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Em Portugal existe a expressão "galego(a)" para se referir a alguém louro/loiro(a) (independente desse alguém ser da Galiza ou não)? Se sim, qual a origem dessa expressão? (Imagino que seja a origem mais óbvia: na Galiza há muitos louros).

Pergunto isso porque no nordeste do Brasil, "galego" é um nome usado popularmente para se referir a alguém de cabelos louros e que é geralmente (mas não necessariamente) pobre ou com pouca instrução. Por exemplo, "Me apaixonei pela galega do meu bairro...".

Se essa expressão não é de origem portuguesa, como ela surgiu no nordeste brasileiro?

Eu acho que essa expressão não pode ter se originado no Brasil. É mais plausível que tenha se originado em Portugal, talvez no norte, onde a Galiza faz fronteira. Isso faria bastante sentido, pois é do norte de Portugal de onde vieram muitos colonizadores (e consequentemente o vocabulário e a fala) do nordeste brasileiro.

Os dicionários Aulete, Priberam e Michaelis incluem esse sentido para o verbete "galego" e afirmam que esse sentido é usado no nordeste do Brasil, mas não fala nada sobre o uso em Portugal.

  • Galego no Brasil (segundo o Aulete) também pode designar 'pessoa nascida em Portugal, especialmente de pouca instrução'. Este uso é claramente criação brasileira. Não poderá aceção 'pessoa loira' ser um especialização da aceção 'pessoa nascida em Portugal'? É possível que a proporção de loiros fosse bastante maior entre os recém-chegados de Portugal do que entre os nascidos já no Brasil (com a miscigenação, e talvez numa fase inicial da colonização viesse mais gente do sul de Portugal, e mais tarde mais do norte). – Jacinto Sep 20 '18 at 15:58
  • Sim, não tinha pensado nisso. A primeira coisa que me veio a cabeça é de que seria uma criação portuguesa "importada", que me parecia ser a mais plausível. Eu modifiquei o post perguntando pela origem do sentido brasileiro. – Seninha Sep 20 '18 at 23:31
  • Nunca ouvi este sentido ("Português com pouca instrução") por aqui, talvez seja antigo e esteja em desuso? E como você disse, pode ser que o sentido "louro com pouca instrução" seja uma especialização de "português com pouca instrução" (que por sua vez pode ser a versão "importada" do sentido pejorativo originado em Portugal: "alguém pobre/com pouca instrução", o sentido que você disse no outro comentário). São suposições. – Seninha Sep 20 '18 at 23:38
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Não.
Nunca ouvi essa expressão em Portugal; só no Brasil, na região da Bahia.

E para cimentar a minha experiência, segue isto:

No Norte Português há cabelos alourados, que nos ficaram provavelmente do tempo das invasões viking ou dos tempos celtas... e com certeza que na Galiza se passa o mesmo.
Mais ainda: a etnografia, cultura, e sociedades minhota e galega são indissociáveis, e os povos misturavam-se natural e frequentemente.

Sendo os minhotos e os galegos tão semelhantes, não acho que fizesse sentido chamar de "galego" um loiro, no norte de Portugal, porque os locais também teriam percentagem semelhante de loiros.
Não seria uma qualidade que ajudasse a classificar alguém como galego ou nortenho.

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  • 1
    Boa pergunta, @Seninha, não faço ideia. Só sei com certeza que, vivendo no norte de Portugal e passando bastante tempo no Minho em casa de família, não reconheço a expressão "galego". – ANeves thinks SE is evil Sep 19 '18 at 18:10
  • 2
    Aqui no sul também não. A única conotação figurada de "galego" que eu conheço, é 'pessoa pobre, que trabalha muito, fazendo muitas vezes trabalhos que os outros não querem fazer. Que ficou provavelmente de imigração galega para Portugal nos séculos XIX e XX. – Jacinto Sep 19 '18 at 20:01
  • 2
    E Jacinto, encontrei isto interessante sobre os vikings e as expansões deles: um mapa das expansões (chegaram a colonizar o mediterrâneo central?!?); um artigo da Wikipedia sobre Vikings na Ibéria; e as siglas poveiras, vestígios interessantíssimos de cultural viking na Póvoa do Varzim. – ANeves thinks SE is evil Sep 21 '18 at 14:38
  • 1
    @ANeves. Sim, os Rus' migraram pro leste europeu, miscigenando com os eslavos e dando o nome à Russia. Os Vikings ibéricos são pós-latinos (vieram das invasões bárbaras que deram fim ao império romano) e eram principalmente Francos (da França). Já os celtas ibéricos são pré-latinos. Para a influência desses dois povos no nosso vocabulário: palavras celtas no galego (muitas também se aplicam ao português) e palavras francas no português – Seninha Sep 21 '18 at 14:49
  • 2
    @ANeves, da Geórgia, duvido. De Kiev a Tiblisi ainda são 1500 km em linha reta. Mesmo à Ucrânia e Rússia, duvido que alguma vez tenham sido uma proporção significativa da população. O Alexandre o Grande era louro, séculos antes da expansão vinking. Há louros pela Europa toda; não creio que sejam nem sequer maioritariamente de origem escandinava. Os olhos azuis, que andam frequentemente associados a cabelo loiro, evoluíram, ao que li algures, pelas bandas do Mar Negro já há uns milhares de anos. – Jacinto Sep 21 '18 at 14:51
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Minha experiência é que

  1. "Galego", no Rio de Janeiro, quarenta anos atrás, significava "português". A etimologia disso parece ser que o governo português, em algum momento da primeira metade do século XX, proibiu a emigração para o Brasil, resultando em uma corrente migratória que passava pela Galícia - ou pelo menos, por um passaporte espanhol falsificado, em que a Galícia aparecia como lugar de origem. O uso estava muito relacionado à ampla presença de imigrantes portugueses e seus descendentes no pequeno comércio carioca - particularmente padarias e botequins. Embora não fosse tecnicamente errado chamar um português assalariado de "galego", a palavra evocava quase sempre um pequeno comerciante de origem portuguesa. Uma pessoa loira pobre ou ignorante não precisava de um termo específico, por que, quase por definição, não existia.

  2. "Galego", em Porto Alegre, entre trinta e quarenta anos atrás, não tinha nenhum significado popular. Era apenas o demônimo para alguém nascido na Galícia, e usado bastante raramente - um espanhol, mesmo nascido na Galícia, seria mais comumente "espanhol", ou, é claro, "castelhano". Um português seria "português", ou, geralmente em contextos pejorativos, "luso" ou "lusitano". Uma pessoa loira pobre ou ignorante seria um "alemão" (feminino "alemoa", não "alemã") ou um "lambote", ou, se de origem evidentemente italiana, um "gringo".

  3. "Galego", em Brasília, de trinta anos para cá, quer dizer "loiro", mas com um aspecto pejorativo, geralmente associado com pobreza ou ignorância, embora também possa ser simplesmente má-vontade do falante ("A esposa do deputado é uma galega muito metida a besta"). Esse uso é de origem nordestina, e talvez tenha sido muito popularizado pela composição "Galeguim do Zói Azul", de Genival Lacerda.

Minha impressão é que o uso nordestino vem se generalizando, e a acepção carioca, à medida que os portugueses donos de boteco vão rareando, está caindo em desuso.

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