2

A palavra chor, derivada do latim "florem", é um cognato e sinônimo de "flor" que, diferente desta, teria sofrido em sua evolução a alteração fonética que transformou os "fl-, pl-, cl-" do latim em "ch-" (como "afflare > achar", "planum > chão", "clamare > chamar', etc).

Segundo o Wikcionario anglófono, a palavra *chor na língua Galego-Portuguesa é uma reconstrução, ou seja, ela não é atestada em escritos antigos, e se trata de uma palavra hipotética. Por outro lado, a palavra "flor" é atestada em vários textos antiquíssimos da língua, como nas Cantigas de escárnio e maldizer e nas Cantigas de Santa Maria. Outra forma, "fror", também era comum.

Já no Português moderno, o Wikcionário lusófono e o Aulete dizem que "chor" é um termo dialetal transmontano e um arcaísmo, respectivamente. E no Galego moderno, o Dicionario da Real Academia Galega diz que é uma alternativa para "flor".

Há algumas flores que usam o radical chor e que poderiam ser derivadas desta:

Há também uma árvore (e não uma flor) chamada Salgueiro-chorão, mas que cujas folhas caídas como se as tivessem chorando a fizeram ser derivada do verbo "chorar" e não do substantivo "chor". Compare com o francês "saule pleureur" (literalmente "salgueiro chorador"), na qual o verbo latino "plorare" manteve o "pl-" inicial; com os outros cognatos nas línguas românicas (como o espanhol "sauce llorón"); ou com o inglês "weeping willow", que tem a mesma tradução literal.

Primeiramente, por que esta palavra é reconstruída no português antigo? Quero dizer, há algum motivo para não encontrarmo-la no corpus medieval do Português, mas encontrarmos porém as palavras "flor, fror, frol" (que eram basicamente diferentes realizações da mesma palavra "flor", já que a variação /l~r/ ocorria naquela época)?

Esta palavra realmente existe atualmente na língua? Isto é, ela é usada, mesmo que dialetalmente (em Trás-os-Montes, tal como proposto pelo dicionário)? Ou se trata de uma palavra arcaica? Se for uma palavra arcaica, quando ela foi usada e atestada até entrar em desuso, já que ela não é atestada nos textos medievais?

  • 1
    A ter existido essa chor, fica explicado o chorão, uma flor comum perto de praias. Sempre associei a chorar, pela forma da palavra, mas nunca percebi nenhuma relação no sentido. Nós dizemos à flor da pele, à flor da água, 'à superfície'. Na cozedura, a gordura acumula-se na superfície da água. Poderia vir daí esse chorume (nunca tinha ouvido). – Jacinto Oct 22 '17 at 9:15
  • Alguns dicionários dizem que este "chorão" viria de "choro/chorar", uns livros dizem vir de "chor/flor". Encontrei este provérbio português que não sei se conheces (me soa ser bem antigo): "No tempo da chôr é cortar e pôr.". Aliás, essa minha última questão (do "chorume") apesar de relacionada é paralela à questão principal (da "chor"); seria o caso de eu movê-la para outra pergunta? – Seninha Oct 22 '17 at 14:41
  • O Houaiss, para a origem de salgueiro-chorão manda ver flor(i)-, mas eu estou agora convencido que vem de chorar. Na verdade, eu referia-me ao chorão-da-praia, mas também esse me parece vir de chorar. Descobri hoje esse provérbio. Creio que tenho uma explicação razoável para o chorume, estou a preparar uma resposta. Seriam possível separa, mas não me parece mal ficar tudo junto. – Jacinto Oct 22 '17 at 18:53
  • Sim, o salgueiro é relacionado a "chorar", e não a "chor" (os cognatos noutras línguas refletem isso). Quanto ao "chorão-de-praia" não achei cognatos (as outras línguas usam nomes com outras etimologias). Adicionei uma terceira planta, a "chorima", que, dentre as três, é a que tem mais relação aparente com "chor" do que com o verbo "chorar". Separei as questões pra poder trabalhar cada uma melhor individualmente. – Seninha Oct 23 '17 at 15:31
  • Há alguém de Trás-os-Montes aqui que possa confirmar se "chor" (ou ao menos as "choridas") existe por lá? – Seninha Oct 23 '17 at 15:35
2

Procurei por todo o lado, e encontrei um único testemunho direto do uso da palavra chor na língua portuguesa, nomeadamente em Valpaços, Trás-os-Montes, numa carta de Joaquim de Castro Lopo publicada em 1895 na Revista Lusitana (vol III, p. 325-29, disponível no Instituto Camões):

Nesta minha terceira carta á cêrca do sub-dialecto valpacense completarei as informações que a seu respeito ficaram consignadas nas duas anteriores [p. 325]

[…]

Chor, flôr. Proverbio referido á plantação da oliveira:
        No tempo da chor
        É cortar e pôr [p. 327]

Vários autores comentam a palavra, e este é também o único exemplo que mencionam; e parece-me que todos o foram buscar à carta da Revista Lusitana (ver por exemplo Carlos Rocha no Ciberdúvidas, 2007). Outros mencionam explicitamente que não são conhecidas abonações textuais da palavra (Clarinda A. Maia, “Sobre a perda de palavras medievais”, Acta del Congresso Internacional de Lingüística, 2010).

Mas este testemunho, mesmo sendo único, em conjunto com o uso documentado na Galiza, região vizinha de Trás-os-Montes, mostram que a palavra existiu no galego-português antigo, já que o processo que descreveste, passagem do fl latino ao ch galego-português (outros exemplos são flama > chama, cidade Aquae Flaviae > Chaves) ocorreu numa fase muito inicial da formação da língua.

Sobre o substituição de chor por flor e o facto de chor já não aparecer sequer em textos medievais, encontrei apenas conjeturas, mas que me parecem muito plausíveis. Existe consenso que flor entrou ou manteve-se na língua por via erudita (Houaiss, Lisboa 2002; Ciberdúvidas). O filólogo Leite de Vasconcelos sugere que teria sido em particular “por influencia da Igreja, onde [flor] tanto se usa” (Revista Lusitana, vol II, 1890-2, p. 371, disponível no Instituto Camões). O dicionário Houaiss (verbete flor(i)-) diz que chor “teve contra si a homonímia com o radical chor- de chorar”. O filólogo Mariño Paz sugere que flor tenha sempre concorrido com chor e que esta última tenha tido uma difusão limitada:

a hipótese de que a mudanza fonética [...] talvez só alcanzou o substantivo flor e os seus derivados unha difusión limitada xeográfica, social e/ou contextualmente, de tal maneira que as variantes conservadoras (con [fl-]) se acharían nunha situación que lles permitiria prevalecer sobre as innnovadoras, de tal xeito que xa no século XIII serían as propias do uso lingüístico común. Flor poderia ser unha variante conservadora de chor. Mariño Paz (2008: 517) p. 201 Citado em Francisco González Lousada, “O latinismo na lírica medieval galego-portuguesa”, Estudos Linguísticos/Linguistic Studies, 6-7, Edições Colibri/CLUNL, Lisboa, 2012, pp. 195-208.

Não encontrei qualquer vestígio de chorima ou chorida em Portugal. Mas existe, ou existiu, chorecer com o significado de florescer. Diz Carolina Michaëlis de Vasconcellos (Revista Lusitana, vol. III, 1895, p. 140, Instituto Camões):

Sá de Miranda emprega uma vez o provincialismo (minhoto, galego) chorecer, por florecer

Sá de Miranda (Wikipédia) morreu em 1558, portanto é coisa antiga. Não é claro do que ela diz se chorecer continuava em uso na altura, mas o dicionário de Cândido de Figueiredo de 1899 classifica a palavra como “termo antigo”.

| improve this answer | |
  • Eu havia procurado bastante por essa palavra, mas não encontrei qualquer uso direto que não seja em dicionário ou comentário sobre a palavra. Não consegui encontrar também se "chor" é ainda usado no dialeto Transmontano, mas pelas datas das fontes, creio que a palavra já esteja morta por lá. – Seninha Oct 25 '17 at 18:23
  • 1
    @Seninha, bem, a carta na revista lusitana é o mais próximo de uso direto que encontrei. Também me parece que a palavra já não está em uso. Mesmo no galego parece-me ser muito rara. Não encontrei quase nada. – Jacinto Oct 25 '17 at 19:31

Your Answer

By clicking “Post Your Answer”, you agree to our terms of service, privacy policy and cookie policy

Not the answer you're looking for? Browse other questions tagged or ask your own question.