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"Ai, se os meus olhos falassem", uma antiga - e linda - canção de autoria de Nóbrega E. Souza e Jerônimo Bragança, tem o seguinte trecho:

  • Ai se os meus olhos falassem,
  • Talvez a ti te contassem,
  • O que eu não conto a ninguém.

Ao meu ouvido de falante do pt-BR, "a ti te contassem" soa muito estranho, principalmente na língua falada. Trata-se de licença poética? Apenas um coloquialismo? Ou é aceito como gramaticalmente correto em ambos os lados do Atlântico?

  • Licença poética é uma incorreção de linguagem permitida na poesia. Em sentido mais amplo, são opiniões, afirmações, teorias e situações que não seriam aceitáveis fora do campo da literatura.
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  • Também me soa estranho. Faria sentido se o "te" fosse o objeto da oração: "talvez contassem a ti de ti" "talvez contassem-te para você".
    – Seninha
    Jan 16 '18 at 22:44
  • 1
    Parece-me que é mais uma questão de rimar/métrica. A ordem normal de um redobro seria talvez te contasse a ti (por exemplo, na resposta à pergunta A quem contarias?). Também seria possível a ti, talvez te contasse. Mas talvez a ti te contasse não me parece.
    – Artefacto
    Jan 17 '18 at 1:28
  • 1
    Não sei, @Artefacto, a mim parece-me uma maneira natural (mas rara) de acentuar o "a ti": «talvez a ti te contasse», por oposição aos outros a quem não contaria.
    – ANeves
    Jan 17 '18 at 14:10
  • 1
    @ANeves Não vejo nada de natural. Em outros casos com um constituinte focalizado não podemos retomar o constituinte com um clítico: a nenhum deles (*lhes) contaria isso. Portanto, quando muito seria possível sem o te, mas não consigo pensar em nenhum contexto em que antepor a ti não gere uma estrutura de topicalização, a qual se escreveria com vírgula a seguir a ti e que sem talvez desencadiaria ênclise.
    – Artefacto
    Jan 17 '18 at 15:31
  • 1
    @Centaurus acho que é isso. E não meteu "a ti" na posição normal, a seguir ao verbo, para poder rimar com o verso anterior.
    – Artefacto
    Jan 17 '18 at 22:06
3

O papel dessa redundância parece ser o de enfatizar o objeto. Acredito que não é estritamente gramático, ou seja, que é coloquialismo ou mesmo licença poética.

Coloquialmente, se não soasse estranho, acredito que seria (mais) aceito, assim como "vou te contar, só pra você" o é. Uma redundância desse tipo é muito comum na tradução para o português do famoso aforismo do santuário de Delfos:

Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses.

Essa frase aparece desta forma num artigo no site da Academia Brasileira de Letras, na Wikipedia e em diversos outros texto em pt-BR (e.g., esse e esse). Em pt-PT o mais antigo uso que encontrei foi em um livro de 1839 (pg. 342) e um projeto literário de 2014 foi batizado "Eu a ti, contava-te uma história".

A presença dessa figura num aforismo pode significar que ela já foi mais aceita no passado.

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  • 1
    As construções análogas seriam talvez te contasse a ti e a ti, talvez te contasse. Talvez a ti te contasse não me parece encaixar na última construção (uma deslocação à esquerda clítica); "talvez a ti" não funciona como tópico.
    – Artefacto
    Jan 17 '18 at 1:49
  • @Artefacto Você se refere ao projeto literário?
    – stafusa
    Jan 17 '18 at 1:58
  • quando falei em construções análogas, referia-me, respetivamente, ao conhece-te a ti mesmo e ao eu, a ti, contava-te uma história.
    – Artefacto
    Jan 17 '18 at 11:45
  • @Artefacto, ok, mas você vê alguma diferença entre "talvez te contasse a ti" e "talvez a ti te contasse"? De qualquer forma, pesquisando rapidamente sobre a expressão que você usou no teu primeiro comentário (deslocação clítica), me parece bem possível que me falte base teórica no assunto.
    – stafusa
    Jan 17 '18 at 11:56
  • Coisas como conhece-te a ti mesmo, curou-se a si mesmo, quem te disse a ti, etc. são corriqueiras em Portugal, e vêm reconhecidas nas gramáticas. Aliás no português europeu, conhece a ti mesmo é que é agramatical. As reticências do @Artefacto são em relação à ordem. A mim não me choca. Naquele contexto, e independentemente da rima, é até a minha ordem preferida. Mas, Artefacto, nem a mim me contavam, (quanto mais a ti) tem de estar correto (a mim, nem me contavam tem uma interpretação diferente). Não é paralelo a talvez a ti te contassem?
    – Jacinto
    Oct 30 '20 at 10:31

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