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Gostaria de saber qual a origem da palavra “manjericão” e por que ela difere tanto dos outros idiomas. Por exemplo: Italiano: basilico Francês: basilic Inglês: basil Alemão: basilikum Norueguês: basilikum

Poderíamos atestar que tem origem ibérica/arábica. Mas no espanhol temos albahaca.

Qual a origem de um termo tão diferente?

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A resposta curta é: não se sabe ao certo. O romanista Jules Cornu (1849-1919) sugeriu que manjericão é corruptela do grego basilikón. Esta hipótese vem mencionada no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de Antenor Nascentes, mas creio que não teve aceitação generalizada, pois os dicionários generalistas dizem simplesmente que a origem é obscura. Por outro lado, apesar de não ter visto isto defendido, parece-me plausível que manjericão tenha a mesma origem que manjerona, que sabemos vir do latim medieval maiorana. Quer manjericão quer manjerona já estavam presentes na língua em 1507.

Comecemos com o dicionário Houaiss (Lisboa, 2002; desabrevio algumas abreviações):

manjericão s.m. (1507 cf. VFern) 1 ANGIOSPÉRMICAS designação comum a várias plantas do género Ocimum, da família das labiadas […] ETIMOLOGIA origem obscura.; formas históricas 1507 majericã, antes de 1580 mangericão, 1611 manjaricão, 1858 magericão, 1939 manjericão

Os registos mais antigos de manjericão e manjerona são ambos do Códice de Valentim Fernandes de 1507 (Corpus do Português; ênfase minha):

Esta çidade Quyloa jaz em hûa ylha […] Aqui ha muytas laranjas doçes lymões rabõas e cebolinhas pequenas /manjarona e majoricam em seus quintaes que regam dos poços /

A hipótese de Cornu—origem em basilikón

A passagem do grego basilikón, presumivelmente via latim medieval basilicum, para manjericão, parece surpreendente, mas o autor diz que o b passou igualmente a m em palavras como barafunda/marafunda, barulhar/marulhar, e bisagra/misagra¹ (segundo o Houaiss, termos antigos para ‘dobradiça’), e a passagem de ma- a man seria uma nasalização do a for efeito do m anterior, coisa que aconteceu também noutras palavras;² esta última passagem não é aliás problemática, uma vez que, como o Houaiss indica, estão registadas historicamente variantes com ma- e com man-.

O que não vi explicado foi a hipotética passagem do -sili- a -jiri-. Mas é verdade que o -s- intervocálico do português antigo soava vagamente intermédio entre z e j, como acontece ainda na fala de algumas pessoas no centro e norte de Portugal (vê esta pergunta); isto poderia ter facilitado a mudança. Por outro lado, o l do latim passou a r no português em muitas palavras, como praça (do latim platea) ou cravo (de clavus), mas não sei de l intervocálico, como em basilicum, que tenham passado a r.

Origem comum de manjericão e manjerona em maiorana

Não encontrei ninguém a sugerir que manjericão e manjerona partilhem a mesma origem, mas parece-me que vale a pena considerar essa hipótese. A manjerona é uma planta da família do orégão, e não do manjericão, mas todas elas são ervas aromáticas com algumas semelhanças. E os nomes são tão parecidos que me parece estranho que a origem não seja comum ou que pelos menos uma palavra tenha influenciado a outra. E existe algum consenso que manjerona, tal como o espanhol mejorana (RAE), o italiano maggiorana (Treccani) e o francês antigo majorane (CNRTL) (o moderno é marjolaine), vêm do latim medieval maiorana.

Donde vem o latim medieval maiorana é que já é incerto. Houve quem sugerisse que vem do latim amaracus, que significa precisamente ‘manjerona’, mas a hipótese mais aceite é que é uma alteração influenciada por maior do latim tardio mezurana (CNRTL), que por sua terá provavelmente origem numa palavra do Próximo Oriente (American Heritage) ou da Índia [(Etymoline)].

Agora, isto é a origem de manjerona. Poderá ser também a origem de manjericão se estas palavras tiverem origem comum. Poderíamos também admitir que manjericão evoluiu de algum cruzamento de basilicum e manjerona/maiorana. Note-se que o latim medieval maiorana está atestado no século XIII, portanto suficientemente cedo para influenciar a palavra portuguesa manjericão


Notas/Fontes:
¹ Jules Cornu, “Die portugiesiche Sprache,” in Gustav Grösser, Grundriss der romanischen Philologie, Strassburg, 1904-1906, p. 984, §170.
² Idem, p. 979, §151.

  • A origem a partir de manjerona parece lógica, mesmo sendo plantas de famílias diferentes, ambas são temperos e o manjericão é consideravelmente maior que a manjerona. Pode ter vindo de um sufixo com significado de “manjerona grande/maior” – Vitor C Goergen Apr 25 '18 at 21:31
  • @Stafusa, obrigado pela correção. Agora eu estava precisamente também a editar a resposta; aceitei a tua edição, e perdi a minha! Lol! – Jacinto Apr 26 '18 at 19:16
  • Ops! Desculpe por isso! :-) – stafusa Apr 26 '18 at 19:16
  • @stafusa, Imagina! Foi culpa minha. Eu não sabia que ao aceitar a tua perdia a minha. Mas eu faço isto quase tudo no Word, não é assim tão difícil recuperar. – Jacinto Apr 26 '18 at 19:20
  • 1
    @Vitor, eu estou cada vez mais inclinado a aceitar origem comum. Um aumentativo direto de manjerona seria manjeronão, parece-me. Eu imaginei o seguinte. O -ona de manjerona, mesmo não sendo, é interpretado como o sufixo, e substituído por -ico (à laia de bailarico, burrico, etc.) para dar manjerico, que é uma planta mais pequena e delicada que a manjerona. E depois manjericão é aumentativo de manjerico. Problema: manjericão já existia em 1507, enquanto manjerico (e manjarico, mangerico, etc.) só encontro a partir do sXIX! – Jacinto Apr 26 '18 at 20:03
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A origem é desconhecida. Talvez um candidato possível seja o sânscrito ou outra língua indiana.

Os dicionários (e.g., 1, 2, 3) apontam a origem da palavra manjericão como sendo desconhecida, obscura e até questionável. Este parece ser o consenso.

Não encontrei menção a qual seria a tal origem "questionável", mas talvez seja relevante que:

  • o manjericão (também manjerico e marijona) tem majericã como forma histórica mais antiga (1507) citada no Houaiss (cf. resposta do Jacinto);
  • a palavra do sânscrito मञ्जरीक, transliterada como maJjarIka, é o nome de uma espécie de manjericão, e transliterações listadas neste site sobre ervas incluem Mayangton (ময়াংতোন) (em manipuri) e Manjari (मञ्जरीक) (em sânscrito);
  • e várias fontes (e.g., esta, esta e a Enciclopédia Britânica) afirmam que a planta provavelmente chegou à Europa vinda da Índia, há cerca de 4 mil anos.

Esses fatos talvez sugiram o sânscrito ou uma língua relacionada como candidato à origem da palavra manjericão. Em particular, o Mayangton (ময়াংতোন) (da região de Manipur) é descrito como uma variedade asiática mais similar à mediterrânea. É importante não omitir, no entanto, que o principal termo para manjericão em sânscrito é tulasI (तुलसी), que não guarda semelhança alguma com o português.

O curto intervalo de tempo entre o início do comércio com "as Índias" e o primeiro uso registrado da palavra torna improvável, como o Jacinto comenta, uma origem indiana direta - e uma língua intermediária, por exemplo o latim, poderia ser necessária. A resposta do Jacinto faz uma sugestão muito interessante nesse sentido (a saber, "uma alteração influenciada por maior do latim tardio mezurana, que por sua terá provavelmente origem numa palavra do Oriente Próximo ou da Índia").

Vale também notar que no português também temos o sinônimo "alfavaca", de mesma origem árabe ( الحبق - al-habaqa) que o espanhol albahaca e outros nomes ibéricos.

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    Eu encontrei dicionários etimológicos a propor origens asiáticas, mas via latim, para manjerona; o que não está esclarecido, claro, é se manjericão tem a mesma origem. Agora, na tua resposta não está claro é se tu propões que o sânscrito ou outra língua indiana seja a origem direta de manjericão (os portugueses foram lá, ouviram e adaptaram) ou se foi via outras línguas (árabe ou grego + latim, por exemplo). Neste último caso deveriam existir formas parecidas também nessas línguas intermédias. Para transmissão direta, parece-me que não houve tempo suficiente. – Jacinto Apr 26 '18 at 19:44
  • 2
    É um ótimo ponto. A via árabe me parece improvável, já que o nome antigo (e também o atual) é bastante diferente. Confesso que eu considerava a via direta a mais provável mas, agora que você me chamou a atenção para o curto intervalo de tempo entre o início do comércio com "as Índias" e o primeiro uso registrado da palavra, concordo que deve mesmo ter havido algum intermediário. A via pelo latim talvez seja a mais provável, mas não tenho recursos (ou conhecimento) para investigar. – stafusa Apr 26 '18 at 20:04

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