala, vale citar diretamente uma fonte acadêmica (via esta):

Os historiadores da língua portuguesa concordam em afirmar que a pronúncia do PB é mais próxima da do Português Clássico (doravante PCl) do que a do PE. Este sofreu, com efeito, possivelmente na segunda metade do séc.18 (cf: Révah, 1958; Teyssier, 1980), uma mudança fonológica que está na origem da pronúncia moderna: a chamada redução das sílabas pretônicas.

3
  • 3
    Também já me tinha ocorrido que a poesia clássica portuguesa precisa de um sotaque como o brasileiro para respeitar a métrica "oficial". Mas "vires" nunca passa a "v'res", passa é a virs -- ter-te-ás enganado? -- a vogal tónica nunca desaparece. O verso pode na verdade passar a e svirsc pod mrecer-te, 5 sílabas, ou mrcer-te.
    – Jacinto
    May 23 '20 at 9:08
  • 1
    @Jacinto Boa observação, "virs" parece mesmo fazer mais sentido, mas o engano é da fonte original. Também vi referências (e.g., no vídeo que linko) ao encurtamento das palavras faladas ainda estar avançando em pt-PT.
    – stafusa
    May 23 '20 at 12:12
  • 1
    Muito bom trabalho de pesquisa e muito interessante esse aspecto da métrica. +1.
    – Centaurus
    May 26 '20 at 12:26

Your Answer

By clicking “Post Your Answer”, you agree to our terms of service, privacy policy and cookie policy

Not the answer you're looking for? Browse other questions tagged or ask your own question.