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Ao ler grandes obras, é muito comum encontrar o sujeito separado de uma preposição.

Exemplos:

"Não se surpreenda pelo fato de eu ter dito: É necessário que vocês nasçam de novo." — João 3:7

"Sucedeu que, ao tempo de ela dar à luz, havia gêmeos em seu ventre;" — Gênesis 38:27


Como podem observar, os sujeitos estão separados da preposição. Ao invés de usar ao tempo dela dar à luz, utiliza-se ao tempo de ela ....

Há uma regra que pede a separação entre preposição e sujeito? As frases abaixo estão de acordo com a norma culta?

Apesar dela estar com raiva, fomos à festa.

Apesar de ela estar com raiva, fomos à festa.

  • Na língua escrita, eu diria "apesar de ela estar com raiva, fomos à festa" Eu não usaria "dela/dele" nesses casos, e nem penso que esteja correto. Espero que alguém aqui me tire essa dúvida. Já na língua falada, é muito comum a junção das duas palavras. – Centaurus Mar 14 at 18:50
  • Mas... o sujeito da frase não seria "nós" (que fomos a festa) ? – Centaurus Mar 14 at 18:52
  • @Centaurus grato pela dica do verbo. Já corrigir. Ao meu ver, há dois sujeitos: ela e nós (oculto). – Valdeir Psr Mar 14 at 20:05
  • Pelo que li, boa parte dos gramáticos abominam a contração do sujeito + preposição, mas gramáticos como Evanildo Bechara, não desaprovam esta prática. – Valdeir Psr Mar 14 at 20:09
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Há uma regra na gramática normativa que pede a não contração do sujeito dos verbos no infinitivo com preposições, entretanto esta regra não é rígida. Gramáticos como Evanildo Bechara, Rocha Lima e Adriano da Gama Kury não desaprovarem a contração antes de sujeito de verbo no infinitivo.

O professor Rocha Lima afirma na Gramática normativa da língua portuguesa (2011, p. 366) que o reger de preposição o sujeito vem dos tempos mais antigos do idioma, embora contrarie a gramática ortodoxa.

A base para esta afirmação é um trecho da obra O livro de Esopo: fabulario português medieval, descoberto e publicado em 1906:

“A mym praz mais de comer trijguo... que gallinhas.”

De acordo com a Moderna Gramática Portuguesa (2012, p. 459), "a possibilidade de se pôr o sujeito de infinitivo antes ou depois desta forma verbal nos permite dizer":

Está na hora de beber a onça água (posição rara)
Está na hora de a onça beber água (posição frequente)
Está na hora da onça beber água (posição mais frequente)

No último exemplo, temos os vocábulos de (preposição) e o a (artigo) que, na língua falada, são comumente contraídos, seja por hábito ou eufonia, formando a expressão da. Por isso, segundo o gramático, esta construção "não tem repugnado os ouvidos dos que melhor conhecem e escrevem a língua portuguesa" e, portanto, haveria nenhum problema com a contração.

Para o professor Cláudio Moreno, na escrita temos a liberdade de escrever com, ou sem, a contração, porém — na fala — a contração é obrigatória. Segundo o professor, "Infelizmente, a regrinha [da não contração] já está tão arraigada nos manuais de redação da imprensa brasileira que será impossível eliminar o seu emprego"

No Brasil, os atos oficiais e de processo legislativo da Presidência da República Federativa do Brasil utilizam o Manual de Redação da Presidência da República como diretriz na construção da literatura redacional. Este manual segue a regra utilizada pela gramática normativa, ou seja, devem ser evitadas construções com o sujeito preposicionado.

Errado: É tempo do Congresso votar a emenda.
Certo: É tempo de o Congresso votar a emenda.

Errado: Apesar da Assessoria ter informado em tempo, (...).
Certo: Apesar de a Assessoria ter informado em tempo, (...)

NETO (2003) explica construções como “de o” e “de ele” da seguinte forma:

Pense na seguinte frase: “No caso de se alterar o cenário...” Qual é o sujeito do infinitivo “alterar”? Só pode ser o que se altera, ou seja, “o cenário”. Você percebeu que esse sujeito apareceu depois do verbo. Percebeu também que estão presentes as palavras “de” e “o”, separadas: “No caso de se alterar o cenário...”. Na frase em questão, o sujeito é posposto, isto é, vem depois do verbo. E se fosse anteposto? Seria possível pura e simplesmente alterar a ordem das palavras: “No caso de o cenário se alterar”. A forma “de o” se explica pelo fato de a preposição não fazer parte do sujeito. (NETO, 2003, p.70)

Numa análise¹ feita no artigo Sujeito Preposicionado em Orações Reduzidas de Infinitivo: Descrição e Prescrição, registrou-se um total de 199 ocorrências de Sujeito preposicionado em orações reduzidas de infinitivo em teses e dissertações nas áreas de Exatas e Humanas, assim distribuídas:

┌────────┬────────────┬─────────────┐
│ Norma  │ Ocorrência │ Porcentagem │
├────────┼────────────┼─────────────┤
│ Padrão │ 138        │ 69,3%       │
├────────┼────────────┼─────────────┤
│ Culta  │ 61         │ 30,7%       │
├────────┼────────────┼─────────────┤
│ Total  │ 199        │ 100%        │
└────────┴────────────┴─────────────┘

Por conseguinte, para a grande maioria dos gramáticos, professores e graduados — sob monitoramento, ambas frases estão corretas; No entanto, se tu fores prestar concurso público ou redigir um ato do poder público, não deverás utilizar a contração entre preposição e sujeito de verbo no infinitivo.


Referências

REPÚBLICA, Presidência da. Manual de Redação da Presidência da República. [S. l.], 27
dez. 2018. Disponível em: http://www4.planalto.gov.br/centrodeestudos/assuntos/manual-deredacao-da-presidencia-da-republica/manual-de-redacao.pdf. Acesso em: 14 mar. 2019.
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37. ed. [S. l.]: Lucerna, 2003. 671 p.
ISBN 9788521023180.
LIMA, Rocha. Gramática normativa da língua portuguesa. 49. ed. rev. [S. l.]: José Olympio,
2011. 659 p. ISBN 9788503010221.
O RATO da cidade e o da aldeia. In: O LIVRO de Esopo. Revista Lusitana: [s. n.], 1906. Disponível em: https://pt.wikisource.org/wiki/O_Livro_de_Esopo/O_rato_da_cidade_e_o_da_aldeia. Acesso em: 14 mar. 2019.
NETO, Pasquale Cipro. Está na hora de a (da) onça beber água. [S. l.], 24 nov. 2011.
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2411200503.htm. Acesso em: 14
mar. 2019.
NOGUEIRA, Sérgio. DELE ou DE ELE?. In: NOGUEIRA, Sérgio. Temas polêmicos. [S. l.], 20
out. 2010. Disponível em: http://g1.globo.com/educacao/blog/dicas-de-portugues/post/temaspolemicos-6.html. Acesso em: 14 mar. 2019.
ANJOS, Marcelo Alessandro Limeira dos; REIS, M. E. C. ; OLIVEIRA, M. S. . Sujeito preposicionado em orações reduzidas de infinitivo: descrição e prescrição. Web-Revista SOCIODIALETO, v. 4, p. 525, 2014.
NETO, Pasquale Cipro. Nossa língua em letra e música. São Paulo: Publifolha, 2003




¹ Análise feita pelo professor Dr. Marcelo Alessandro Limeira dos Anjos; pelas Mestra em Letras Meryane Sousa Oliveira e Graduada Maria Eduarda Carvalho dos Reis

  • "“A mym praz mais de comer trijguo... que gallinhas.” - Certo, porém é preciso notar que o sujeito dessa frase é oracional, "comer trigo". – Luís Henrique Mar 19 at 12:12
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Veja que o que está preposicionado no exemplo que você dá,

Apesar de ela estar com raiva, fomos à festa.

não é o sujeito, é a oração inteira.

É por isso que a norma culta recomenda a separação. Se dissermos "apesar dela estar com raiva, fomos à festa", a fronteira entre as duas orações passaria por dentro de uma palavra ("dela").

Assim, ao usar o registro padrão, recomenda-se fortemente o uso da preposição separada do pronome.

Nos registros coloquial e popular? Não tenho tanta certeza. Como você fala?

Apesar /dɛlɐjstaʁ/ com raiva

ou

Apesar /dʒjɛlɐjstaʁ/ com raiva?

Eu tenderia a pronunciar da segunda forma, acho. Mas com certeza ouço pessoas usando a primeira. E creio que às vezes faço o mesmo.

  • Segundo uma aula do Professor Adriano Paciello, "ela" é sujeito do verbo "estar", por isso — segundo ele — não deve haver a contração. Mas, segundo uma pesquisa que fiz, a regra é opcional para muitos gramáticos. Acho que a conclusão é: Textos de atos do poder público e jornalístico = sem a contração; demais textos = opcional. – Valdeir Psr Mar 21 at 0:15

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