3

Em cartas mais formais e requerimentos é comum ler o seguinte:

Termos em que, pede/peço deferimento.

ou

Termos em que pede/peço deferimento.

Qual dos dois é o correto e por quê?

  • 1
    Eu sinceramente não consigo entender a função sintática desse "que" na frase. Minha impressão é de que a vírgula é incorreta, mas não tenho certeza. Essa construção é típica de "juridiquês". Podiam muito bem dizer "Nesses termos, peço deferimento", ou "Nos termos acima, peço [o] deferimento...". – bfavaretto Sep 27 '17 at 18:49
  • 1
    @bfavaretto, é o pronome relativo: refere-se a "termos", e integra o constituinte relativo em que, que é adjunto adverbial de pede. E portanto, como intuiste, não pode levar vírgula. – Jacinto Sep 27 '17 at 22:12
2

Obrigatoriamente sem vírgula. A frase em questão aparece em textos com a seguinte estrutura¹ (ver exemplo aqui):

José Silva, dado que X, Y e W, solicita Z, termos em que pede deferimento

Nesta frase, “termos” refere-se ao enunciado anterior—“dado que […] solicita Z”—e é modificado pela oração relativa restritiva “em que pede deferimento”—não são uns termos quaisquer, são especificamente os termos em que se pede deferimento. O constituinte relativo em que é parte integrante da oração relativa, desempenhando a função de adjunto adverbial do verbo pedirpede deferimento nestes termos. Ora o constituinte relativo nunca se separa por uma vírgula do resto da oração a que pertence. Pensa nutras estruturas mais simples com orações relativas em que o mesmo acontece (a oração relativa está em itálico, o constituinte relativo a negrito itálico):

Gostei imenso do livro que me deste.
Vi ontem o episódio em que Jon Snow ressuscita.
Ele contou-me essa mesma história, em que eu não acredito nem um bocadinho.
Acordamos os termos em que se vão desenrolar as negociações.
Choveu imenso, o que não me impediu de gozar o passeio pela serra.

E como nós gostamos de coisas fundamentadas, aqui ficam uns exemplos de gramáticas conceituadas com o mesmo tipo de construção. O primeiro vem na Gramática do Português Contemporâneo de Celso Cunha e Lindley Cintra (Lisboa, 2014, p. 434; minha formatação em todos os exemplos):

Ela então consentiu que eu erguesse seu rosto, gesto que não me haviam autorizado.

Os seguintes são da Gramática do Português da Gulbenkian (Lisboa, 2013, vol. II, p. 2088):

(51) a. Estava a chover, situação/facto que nos causou muito transtorno.
       b. Chegámos tarde, coisa/motivo que provocou a ira dos donos da casa.

Estas frases são explicadas na Gramática do Português (p. 2087-8) como “construções apositivas contendo um nome abstrato como coisa, facto, motivo e situação (entre outros) modificado por uma oração relativa restritiva de nome […]”. No exemplo da Nova Gramática, o nome abstrato é gesto; nos tais requerimentos é termos.


¹ Um requerimento a sério seria uma ou várias páginas; cada um dos meus pontos X, Y e W, e outros que houvesse, seria um parágrafo, terminando com ponto final; e termos em que pede deferimento seria também um parágrafo, começando com maiúscula. Isto não acontece no discurso normal, em que termos viria sempre depois de vírgula e com minúscula.

  • não acontece no discurso normal – isso é o que me chama a atenção nesse tipo de construção, mais do que a eventual vírgula incorreta. – bfavaretto Sep 28 '17 at 2:12
  • 1
    @bfavaretto, eu também acho esse termos em que... particularmente deselegante: em linguagem normal, nestas construções, termos referir-se-ia à frase anterior, não a uma série de parágrafos. Mas a vírgula é absolutamente ilegal. – Jacinto Sep 28 '17 at 8:00
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A regra básica é observar se o sujeito concorda (em gênero, número e grau) com o predicado. Geralmente inicia-se a carta com “Fulano(s) de Tal, (e segue apresentação de Fulano), REQUER…” — na terceira pessoa (singular ou plural). E por fim, deve –se encerrar com “nestes termos, (Fulano de Tal, o requerente, 3ª pessoa singular) pede (3ª pessoa do singular) deferimento…” enter link description here enter link description here enter image description here

  • Bem-vinda Adriana! É ótimo ganharmos mais contribuintes tão ativos, então permita-me mencionar dois pontos recorrentes que podem ser melhorados nas tuas postagens até aqui: 1) as imagens de livros não são necessárias, elas mais distraem do que auxiliam na compreensão da resposta; e 2) lembre de preencher o enter link description here com os dados (autor, título ou domínio, etc) do link. Este último ponto é importante por duas razões: i) é possível buscar a referência caso o link apodreça (i.e., seu endereço mude), e ii) não é preciso seguir o link para saber-se qual a referência indicada. – stafusa Apr 28 at 23:28
  • Nessa resposta específica, não vi conexão entre a referência dada e o texto da resposta - deixei de ver (você poderia apontar?) ou é apenas uma referência genérica sobre o assunto? Se for o último caso, referências do tipo devem ser evitadas. – stafusa Apr 28 at 23:30

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