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Vejamos a frase "a Defesa Civil resgatou os pais da criança". Passando para a voz passiva temos "os pais da criança foram resgatados pela Defesa Civil". Até aqui nenhum problema, resgatar é um verbo transitivo direto e a voz passiva é possível.

Mas acabei de ouvir uma reportagem sobre o deslizamento de terra em Niterói, onde a reporter dizia "os pais do menino conseguiram ser resgatados pela Defesa Civil".

Entendo que a frase na voz ativa seria:
-"a Defesa Civil conseguiu resgatar os pais do menino".

Mas, do ponto de vista semântico, não consigo entender essa frase na voz passiva. "Os pais do menino conseguiram...?" Não, eles não conseguiram nada, quem conseguiu foi a Defesa Civil.

Minha pergunta: "a Defesa Civil conseguiu resgatar os pais do menino" admite voz passiva? Caso não admita, qual a explicação?

EDIT - Um outro exemplo, mais claro, em que a voz passiva mudaria o significado da frase seria "A polícia conseguiu prender os bandidos".

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A tua frase

(a) A Defesa Civil conseguiu resgatar os pais do menino

admite passiva, mas é, ainda que não muito bem sonante:

(b) Foi conseguido pela Defesa Civil resgatar os pais do menino.

Não é:

(c) Os pais do menino conseguiram ser resgatados pela Defesa Civil.

Como observaste, a frase (c) não significa o mesmo que (a) (quem consegue algo é a Defesa Civil num caso e os pais no outro). Mas (b) já significa o mesmo que (a), como se espera de uma verdadeira passiva.

O que se passa é que qualquer uma destas frases é constituída de duas orações: uma subordinante (em letra normal) e outra subordinada infinitiva (em itálico). Para formar a passiva, o complemento direto do verbo da ativa passa a sujeito na passiva. Ora, os pais do menino são o complemento direto apenas de resgatar, o verbo da oração subordinada. Logo não serve de sujeito para a passiva da frase (a) inteira. O sujeito da passiva de (a) tem de ser o complemento direto do verbo da oração subordinante (ou principal), que é conseguir. Este complemento direto é a oração subordinada inteira—resgatar os pais do menino (“a Defesa Civil conseguiu algo”). Logo tem de ser esta oração subordinada inteira o sujeito da passiva de (a), resultando em (b) (algo foi conseguido; podemos começar a frase passiva com a subordinada, mas soa-me menos mal com o sujeito no fim, como é comum neste tipo de frase; compara com “é imperioso apurar a verdade”).

Aliás, a frase (c) nem sequer é passiva. “Os pais do menino conseguiram [algo]” é uma construção ativa. Só a oração subordinada—ser resgatados—é que está na passiva.

O mesmo modo se passa com o segundo exemplo. As versões ativa e passiva são:

(c) A polícia conseguiu prender os bandidos
(d) Foi conseguido pela polícia prender os bandidos


Agora, há pares de frases aparentemente do mesmo tipo que (a) e (c), mas em que uma é mesmo a passiva da outra e têm o mesmo significado. A Gramática do Português da Gulbenkian (Lisboa, 2013, tomo II, p. 1244-6) explica o que é que faz o significado ser o mesmo ou não (negrito meu):

Uma frase ativa com uma perífrase verbal [verbo auxiliar + verbo pleno, como vai examinar] é praticamente sinónima da sua contraparte passiva […] Os seguintes exemplos ilustram esta sinonímia:

(31) a. O médico especialista vai examinar a Ana.
        b. A Ana vai ser examinada pelo médico especialista.

[…]

Em contrapartida quando se passiviza de forma superficialmente idêntica uma frase complexa [duas orações ou mais] com uma sequência [verbo pleno + verbo pleno no infinitivo] o resultado não é sinónimo da frase ativa, como se ilustra em (38), um exemplo semelhante a (31) exceto no primeiro verbo, que é pleno e não auxiliar:

(38) a. O médico especialista quer examinar a Ana.
        b. A Ana quer ser examinada pelo médico especialista.

A Gramática explica depois em grande pormenor ao longo de duas páginas que quando temos uma frase simples, constituída por uma só oração, tenha ela um verbo simples (“o médico examina a Ana”) ou uma perífrase verbal (“o médico vai examinar a Ana”), as versões ativa e passiva têm basicamente o mesmo significado. Mas que (p. 1246):

A estrutura de (38a) [“o médico quer examinar a Ana”], no entanto, é mais complexa. Nesse exemplo existem dois verbos plenos, cada um deles constituindo o núcleo de duas orações distintas: uma oração subordinante, cujo núcleo é a forma verbal quer, e uma oração subordinada, cujo núcleo é a forma verbal examinar […]

E quando passivizamos uma frase complexa como se fosse uma simples, tratando o complemento direto da oração subordinada come se fosse o complemento direto da frase inteira, o resultado é alteração do significado. Foi isso que aconteceu nos teus exemplos.

  • Excelente. Eu sabia que aquela voz passiva estava errada mas não conseguia entender porque. +1 – Centaurus Nov 11 '18 at 23:15
  • Cristalino! Como fica então a versão passiva do exemplo da Ana? "Foi querido pelo médico examinar a Ana." parece-me estranho. – stafusa Nov 12 '18 at 13:10
  • @Centaurus, a frase é gramatical e faz sentido, não é é voz passiva ("os pais conseguiram [...]" é ativa). Mas faz sentido. Imagina: as autoridade julgaram que a situação dos pais não inspirava cuidados; mas ao fim de muito insistirem, os pais do menino conseguiram ser resgatados... Agora, não faço ideia se uma interpretação deste tipo faz sentido no contexto em que ouviste a frase, ou se o jornalista queria dizer que a Defesa Civil conseguiu, e na pressão do momento se atrapalhou; acontece aos melhores. – Jacinto Nov 12 '18 at 18:30
  • @stafusa, o complemento direto em (38a) é "examinar a Ana", então passa a sujeito: "É querido pelo médico examinar a Ana". Fica horrível. Parece-me que o verbo querer não gosta de ser passivado. Olha mesmo com uma frase mais simples: "A Ana quer uma feijoada" --> "Uma feijoada é querida pela Ana". Quanto à tua resposta (que agora tem os comentários desativados), eu concordo com a tua interpretação semântica das várias frases; a análise sintática é que não estava bem. – Jacinto Nov 12 '18 at 18:43
  • Obrigado @Jacinto. – stafusa Nov 12 '18 at 20:58

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