5

Estou interessado em encontrar o sujeito da frase

Parece que você cometeu um erro.

Me parece que o sujeito dessa frase é inexistente ou indeterminado, única e exclusivamente, porque sei (por motivos de vivência) que a tradução dessa frase para o inglês é

It seems that you made a mistake.

O fato de existir it na frase acima me indica que o sujeito (do verbo parecer) não está na sentença.

Porém quando eu "faço a pergunta para o verbo":

Frase: Parece que você cometeu um erro.

Pergunta: Quem ou o que parece?

Resposta: você

como a reposta aparenta ser você isso implicaria que a palavra você é o sujeito da oração. Alguém poderia me explicar o que eu estou confundindo?

Só para deixar claro, tenho total ciência que traduzir a frase e analizar em outra lingua o que está acontecendo não faz muito sentido. Apenas utilizei desse recurso para tentar encontrar um "candidato a sujeito da frase".

  • 1
    Isto é mais complexo do que me pareceu à primeira vista. Mas parece-me seguro que você não é o sujeito. Repara: "Parece que vocês cometeram um erro" e não "Parecem que vocês cometeram um erro". Ora vocês não pode ser sujeito de parece, e as duas frases têm a mesma estrutura. Eu pensei que fosse impessoal, mas não encontrei gramática nenhuma que inclua parecer nos verbos impessoais. Encontrei uns sites que dizem que o sujeito de parece é a oração subordinada "que você cometeu um erro". À laia de "consta que você cometeu um erro". – Jacinto Nov 25 '18 at 19:38
  • Sua resposta me convenceu que você não pode ser sujeito, esse seu truque de trocar a pessoa da frase é bem boa. Obrigado! – Matheus Manzatto Nov 25 '18 at 19:44
  • 1
    Isto foi só um comentário. Não estou seguro o suficiente para dar uma resposta. Mas agora reparei numa frase no meu próprio comentário: "Mas parece-me seguro que você não é o sujeito." Repara, aqui, "que você não é o sujeito" é o sujeito de parece -- "Mas isso parece-me seguro", em que "isso" = "que você não é o sujeito"; Mas na tua frase, se a analisarmos do mesmo modo, não há predicativo nenhum; ficava só, "Isso parece" ("isso" = que você cometeu um erro". A menos que admitamos que há um "verdade" implícito: "Parece verdade que você cometeu um erro" -- "Isso parece verdade". – Jacinto Nov 25 '18 at 19:57
5

Decididamente, você não é sujeito desse parece. Vejamos:

Parece que você cometeu um erro
Parece que vocês cometeram um erro
Parece que nós cometemos um erro

O verbo parecer continua na terceira pessoa do singular quando trocamos você por vocês ou nós, em vez de passar a parecem e parecemos. Logo, você, vocês e nós são apenas os sujeitos das orações subordinadas a itálico (o verbo cometer concorda sempre com eles) mas não da subordinante, que fica sempre parece.

Agora, acerca do sujeito doparece não há consenso entre os gramáticos. O Ciberdúvidas tem até um artigo apontando as duas posições. A posição dominante é que o sujeito é a oração subordinada (em itálico), mas há quem defenda que este parecer é impessoal, e que a oração subordinada é antes um complemento direto. Comecemos pela última. José Neves Henriques no Ciberdúvidas apresenta o seguinte exemplo (formatação minha, com a oração subordinante em letra normal e a subordinada em itálico, tal como acima):

Parecia que as certezas eram incertas

Diz ele que o verbo parecer é aqui impessoal, portanto sem sujeito. Sandra Tavares (Ciberdúvidas) acrescenta que nos seguintes exemplos a oração subordinada é complemento direto do verbo parecer:

Parece que estes homens são magnatas
Parece-me que estou ouvindo S. Mateus

Comparemos com um exemplo incontroverso: em “eu vi que elas chegaram”, a oração subordinada é complemento direto de “vi”; é como “eu vi isso”, em que “isso” = “que elas chegaram”. Mas Vergílio Dias (Ciberdúvidas) afirma que parecer não admite complemento direto, e que a oração subordinada é sujeito do verbo parecer.

Vejamos antes um exemplo incontroverso: em “consta do relatório que elas chegaram”, “que elas chegaram” é sujeito do verbo constar (“isso consta do relatório”)

Regina Rocha (Ciberdúvidas) também diz a oração subordinada é sujeito de parecer, e cita vários gramáticos consagrados que têm também essa posição. Eis os exemplos deles (todos dizem que a oração subordinada, em itálico, é o sujeito do verbo parecer):

Parece que tudo vai bem (Evanildo Bechara, Moderna Gramática Portuguesa, 2003)

Parece que vamos ter um belo dia de sol […] (Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, 1984)

Não vos parece que é terrivel cousa ser a morte momentânea? (Epifânio da Silva Dias, Syntaxe Historica Portuguesa, 1916).

Esta abordagem causou-me alguma estranheza. Numa frase como “João parece contente” temos sujeito (“João”) e predicativo do sujeito (“contente”). Portanto eu esperaria que parecer tivesse sempre um predicativo do sujeito. Mas nestas frases com parece + oração subordinada, se a oração subordinada é o sujeito de parece, então fica simplesmente “isso parece” (em que “isso” é por exemplo “que tudo vai bem”). Mas então isso parece o quê? era a minha interrogação. Uma solução é reinterpretar parecer nesta nestas frases. Eis o que diz Regina Rocha a propósito de “Parece-me que estou ouvindo S. Mateus”:

O verbo parecer não é classificado como verbo impessoal (como, por exemplo, o verbo haver ou o verbo chover), pelo que não se pode considerar a existência de um sujeito nulo expletivo, havendo necessidade de se conceber um sujeito. E o sujeito está lá: estar a ouvir S. Mateus afigura-se-lhe, surge como algo que parece ser verdade. Aliás, o verbo parecer no sentido de «afigurar-se-lhe», «surgir como uma hipótese verdadeira aos olhos de alguém», «ser (algo) verosímil», «ser (algo) provável» (que é o significado com que surge na frase apresentada) tem subentendido um predicativo do sujeito: «estar a ouvir S. Mateus parece *verdade», «parece-me verdade (certo, real) que estou ouvindo S. Mateus», «isso parece verdadeiro», «isso parece real».

3

Hoje em dia, a posição mais comum parece ser considerar que o argumento de parecer não tem estatuto de sujeito. Por exemplo, no Áreas Críticas da Língua Portuguesa de João Andrade Peres e Telmo Móia, consideram que as frases

(a) Parece que os miúdos gostam da professora.
(b) Os miúdos parecem gostar da professora.

têm a mesma estrutura subjacente

(a') [] PARECER [que os miúdos gostam da professora]
(b') [] PARECER [os miúdos gostar da professora]

(e em (b) segue-se um movimento de elevação de miúdos para a posição vazia de sujeito da frase matriz). Citando:

Repare-se que estamos a postular a existência de um elemento vazio na posição de sujeito da frase matriz em ambas as estruturas. Quer isto dizer que consideramos que o verbo parecer tem um único argumento, que não recebe o estatuto de sujeito. Trata-se de uma análise possível, que encontra plena justificação dentro de certos quadros teóricos que aqui não podemos apresentar. No entanto, para que o leitor possa aderir intuitivamente à análise, achamos útil chamar-lhe a atenção para o facto de, em certas línguas como o francês e o inglês, aquela posição vir preenchida com um elemento de tipo pronominal sem conteúdo semântico — por isso designado pronome expletivo [...]. Aliás, em certas variantes do português podemos encontrar uma frase como (870).

(868) Il semble que les enfants aiment leur institutrice.
(869) It seems that the children like their teacher.
(870) Ele parece que os miúdos gostam da professora.

Um argumento para que a posição de sujeito esteja vazia em parecer é o facto de que, tal como chover ou haver (no sentido de existir ou temporal), parecer não se pode combinar com o se nominativo (impessoal) na frase matriz:

Na literatura produzida no âmbito da Gramática Generativa, tem-se considerado que o clítico impessoal está associado à posição de Sujeito e absorve o caso nominativo, razão pela qual é designado por “se nominativo”.

citando a tese de mestrado de Afonso João Miguel. Os exemplos aí dados são:

a. *Este Inverno, choveu-se pouco em Portugal.
b. *Há-se de tudo um pouco, na loja da esquina.
c. *Parece-se estar bom tempo.

  • Muito interessante sua reposta. Obrigado! – Matheus Manzatto Nov 27 '18 at 23:34
  • 1
    @MatheusManzatto adicionei mais qualquer coisinha. – Artefacto Nov 28 '18 at 1:16
  • Intuitivamente para mim, no exemplo (a), é também o PARECER impessoal que faz mais sentido. Mas que significa a "elevação do sujeito no (b)? Aí, PARECER concorda com miúdos. Então não é mesmo o sujeito? (Ao contrário de "os miúdos parece que gostam da professora".) – Jacinto Nov 28 '18 at 21:50
  • 1
    @Jacinto sim, é sujeito é na estrutura de superfície. A teoria é que parecer seleciona apenas um argumento único (oração finita, oração infinitiva, ou oração reduzida como em [] PARECER [os miúdos contentes]), cujo sujeito se pode (ou tem de) mover para a posição vazia de sujeito, numa estrutura de elevação (ou alçamento, em PB). Já na gramática tradicional, faz mais sentido, ainda que seja discutível, falar de que os miúdos gostam da professora como um sujeito de parecer. Tens aqui vários exemplos de elevações. – Artefacto Dec 1 '18 at 1:06
  • "os miúdos contentes" é uma oração? E em "Parece impossível que ele tenha dito isso!" Aqui já me parece natural interpretar "que ele tenha dito isso" como sujeito. – Jacinto Dec 2 '18 at 17:16

Your Answer

By clicking “Post Your Answer”, you agree to our terms of service, privacy policy and cookie policy

Not the answer you're looking for? Browse other questions tagged or ask your own question.