Ao utilizar esta frase, a autora refere-se ao contraste entre nossas alegrias e sofrimentos (que existem de forma indissociável, assim como a luz só existe se houver a sombra), em uma experiência cíclica. A alegria se torna em tristeza, e o prazer se origina do sofrimento.
Prestando atenção na lenda do Pedro Sem, vemos que ele era rico, vivia em luxúria, mas ao mesmo tempo não tinha título de nobre, casou-se sem amor para suprir interesses de vaidade; teve uma festa de casamento enorme, porém seus navios naufragaram e sua torre foi atingida por um raio. Em um momento era rico, e em outro pedia esmolas.
Veja que não existe felicidade sem tristeza, ou sucesso sem simultâneo fracasso. A própria "boa intenção" de boas novas são questionadas. É isso que quis dizer a autora. Veja novamente o trecho da poesia, à luz dessas informações, e veja se não somos, portanto, todos "Pedro Sem", ou seja... pessoas com felicidades temporárias, conseguidas às custas de tristeza;
Uma alegria é feita dum tormento (alegria origina de outra tristeza), um riso é sempre o eco dum lamento (a alegria é reflexo (eco) da tristeza), Sabe-se lá um beijo de onde vem! (A origem de algo bom é questionável). A autora mostra tanto um contraste entre o prazer e o sofrimento, quanto a indissociabilidade entre eles. Ao longo da história essa associação foi extensamente narrada por filósofos e poetas, particularmente podemos citar Heráclito (que desenvolveu o conceito de Devir, ou seja, a constante transformação de tudo em seu oposto), e o conceito de Dukkha, proferido por Buda, em que descreve a alegria e o sofrimento como inseparáveis.
Segundo a lenda portuguesa, como contada na Infopédia:
"Pedro Sem era um mercador rico mas não tinha títulos de nobreza, o que muito o afetava. Possuía muitas naus na Índia e era também usurário. Vivia rodeado de luxo à custa da desgraça alheia, pois emprestava dinheiro a juros elevados.
Um dia, estavam as suas naus para chegar, carregadas de especiarias e outros bens preciosos, quando a sua máxima ambição foi realizada. Casou-se com uma jovem da nobreza, em troca do perdão das dívidas do seu pai. Decorria a festa de casamento, que durou quinze dias consecutivos, quando as naus de Pedro Sem se aproximaram da barra do Douro.
O arrogante mercador, acompanhado pelos seus convidados, subiu à torre do seu palácio e, confiante do seu poder, desafiou Deus, dizendo que nem o Criador o poderia fazer pobre. Nesse momento, o céu azul deu lugar a uma grande tempestade!
Pedro Sem assistiu impotente ao naufrágio das suas naus. De seguida, a torre foi atingida por um raio que fez deflagrar um incêndio que destruiu todos os seus bens.
Arruinado, Pedro Sem passou a pedir esmola nas ruas, lamentando-se a quem passava: "Dê uma esmolinha a Pedro Sem, que teve tudo e agora não tem...".
Lenda de Pedro Sem in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-11-25 15:18:10]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/apoio/artigos/$lenda-de-pedro-sem