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Fiquei curiosa para saber se a expressão saber bem pode ser usada no sentido metafórico. Por exemplo, uma ideia pode saber bem? Algo como:

Estou pensando em reservar um hotel que tem uma vista linda para as montanhas. Sabe bem, não é?

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  • Não creio que possa, não me soa bem.
    – ANeves
    Jul 2 '18 at 15:29
  • 1
    Tal como ao @ANeves, esse teu exemplo soa-me estranho, mas saber (no sentido 'ter sabor') pode ser usado figuradamente. Vê esta pergunta, que tem alguns exemplos desse uso.
    – Jacinto
    Jul 3 '18 at 8:49
  • 1
    Ali na outra pergunta que o @Jacinto ligou, acho que estes exemplos em concreto são usos metafóricos de "ter sabor ou gosto": (...) sabia-lhe bem aquela caminhada e Esta brisa fresca na cara sabe-me mesmo bem. Talvez isto possa ser usado como base para uma resposta.
    – ANeves
    Jul 3 '18 at 12:52
  • 1
    Mais um voto pelo "não". E eu diria que em português brasileiro deve soar ainda mais estranho que no europeu.
    – stafusa
    Jul 3 '18 at 19:28
  • Mais um voto pelo "não", concordando com @stafusa. Nunca ouvi algo semelhante no Brasil. A mim soa muito estranho. Já, "sabia-lhe bem aquela caminhada..." conforme citado por ANeves, não soa tão estranho, embora pareça ter saído de um livro de Machado de Assis.
    – Centaurus
    Jul 5 '18 at 23:34
1

Saber pode ser usado, por extensão, para um sentimento em vez da sensação do paladar. Um exemplo a juntar aos do Jacinto:

«Sabe-me muito mal o que se está a passar no São Carlos» e a crise «não é nada boa para a imagem do Teatro no meio artístico internacional». CETEMPúblico (ref. ext1483348-clt-95b)

Este uso é análogo a «cai-me muito mal»; aí a metáfora é mais à frente no tubo digestivo. É parafraseável por algo como «causa-me um sentimento desagradável».

Concordo com os restantes participantes quando dizem que a tua frase não é aceitável:

Estou pensando em reservar um hotel que tem uma vista linda para as montanhas. Sabe bem, não é?

Creio que o principal problema da frase é o sujeito (omitido) de saber. Que coisa sabe? O sujeito que mais facilmente se subentenderia seria pensar em reservar o hotel. Mas o que pode saber bem («ser bom») é experimentar a "vista linda para as montanhas" ou, mais geralmente, a estadia no tal hotel. Se corrigirmos este problema adicionando um sujeito explícito, a frase já fica aceitável:

Estou pensando reservar um hotel que tem um vista linda para as montanhas. Sabe bem mudar de vistas, não é?

Aqui, «sabe bem» pode ser parafraseado por «é bom».

A correção que o Jacinto propõe acrescenta também um sujeito explícito, está talvez mais perto da tua ideia original, e é certamente mais aceitável do que a original:

Estou pensando reservar um hotel que tem um vista linda para as montanhas. Sabe-te bem a ideia?

Repara que neste uso, «saber» já não diz respeito a um experimentador genérico (tal com em «é bom»), mas ao intercolutor, a quem é pedida uma opinião. Eu preferiria, contudo, «parece-te» ou, quando muito, «cheira-te». Pode certamente «saber-se» uma ideia, mas aqui o argumento subentendido mais acessível para ideia é «reservar um hotel que tem uma vista linda para as montanhas». Fazer uma reserva não é em si uma experiência muito rica. Em minha opinião, seria mais aceitável:

Adoro passar o verão nas montanhas. A ti sabe-te bem a ideia [de passar o verão nas montanhas]?

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  • Concordo que, na minha sugestão, o argumento à vista para "ideia" é "reservar o hotel", mas creio que toda a gente interpretaria a pergunta como "sabe-te bem a ideia [de passar uns dias/tempos no hotel]", precisamente porque reservar o hotel só por si não é coisa que saiba bem; o objetivo da reserva, passar lá uns dias, é que pode saber bem. Estes saltos de lógica (como da reserva para o seu objetivo) são muito comuns na linguagem.
    – Jacinto
    Jul 3 '19 at 20:47
  • @Jacinto Pela forma como o teu exemplo está formulado, a pergunta parece-me mais pedir a opinião do interlocutor ou mesmo a sua anuência e ser parecido a "Parece-te bem a ideia de reservar o hotel?" ou, mais generosamente, "Parece-te bem a ideia de passar uns tempos nesse hotel?" e saber parece-me caber mal na frase. Mas o mesmo se aplica frase que sugiro no fim, na medida em que pode ser interpretada como um convite.
    – Artefacto
    Jul 4 '19 at 1:14
1

Saber (Aulete 9) pode significar ’ter sabor’: este vinho sabe mal, o bolo sabe a limão. Este uso é comum em Portugal e também aparece na literatura brasileira (ver esta pergunta). Pode perfeitamente ser metafórico:

Este solzinho sabe tão bem!

Soube-me muito bem este bocadinho aqui contigo

O teu exemplo não me soou lá muito bem, mas, pensando bem, uma ideia pode saber bem. Não consigo bem atinar com o que é que não gosto no teu exemplo, mas a reformulação seguinte já me soa bem; imagina que estás a falar com uma pessoa que iria contigo para o hotel:

Estou pensando reservar um hotel que tem um vista linda para as montanhas. Sabe-te bem a ideia?

Isto, em Portugal, seria interpretado como, “agrada-te a ideia de irmos passar uns dias num hotel tal e tal?”

Encontrei alguns exemplos reais deste tipo (negrito meu):

Um regresso ao caos. Lento, mas não tanto que nos poupe à antevisão das catástrofes. Até sabe bem a ideia de morrer antes.
Urbano Tavares Rodrigues, Ao contrário das ondas, 2005, p. 117

Na primeira segunda-feira deste novo ano sabe-me bem a ideia de acabar o dia a ouvir Vasco Pinto de Magalhães falar sobre a fé cristã e o sentido de pertença. A entrada é livre e o encontro vai ser às 21:15 no Grande Auditório das Irmãs Vicentinas
Laurinda Alves, A substância da vida (blog), 2011

Também pode saber bem saber que alguma coisa é verdade ou pensar nalguma coisa:

[…] sabe bem pensar que amanhã, depois do almoço, vai haver castanhas assadas
Mais do Mesmo, (blog), 2008

Numa altura em que o sol e o calor não têm abundado, sabe bem pensar no verão e naquelas férias relaxantes que já pode começar a planear.
Notícias ao Minuto, 2017

Sabe bem saber que apesar do calor do dia, a noite de Cali sempre traz uma brisa que levanta saias e refresca, sem fazer frio. Filipa Chatillon, Contos Alfacinhas (blog), 2016

Há tantas coisas que os brasileiros têm que nós queremos. Sabe bem saber que mesmo assim, Deus os abençoe, nunca hão de estar satisfeitos.
Miguel Esteves Cardoso, “Cartas Brasileiras”, Publico, 5-3-2014

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