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Ouço no rádio e na televisão, com relativa frequência, o uso de duas preposições seguidas conforme nos exemplos abaixo:

  • Ela demonstrou grande respeito para com o presidente.
  • A professora demonstra muito carinho para com os seus alunos.
  • A gaivota passou voando por sobre a torre da igreja.
  • Ronaldo chutou forte mas a bola passou por sobre a rede.

O uso de duas preposições seguidas fere alguma regra gramatical? É aceito como correto? Seria considerado pedante na língua falada informal?

Eu, pessoalmente, diria "pelo presidente", "pelos seus alunos", "sobre a torre" e "sobre a rede".

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No link informado pelo @stafusa no comentário, foi citado grandes obras de grandes escritores, todavia pode ser considerado como licença poética.


Em uma aula da professora Giancarla Bombonato, ela afirma que não podemos usar duas preposições seguidas, já que a função dela é ligar dois termos, por exemplo:

┌─────────────────┬────────────────┐
│ Incorreto       │ Correto        │
├─────────────────┼────────────────┤
│ Perante ao Juiz │ Perante o Juiz │
├─────────────────┼────────────────┤
│ Contra à vida   │ Contra a Vida  │
└─────────────────┴────────────────┘

O professor Sérgio Nogueira partilha da mesma ideia. Em uma dúvida publicada na página Dúvidas dos leitores, um leitor fez a seguinte indagação:

O técnico da seleção só falou após ao ou após o jogo?

Como resposta, obteve o seguinte:

O técnico da seleção só falou após o jogo. A presença da preposição após dispensa a preposição a. É bom lembrar que ao é a combinação da preposição a com o artigo definido o. Não há necessidade de usarmos duas preposições juntas. Outro exemplo errado é "estava perante ao juiz". O correto é dizer "perante o juiz".

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    Só é permitido "até a". "Mais interessante ainda é a combinação de até + a, uma locução prepositiva usada com a intenção de aclarar o sentido da frase. ... Em frases como “o incêndio na plantação queimou tudo, até o portão”, abre-se a possibilidade de dupla interpretação: o fogo chegou até o portão, e aí parou (o até é visto como preposição), ou o fogo queimou tudo, inclusive o portão? Por esse motivo, costuma-se reforçar a preposição até com a preposição a: “o fogo queimou tudo, até ao portão”; dessa forma, fica eliminada a leitura do até como inclusive." (Prof. Moreno - Sua Língua) – Paulo de Tarso Oliveira Bastos May 13 '18 at 3:40
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    @PaulodeTarsoOliveiraBastos Discordo, 'até ao portão' é redundante e incorreto, seria como dizer 'Nós fomos para ao Canadá.'. A eliminação da ambiguidade em língua escrita se dá por meio do uso da vírgula (com vírgula para o portão foi queimado, sem vírgula para o fogo parou no portão (ou simplesmente por 'até o portão' no início da frase)), e em língua falada por pausa + intonação. Vide resposta de Jacinto em: portuguese.stackexchange.com/questions/5280/… – user2786 May 13 '18 at 21:37
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    @WillianLio, Acredito que as duas formas estão corretas. No Brasil é raro ouvir "até ao" posto que é comum em Portugal. [aulete.com.br/at%C3%A9][www.lexico.pt/ate/] [sualingua.com.br/2009/05/11/preposicoes-juntas/] [www.recantodasletras.com.br/gramatica/3399649] [linguativa.com.br/laphp/conteudo/… [www.infopedia.pt/$ate-as-dez-horas-ou-ate-as-dez-horas?uri=vocabulario/até] – Paulo de Tarso Oliveira Bastos May 15 '18 at 1:18
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    Resposta muito enviesada. Para com e outras duplas de preposições seguidas vêm em vários dicionários e gramáticas sem qualquer advertência: não vêm indicadas como sendo erro ou licença poética. Dizer que que pode ser licença poética porque são citações de grandes autores não faz sentido. Gramáticas e Cláudio Moreno usam citações de grandes autores para ilustrar português correto, exemplos a seguir. Os autores que citas, se afirmam que duas preposições seguidas são sempre um erro, é a opinião deles contra dicionários e gramáticos. >> – Jacinto Aug 11 at 11:16
  • E o Sérgio Nogueira diz apenas que para com é em geral desnecessário; não diz que seja um erro ou sequer que seja sempre desnecessário – Jacinto Aug 11 at 11:18
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Correção e aceitação

A língua padrão aceita varias duplas de preposições seguidas. No dicionário Houaiss e no dicionário da Academia das Ciências de Lisboa encontramos para com (’com relação a’), por entre (’pelo meio de’) e até a (esta é especial, de regra em Portugal mas não no Brasil; para os interessados, reproduzo no fim a explicação muito completa do Houaiss).

Estes pares não são os únicos. Evanildo Bechara explica na Moderna Gramática Portuguesa:

Acúmulo de preposições — Não raro duas preposições se juntam para dar maior efeito expressivo às ideias, guardando cada uma seu sentido primitivo:

Andou por sobre o mar.

Estes acúmulos de preposições não constituem uma locução prepositiva porque valem por duas preposições distintas [as locuções prepositivas, como até a, depois de, graças a, valem por uma única preposição]. Combinam-se com maior frequência as preposições: de, para e por com entre, sob e sobre.

“De uma vez olhou por entre duas portadas mal fechadas para o interior de outra sala…” [Camilo de Castelo Branco]

“Os deputados oposicionistas conjuravam-no a não levantar mão de sobre os projetos depredadores” [Camilo de Castelo Branco]

A Gramática do Português da Gulbenkian (Lisboa 2013, tomo II, p. 1505; explicação reproduzida neste artigo do Ciberduúvidas) explica que nestes casos temos um sintagma preposicional dentro de outro sintagma preposicional. Por exemplo, em ele olhou por um canudo temos o sintagma preposicional por um canudo, composto pela preposição por e pelo seu complemento um canudo. Ora, uma preposição pode ter por complemento outro sintagma preposicional: em ver de ele olhar por um canudo, pode olhar por [entre as portadas mal fechadas], em que por e entre mantêm os seus significados primitivos.

Isto dá-nos possibilidades de combinar várias preposições. Por exemplo, a chegada do avião pode estar prevista para [as cinco da tarde]; mas também pode ser que

A chegada do avião está prevista para entre as cinco e as seis da tarde.

Portanto é verdade, como diz uma professora referida na resposta do Valdeir, que a função da preposição é ligar dois termos. Mas nada impede que, em alguns casos, o termo à direita comece ele mesmo com outra preposição.

É considerado pedante na língua falada informal?

A meu ver, depende. Parece-me que os últimos dois exemplos acima — olhou por entre as portadas mal fechadas e prevista para entre as seis e as cinco — são lógicos, relativamente corriqueiros, e não destoariam numa conversa informal.

Quanto aos teus exemplos, se a junção de duas preposições visa, nas palavras do Evanildo Bechara, “maior efeito expressivo”, eu não vejo qual seja o efeito expressivo em “a bola passou por sobre a rede” ou “voando sobre a torre da igreja”; tal como tu, eu diria sobre ou por cima de. Mas o por sobre tem tradições literárias, e alguns (não todos) dos exemplos citados pelo Cláudio Moreno já me parecem mais convincentes. Gosto de “o som mole dos chinelos que se aproximam ‘por sobre o tapete’”. A preposição por dá a ideia do movimento sobre o tapete; fá-lo de forma mais sugestiva do que se disséssemos simplesmente chinelos que se aproximavam sobre o tapete. Pergunto-me se alguns por sobre, como na bola passando por sobre a rede, não é simplesmente o desejo de variar por variar ou de “falar bonito” — temos um comentador de futebol em Portugal que em vez de dizer que um jogador é grande, diz que ele tem dados antropométricos notáveis!

Para com. Nos teus exemplos, o para com poderia perfeitamente ser substituído por pelo ou pelos, mas também não me choca. Noutros casos, porém, para com parece-me talvez a melhor opção:

Gostei da tua atitude para com a Joana

Aqui, pela não serviria. Atitude com a Joana talvez escape, mas não transmite tão claramente a ideia que a Joana é o alvo da atitude. Depois teríamos atitude em relação à Joana, que não melhora em concisão e seria talvez um pouco mais vago.

É claro que existindo para com para estas situações, em que é mais adequado que as alternativas, ele fica também disponível para outras situações em que poderá não trazer grande vantagem, como nos teu exemplos. A questão é que este para com já cá anda há séculos. O Camões já o usou, numa carta a uma amigo; não foi nenhum artifício para cumprir a métrica ou a rima: “Nenhuma cousa me enche tanto as medidas para com estes que vivem a mor bonança, do que ela [a morte]” (Obras Completas de Luís de Camões). Basta uma busca no Google Boks para ver que este para com é depois muito usado ao longo dos séculos. E o uso é o tribunal de última instância em matéria de correção.

Até a

Até a é uma verdadeira locução prepositiva, porque as duas preposições valem por uma só, em vez de manterem cada uma os seus sentidos primitivos. Ou melhor, até mantém, e a serve apenas de ligação. O Houaiss explica:

até […] GRAMÁTICA/USO a) como advérbio, Portugal e Brasil (no sentido de ’inclusive’) empregam-no do mesmo modo (até tu, Brutus?, gosto até de morangos ácidos) b) como preposição, em Portugal, usa-se associado à preposição a (ir até ao parque e não ir até o parque; caminhar até à igreja e não caminhar até a igreja), enquanto no Brasil é indiferentemente correto associá-lo ou não à outra preposição, embora por vezes se imponha tal escolha para evitar a ambiguidade ente os uso da preposição e o uso do advérbio (numa frase sem a preposição a do tipo estudei até a quinta lição, o até pode ser entendido, no Brasil, como preposição ’até ao limite da quinta lição’ ou como advérbio ’até mesmo a quinta lição;* historicamente, até ao sXVII, usou-se na língua apenas até; nesse mesmo século começou a surgir até a, com o artigo feminino (até à, até às), e posteriormente com o artigo masculino (até ao, até aos); grandes escritores dos sXIX e XX alternaram o emprego do até preposicionado com o até sem preposição, por vezes na mesma obra (Machado de Assis, por exemplo)

Note-se que a preposição a liga até ao artigo: vou até ao Brasil, até à China mas, como Portugal não leva artigo, simplesmente até Portugal. Do mesmo modo, espero até ao meio-dia mas espero até sábado/até ele chegar.

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É correto o uso de "para com" e tem significado de "com relação a" ou "em relação a".

Não há problema algum!

Também "por sobre", "por sob", "até a" e aquela que, dentre todas, é a mais comum: "dentre" (de+entre).

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    Segundo quem? A resposta seria mais forte se incluisse citações de casos de uso ou de regras gramaticais. – ANeves thinks SE is evil May 11 '18 at 13:37

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