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Esta pergunta em Portuguese.StackExchange me inspirou a levantar uma dúvida que carrego comigo há muito tempo.

Por exemplo, a sentença:

Adoro aquela garota, que é sempre muito prestativa.

é diferente de:

Adoro aquela garota que é sempre muito prestativa.

A primeira: gosta-se de uma garota, e diz-se que ela é muito prestativa. Ser muito prestativa pode estar relacionado ao apreço por ela ou não, porém gosta-se dela, e é prestativa. Uma oração principal + oração subordinada adjetiva explicativa.

A segunda: dentre todas as garotas, gosto daquela em específico salientada do grupo por sua característica de prestatividade. Uma oração principal + oração subordinada adjetiva restritiva.


Em texto, a diferença faz-se explícita. Todavia, por não ser possível "falar vírgula", na línguagem dita não há distinção clara entre ambas. (pausa no discurso não significa nada)

Existe uma maneira de, em língua proferida, transmitir essas duas ideias diferentes sem perda semântica?

  • Mas a vírgula, nesse caso, não corresponderia a uma pausa na fala? De qualquer forma, ficaria mais claro com um "e ela" no lugar do "que" na primeira sentença. – stafusa Apr 29 '18 at 18:10
  • Não, a vírgula é marcadora de OSAExplicativa. Novamente, pausa na fala não explicita o sentido desejado pelo interlocutor, já que não é um recurso linguístico per se, é apenas algo que ocorre na comunicação falada — seja para respirar, pensar, suspense, seja o que for, pausa não evidencia diferença gramatical. – user2786 Apr 29 '18 at 19:32
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    Não concordo que uma pausa na fala não explicita sentidos. E não sei o que você entende por recurso linguístico....a pausa é uma característica da fala que pode transmitir sentido ou não. Acho que falando ninguém diria: "Adoro aquela garota que é sempre muito prestativa." Seria ultra-culto ou esnobe. "Adoro aquele tipo de garota que é sempre prestativa". Devo dizer que a frase 1) e a frase 2) são registros bem diferentes.... – Lambie Apr 29 '18 at 22:03
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    @WilliamLio, Penso que esses mal entendidos acontecem mesmo, e só não ocorrem com mais frequência por conta do contexto. E eu diria que a pausa, exercendo em alguns casos um papel que é o da vírgula na linguagem escrita, pode sim alterar significados. Por exemplo, as frases: i) "Não, estamos em casa." e ii) "Não estamos em casa." tem significados opostos que, oralmente, seriam tipicamente distinguidos por uma pausa após o "não". – stafusa Apr 29 '18 at 23:54
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    @stafusa Dizer "Não, gosto de você" é gostar da ambiguidade. A fim de evitá-la, qualquer um diria "Não, eu gosto de você". – Centaurus Apr 30 '18 at 0:25
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Na fala as orações adjetivas restritivas e explicativas distinguem-se pela entoação. A restritiva juntamente com o termo a que se refere (aquela garota que é sempre muito prestativa) constitui, nas palavras dum artigo que cito abaixo, “uma frase entonacional”. Pelo contrário, a explicativa (que é sempre muito prestativa) e o termo a que se refere (aquela garota) pertencem a frases entonacionais diferentes: a oração explicativa é uma frase entonacional independente da entoação da oração principal e “marcada na fala por mudança na tessitura”.

Nós modulamos as entoações instintivamente, e descrevê-las por palavras é difícil ou mesmo impossível; de modo que essa entoação independente da oração explicativa, a tal “mudança de tessitura”, é descrita nas abordagens mais simples como uma pausa entre a oração principal e a explicativa, pausa essa marcada na escrita por uma vírgula. Cito Celso Cunha e Lindley Cintra na Nova Gramática do Português Contemporâneo (Lisboa, 2014, p. 812-13):

Como sabemos, as ORAÇÕES SUBORDINADAS ADJETIVAS classificam-se em RESTITIVAS e EXPLICATIVAS.
As RESTRITIVAS, indispensáveis ao sentido da frase, ligam-se a um substantivo (ou pronome) antecedente sem pausa, razão por que dele não se separam, na escrita, por vírgula. Já as EXPLICATIVAS, denotadoras de uma qualidade acessória do antecedente — e, portanto, dispensáveis ao sentido essencial da frase —, separam-se dele por pausa, indicada na escrita por vírgula.

O Só Português diz o mesmo:

A oração subordinada adjetiva explicativa é separada da oração principal por uma pausa, que, na escrita, é representada pela vírgula.

Encontrei um artigo científico — Erotilde Goreti Pezatti, “Da descrição ao ensino da oração adjetiva: a perspectiva dos livros didáticos de língua portuguesa”, Lingüística, Vol. 30(2), Diciembre 2014: 141-170 — que elabora mais a questão. Diz a autora (p. 155-7) que a oração adjetiva explicativa tem “um contorno entonacional próprio, que independe do da oração principal” (p. 155), enquanto

Diferentemente da explicativa, a oração adjetiva restritiva não tem um contorno entonacional próprio e consequentemente não apresenta uma ilocução. Em outras palavras, não constitui por si só um Ato Discursivo, ao contrário modifica o núcleo do sintagma nominal a que pertence e com o qual forma uma Frase Entanocional. [p. 156]

Um pouco mais à frente:

A diferença na formulação das orações adjetivas é mapeada exclusivamente na representação fonológica. Conforme observa Câmara (inédito), a oração adjetiva explicativa, por apresentar um contorno entoacional próprio, constitui uma Frase Entoacional, claramente marcada na fala por mudança na tessitura, o que não se verifica na oração adjetiva restritiva. Essa diferença prosódica é então assinalada, na modalidade escrita, pelo uso de vírgulas, na oração adjetiva explicativa, e por sua ausência, na oração adjetiva restritiva.

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  • O problema central reside em justamente a pausa não ser completamente confiável. Poderia dar alternativas, que não necessitem de pausa e que transmitam o mesmo significado, às frases, já que nem eu nem stafusa concebemos qualquer uma? – user2786 Apr 30 '18 at 20:52
  • Eu creio que me perdi um bocado na discussão entre ti e o Stafusa."Pausa" é um bocado redutor: a frase com a oração explicativa é entoada de forma diferente da frase com oração restritiva, e é essa diferença de entoação que se usa para fazer a diferença entre uma e outra na fala. Mas a diferença mais fácil de descrever é a tal pausa. Acrescentei mais sobre isso. – Jacinto Apr 30 '18 at 21:19
  • "Não ser completamente confiável" Queres dizer que em conversa espontânea nós fazemos imensas pausas por causa de atrapalhações, hesitações, etc.? E também há o contrário: uma pessoa lê um texto tipo metralhadora, sem atentar ao sentido do que está a ler. Mas isso equivale a escrevermos um texto à pressa sem pontuação. Num discurso bem pronunciado, nós colocamos as pausas, inflexões de voz, etc. onde elas são precisas. – Jacinto Apr 30 '18 at 21:24
  • Sim, é o quero dizer. Todavia, muitas pessoas, mesmo escutando um 'discurso bem pronunciado', não conseguiriam perceber a distinção nitidamente apenas pela entoação — a qual pode ser muito mais facilmente errada do que a seleção de palavras. Ainda que gostaria de uma plausível estrutura substituta para a explicativa, que depende de tom e pausa, dou green-check. – user2786 Apr 30 '18 at 23:32
  • @William, "gostaria de uma plausível estrutura substituta". Já tinhas pedido isso antes, e eu não tinha compreendido o que pedias. Vou pensar no assunto. Creio que em geral depende da intenção da explicativa. Enquanto a intenção da restritiva é clara--identificar a garota, ou aquilo de que se fala--a explicativa pode der intenções várias. É claro que poderias sempre dizer, "Adora aquela garota. E gostaria de acrescentar que ela é muito prestativa". Mas normalmente a explicativa não está lá só para adicionar uma informação avulsa qualquer; antes serve um propósito específico do falante. – Jacinto May 1 '18 at 8:14

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