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Considerando a seguinte frase:

"Vi um homem de cabelos cacheados na rua. Me lembrou João. Poderia até ser ele, mas não era."

No caso de trocar a expressão "ser ele" a fim de utilizar pronome oblíquo, como seria a maneira correta?

"Poderia sê-lo" estaria correto?

Obrigado!

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Eu partilho a intuição e incerteza do Artefacto, mas vou apresentar outro aspeto da questão. Repara neste exemplo diferente:

(a) Vi ao longe um homem da tua estatura. Até poderias ser tu.

Esta frase é absolutamente normal, e tu é indubitavelmente o sujeito, porque concorda com poderias. O predicativo do sujeito está omisso. A frase completa seria “poderias ser tu o tal homem” = “tu poderias ser o tal homem”. Então do mesmo modo, na tua frase,

(b) Vi um homem de cabelos cacheados. Me lembrou João. Até poderia ser ele

“Até poderia ser ele” está absolutamente correto, e ele pode ser interpretado como sujeito de poderia ser (tal como tu na minha frase), com o predicativo também omisso: “poderia ser ele [João] o tal homem” = “ele [João] poderia ser o tal homem”. Sendo ele o sujeito, não pode ser substituído por o/lo.

Agora a questão é se na tua frase ele pode também ser o predicativo, estando o sujeito omisso. Neste caso a frase seria “[o tal homem] poderia ser ele [João]”, sendo o tal homem sujeito, caso em que seria em princípio possível (mas não necessário) substituir ser ele por sê-lo. O Artefacto analisou esta questão, e eu não me vou meter nela.

Há uma outra possibilidade, mas não me parece nada natural, que é interpretar a tua frase como “[João] até poderia ser ele [o tal homem]”. Ou seja, admitiríamos que o sujeito de poderia ser é o João mas está omisso e que ele é o predicativo e se refere a “o tal homem”. Nesse caso poderias em princípio dizer poderia sê-lo, ou seja, “[João] poderia sê-lo [o tal homem]” (seria como dizer na minha frase, “poderias sê-lo [o tal homem]”). Mas isto não me parece nada natural, porque eu instintivamente interpreto ele como referindo o João.

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  • Perfeito, Jacinto, muito obrigado! Agora fez ainda mais sentido. O pronome oblíquo não pode se referir ao mesmo sujeito da frase. Nesse caso, essa frase pode ter dois sujeitos, o que nos leva a essa dubiedade, mas, por citar "João" anteriormente, nos dá a impressão de que ele também é sujeito na segunda frase, o que a tornaria incorreta. – Lucas Lima Apr 29 '20 at 2:39
  • @Lucas, noutros casos poderia: em "João vestiu-se", se refere-se ao sujeito João. Mas em "X é Y", um é sujeito e o outro é predicativo. Portanto em "poderia ser ele", ele ou é sujeito (com predicativo omisso) ou é predicativo (com sujeito omisso). Interpretando ele como sujeito, fica perfeito. "Até poderia sê-lo", naquele contexto, é que é duvidoso. Mesmo que seja correto, é estranho. Eu tenho visto o como predicativo é em frases como "João gostaria de ser médico. Até poderia sê-lo, se se empenhasse", "João pensa que é esperto. Poderá sê-lo, mas neste caso está enganado" >> – Jacinto Apr 29 '20 at 8:51
  • Ou seja, o demonstrativo o normalmente refere-se a um atributo (médico, esperto), não a uma pessoa. É claro, isto pode ser simplesmente por frases do tipo "João é [atributo X]" serem mais comuns que "João pode ser [pessoa X]". – Jacinto Apr 29 '20 at 8:56
  • ser rico, ser pobre, ser + ajetivo= sê-lo, substitui ao ajetivo//ser aquele homen, ser aquela pessoa, ser + substantivo: ser ele ou ser ela. Me parece óbvio.... – Lambie May 1 '20 at 18:28
  • @Lambie não me parece nada óbvio. Ser vilão/um vilão/o melhor pai do mundo e outros grupos nominais parecem-me em maior ou menor medida substituíveis por -o (e.g. O João pensa que é o melhor pai do mundo, mas não o é). – Artefacto May 2 '20 at 1:37
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Intuitivamente, diria imediatamente que não. Mas vejamos.

Numa frase equativa (duas expressões nominais ligadas pelo verbo ser), só o predicado pode ser substituído pelo clítico invariável. Nem sempre é fácil identificar o sujeito e o predicado, e por vezes as duas expressões nominais têm o mesmo valor referencial, mas, neste caso, parece-me que ele é o sujeito da frase. Aplicando um dos testes, o do foco, e simplificando um pouco a frase, temos:

O homem que viste é o João ou o amigo?
O homem que vi é O JOÃO.
O JOÃO é o homem que vi.

O João é o homem ou a criança que viste?
*O HOMEM QUE VI é o João.
O João é o HOMEM QUE VI.

Isto sugere que a frase canónica é o João é o homem que vi, e que o João é o sujeito.

Portanto, assumindo que o par se comporta da forma típica, podemos dizer:

O homem que vi, o João poderia sê-lo.

mas não:

*O João, o homem que vi poderia sê-lo.

A minha intuição diz-me que a última frase é de facto inaceitável, mas também não estou 100% confortável com a anterior (o João poderia ser ele parece-me melhor).

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  • Muito obrigado, Artefacto! De fato essa frase tem me deixado confuso. Ela também não me soa correta. Talvez, nesse caso, fosse mais adequado esconder o sujeito: "Poderia até ser, mas não era." já que na frase anterior eu cito "João". O que acha? – Lucas Lima Apr 28 '20 at 18:00

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