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O artigo sobre Fonologia da Língua Portuguesa na Wikipédia indica para o Brasil, ou melhor, para São Paulo, dois pares de fonemas próximos: [i] e [ɪ]; e [u] e [ʊ]. Em qualquer dos casos em Portugal existe apenas o [i] e [u]. Eu ouvi o [ɪ] e [ʊ] neste tabela de sons do Alfabeto Fonético Internacional. Aliás o [ɪ] é bem nosso conhecido do inglês. Ship é com [ɪ], contrastando com sheep, que é com [i] ou [iː]; diferença de que eu muitas vezes me esqueço, exceto no caso de sheet. Mas nunca me dei conta de dois is diferentes ou dois us diferentes nos sotaques brasileiros.

Então o que eu gostaria de ver exemplos de palavras onde esses [ɪ] e [ʊ] ocorrem. Existem algumas regularidades, que nos permitam saber pela grafia ou tipo de palavra se é [i] ou [ɪ]? Se é [u] ou [ʊ]? Estas diferenças são peculiares de São Paulo ou estendem-se a outras regiões?

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  • 1
    Não é só em São Paulo, embora os exemplos de outras regiões possam diferir. Eu diria que os 'o's finais frequentemente são [ʊ] no sotaque paulista (e.g., "muito", "burro"). Me parece que em alguns dos sotaques nordestinos os 'e's são muitas vezes pronunciados como [ɪ].
    – stafusa
    Dec 31, 2018 at 1:11
  • @stafusa Isso acontece apenas nas sílabas átonas, não?
    – tchrist
    Dec 31, 2018 at 1:37
  • @tchrist Não apenas. Por exemplo, às vezes se escreve cumé qui é? para "como é que é?".
    – stafusa
    Dec 31, 2018 at 1:39
  • 1
    @stafusa, estive a ouvir coração no Forvo e parece-me ouvir no Brasil tudo, desde c[ɔ]ração até c[u]ração. Ouve por exemplo a Janainamourão, o Guapetin ou o Rican69.
    – Jacinto
    Jan 2, 2019 at 18:07
  • 1
    @Jacinto Nasci e cresci no Brasil, mas não tenho conhecimento sistemático da pronúncia brasileira (e sei pouco de fonética, por isso inclusive não ofereço uma resposta), mas nunca ouvi um nativo falar c[u]ração. Inclusive não ouço [u] de nenhum dos 3 usuários que você menciona - inclusive o Rican69, que, aos meus ouvidos, apenas fala rápido, mas pronunciaria no máximo um [ʊ] - você ouve um [u] dele? - para mim é quase claro um [o]. Será que as vogais às vezes mais abertas do pt-PT tornam aos ouvidos portugueses um [ô] em um [u]?
    – stafusa
    Jan 2, 2019 at 23:00

2 Answers 2

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Realmente, em Portugal não existe uma distinção clara entre os sons [i] e [ɪ] ou entre [u] e [ʊ]. Porém, no Brasil, principalmente em São Paulo, esses pares de fonemas são distintos e a diferença pode ser percebida em pares mínimos, ou seja, pares de palavras que se diferem apenas por um som. Seguem alguns exemplos:

[i] e [ɪ]: tigela / tijela, filha / filha, rima / rimã, fila / filha, pingo / pinga. [u] e [ʊ]: surdo / surdo, curto / curtou, suco / soco, burro / buru. É importante ressaltar que não há uma regra clara que indique qual som deve ser usado em cada palavra, mas é possível perceber algumas tendências. Por exemplo, as palavras que possuem a vogal tônica fechada [i] tendem a ter [ɪ] na variante paulista, enquanto as palavras com a vogal tônica aberta [ɛ] tendem a manter o [i]. Já as palavras com a vogal tônica [u] podem ter [ʊ] na variante paulista, especialmente em palavras monossilábicas.

Essas diferenças são peculiares da variante paulista do português falado no Brasil, mas podem ocorrer em outras regiões também. Vale lembrar que as variações de pronúncia dentro de uma mesma língua são comuns e esperadas, e que a variedade paulista é apenas uma dentre as diversas variações do português falado no Brasil.

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  • O son [ɪ] não existe em português....bit, fit, minute.
    – Lambie
    May 9, 2023 at 22:00
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Imagino que seja falante de uma variedade europeia, então vou explicar fazendo um paralelo com as variedades de Portugal. O fone [ɨ], que ocorre, por exemplo, no fim das palavras em PE, é equivalente ao [ɪ], o fato de este ser exatamente um meio termo entre [e] e [i] faz todo sentido — um exemplo é a palavra gente, dita com o [ɪ] originado de um [e]. O [ʊ] é equivalente ao [u] átono, como no fim de palavras, como em burro, soa como mais ou menos um meio termo entre um [u] e um [o]. Mais ao sul do pais isto é mais evidente.

Portanto, não é exclusivo a São Paulo, é extremamente comum e é natural que falantes (especialmente de PE) não se deem conta, já que não é um som distintivo (um fonema) e por não possuírem este som no inventário, apenas um muito parecido, o [i] (o mesmo é válido para o u). Tudo isso é o resultado de uma redução vocálica menor, uma maior preservação, do que a que ocorreu em Portugal no século XVIII.

No sul do Brasil ocorre um fenômeno interessante. Sabemos que em muitos dialetos brasileiros temos os sons [t͡ʃ] e [d͡ʒ], como em tia e dia. Em São Paulo, assim como no Rio de Janeiro, este som ocorre sempre antes de um som bem palatal (como [i] e [ɪ]). No sul, no entanto, esta palatalizacão só aconteceu antes de [i], como em tia e dia, mas não antes de um [ɪ], então palavras como dente, que possuem um [ɪ] antes de [t] e [d] não são palatalizadas e são realizadas como [ˈdẽtɪ].

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