Segundo sei, normalmente, o particípio passado regular deve ser usado com os verbos ter e haver, e o irregular com os verbos ser e estar, entre outros. Embora haja exceções que sempre só usaram um dos dois particípios...

Mas, pelo que tenho visto, parece que algumas formas acabaram por cair em desuso como é o caso do verbo pagar:

Apesar de ter pagado a conta, a luz foi cortada.

Mas a conta da luz foi paga.

Parece que, para cada verbo, hoje em dia, só se usa uma das formas.

Então a minha pergunta é se será correto usar os particípios segundo a regra que citei acima?

Não seria a hora de deixar cair essa «regra»?

A grande maioria dos verbos só têm uma forma, a regular. Pegando os verbos que você usa na sua pergunta:

Saber, dever, usar, ter, haver, ser, estar, cortar, parecer, deixar e cair têm todos apenas a forma regular. E, tendo apenas uma forma, a regra de " usar o particípio passado regular com os verbos ter e haver, e o irregular com os verbos ser e estar" é inaplicável. Isso vale provavelmente para mais de 90% dos verbos da língua portuguesa, embora eu não tenha feito nenhuma pesquisa para confirmar esse chute.

Uma pequena minoria de verbos, como pagar, têm uma forma irregular, ao lado da regular. Na sua maioria, eles seguem a regra que você cita: "particípio passado regular com ter e haver, e o irregular com ser e estar". Mas há casos, como o próprio pagar, ou pegar, em que muitos falantes não têm firmeza quanto à existência de duas formas. E aí ocorrem oscilações como "apesar de ter pago a conta". Mas muitos outros verbos são consensuais para a grande maioria dos falantes, como por exemplo morrer: não se usa nem "se ele houvesse morto" nem "ele está morrido", então não é possível dizer que a regra tenha caído em desuso.

(E, para completar, outra minoria, talvez ainda menor, que inclui por exemplo ver e seus derivados, tem apenas uma forma, mas essa é irregular (no caso, visto, revisto, etc.), e evidentemente, não se enquadra na regra que você questiona.)


O stafusa levanta uma questão importante: a distinção entre particípio e adjetivo. No caso, ele diz que em ele foi morto, "morto" não é o particípio de "morrer", mas o adjetivo "morto" (como em sentei no toco de uma árvore morta, por exemplo). O que está de acordo com o estranho fato de que o "particípio irregular" de morrer é igual ao de "matar" (quando uma pessoa morre, ou é "matada", ela fica... morta). Me convenci logo disso, mas já não tenho tanta certeza. Uma coisa visível é que no caso, "morto" flexiona em gênero: ele foi morto, ela foi morta. Mas me ocorre que essa é a regra quando usamos os verbo "ser" ou "estar": o particípio do verbo principal - se é que é um particípio - flexiona em gênero (e número), ao contrário do que acontece quando o auxiliar é "ter" ou "haver", mesmo quando o verbo principal tem apenas uma forma no particípio:

Tenho lido muitos romances vs * Tenho lidas muitas novelas, evidentemente agramatical.

O livro está lido, agora é fazer o resumo mas a tese está lida, agora é fazer o resumo.

Então não tenho mais certeza. Quando o auxiliar é "ser" ou "estar", não temos o particípio, e sim o adjetivo (que flexiona em gênero, ao contrário das formas verbais)? Mas, nesse caso, "ser" ou "estar" não são auxiliares, e sim verbos de ligação (não é a análise da gramática tradicional). Ou o particípio flexiona em gênero em alguns casos, mas não em outros?

  • Curioso, eu achava que a maioria tinha as duas formas. – Jorge B. Aug 5 at 22:58
  • @JorgeB. Eles são chamados "abundantes", o que talvez contribua para a confusão, mas a abundância aí é a de particípios, não a de verbos... – Luís Henrique Aug 5 at 23:09
  • 1
    Eu diria que no exemplo "Ele está morrido." temos o adjetivo "morto", não um verbo; de forma que um exemplo melhor no contexto seria, e.g., "Ele foi morrido.". – stafusa Aug 6 at 10:07
  • 1
    @stafusa Obrigado, editei a resposta de acordo. – Luís Henrique Aug 6 at 12:25
  • 2
    @JorgeB. Este site, cartaforense.com.br/conteudo/colunas/onze-mil-verbos/15394 , diz que há cerca de 11 mil verbos em português. Não creio que os abundantes cheguem a uma centena (este outro site, radames.manosso.nom.br/linguagem/gramatica/morfologia/… , lista 55 verbos abundantes, afirmando que são "todos". Lista também 167 verbos que têm apenas a forma irregular). De maneira que, sim, os verbos que só tëm o particípio regular são a grande maioria (bem mais que 90%, algo como 98%). – Luís Henrique Aug 6 at 12:41

Eu concordo com a resposta anterior, o participio passado da maioria dos verbos eh regular. O participio passado de alguns verbos eh irregular, mas o verbo pagar aceita ambos os participios; o participio regular eh usado somente em tempos compostos e o participio irregular na voz passiva (ser, estar).

Pessoalmente, no exemplo que o senhor deu, eu diria "apesar de ter pago a conta" pois alem de "ter pagado" nao me soar muito bem, "ter pago" enfatiza o facto de que a conta foi paga. No entanto, em outros tempos compostos (preterito mais-que-perfeito) ja soa mais natural dizer "ele ja tinha pagado", "ja tinha aceitado" ou "ja tinha gastado", mas tambem depende muito da nuance ou daquilo que se quer enfatizar.

Outros verbos deixam menos duvidas: "ter morrido", "ter expulsado", "ter soltado", "ter prendido"...

Ao passo que na voz passiva: "foi pago", "foi aceite", "foi ganho", "foi morto", "foi expulso", "foi solto", "foi preso"...

  • Vocé não sabe instalar o teclado internacional? Ou usar um formato com acentos? Porém, não é difícil.....existem várias soluções. – Lambie Aug 14 at 18:54
  • Tenho o teclado portugues instalado no computador, mas o teclado fisico eh japones... no celular so tenho ingles e japones. – F. C. Aug 16 at 1:09
  • @F.C. Creio que nos celulares atuais é fácil instalar um teclado de qualquer nacionalidade. – William Aug 17 at 21:25

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