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Além do significado encontrado na maioria dos dicionários para cara:

cara, s.f: face, rosto.

Qual é a origem de cara usada para se referir a alguém?

Cara, você não vai acreditar!
Você está em boa forma, cara.

  • Pensei que fosse caro na primeira leitura. :) Mas é sujeito. Será que vem de camarada? – Lambie Jun 2 '18 at 15:05
  • 1
    vnbrs, eu mudei o teu título para o tornar mais explícito e, espero eu, mais apelativo. Vê se gostas; se não gostares, sabes com certeza onde se faz rollback. – Jacinto Jan 15 at 22:01
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Pode ainda ter origem celta: "cara", em irlandês, e "caraid", em gaélico, significam "amigo". Logo, ao dizer: "Nossa, cara, que coisa", você estaria dizendo "Nossa, amigo, que coisa". Em Portugal, contudo, essa gíria não existe. Poderia ser um arcaísmo brasileiro, tendo desaparecido em Portugal. Mas então esse uso teria que ser atestado antes da década de 60 no Brasil e em tempos pretéritos, em Portugal.

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Os dicionários que consultei limitam-se a dizer que este cara (‘indivíduo’) vem do grego kara, ou latim cara, ou grego via latim (Houaiss, Infopédia, Michaelis, Aulete), ou seja a mesma origem que cara ‘rosto’. Uma possibilidade que me parece plausível é que esse cara venha de expressões tipo cara “de qualquer coisa”, tal como cara linda, cara estanhada, cara de pau, etc. Há dois usos destas expressões—como vocativo e para referir um indivíduo—que têm semelhanças com os usos de cara ‘indíviduo’ e que parecem ser mais antigos. Comparemos os dois usos. Os exemplos que apresento são reais e dos mais antigos que encontrei:

Cara para referir um indivíduo

Cara sem mais nada para referir um indivíduo só encontrei a partir de 1911 (negrito meu, itálico e restante grafia originais):

Esses caras o que pretendem é tambem uma passagem para a Orópa.
“Nas zonas”, O Rio Nu, Rio de Janeiro, 29 de abril de 1911.

— Ó Lupercio, quem é “aquelle cara”?
“Scena de pugilato”, Correio Paulistano, São Paulo, 27 de julho de 1915.

Cara de qualquer coisa para o mesmo efeito é mais antigo:

Ah! foi aquelle cara de nabo?
Aluísio Azevedo, O Cortiço, Rio de Janeiro, 1890.

[…] os pretos cangueiros paravam para “mirar o cara-nova” [um desconhecido recém-chegado].
Aluísio Azevedo, O Mulato, publicado originalmente em 1881.

Àttesto que esse cara de pandilha / Um vivente não é... não é um homem, / Mas sim um formidável lobishomem
José Ignacio d’Araujo, Á Sombra do Sineiro, teatro, Lisboa, 1860.

Cara como vocativo

Cara sem mais dada como vocativo só encontrei a partir de 1976. A primeira citação sugere que este uso era ainda pouco aceite em certos meios:

[…] José Wilker, que já poluiu o ambiente sonoro com a repetição sistemática do termo "cara": “é sério, cara”; “Até logo, cara”.
Visão, vol. 48, n. 1-13, 1976.

—Eu?
Sim, cara, tu tens que aparentar ser um flagelado da seca.
Nevinha Pinheiro, A cruxificação do diabo, 1978.

Cara de qualquer coisa já era usado como vocativo no século XVII:

—Olhe sô-cara de asno [“senhor cara de asno”], não leve um carolo.
D. Francisco Manuel de Mello (1608-66), Feira dos Anexins, publicado postumamente em 1875.

Diga-me, meu cara de inhame insuado, porque é que maltrata assim quem nunca lhe fez mal?
Tristão de Alencar Araripe Júnior, Luzinha: romance de costumes cearences, Rio de Janeiro, 1878.

Atreve-te meu cara de demonio, que já tens mesmo cara de condemnado!
Bento Moreno, Comedia do campo: scenas do Minho, Lisboa, 1877.

Uma diferença entre os usos de cara “sem mais nada” e cara “de qualquer coisa” é que este último é quase sempre provocador ou insultuoso. Mas é comum amigos usarem termos provocativos para se dirigirem uns aos outros, além de que caindo o “de qualquer coisa” o insulto também desaparece. E segundo o Michalis e o Aulete o uso de cara “sem mais nada” também pode ser provocador ou impolido.

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Segundo Gírias: na boca de jovens e adultos da Revista Deciframe, tem origem na década de 60 durante a jovem guarda.

ANOS 60

aldeia global (nosso mundo), bacana (bom, bonito), boa pinta (de boa aparência), boazuda (mulher bonita), bolinha (estimulante), cafona (feio), calhambeque (carro velho), cara (indivíduo), carango (carro), certinha (mulher bonita), chapa (amigo), dar tábua (recusar-se a dançar), duca (ótimo), é fogo! (é difícil), é uma brasa, mora! (é espevitada, danada esticada (passar por vários restaurantes e bares noturnos),fossa (depressão, crise existencial),gamar (namorar), gata (mulher bonita), grana (dinheiro), jovem guarda (movimento artístico musical), legal! (ótimo!),mancar (desrespeitar compromisso), minissaia (saia curta), paca (muito), pão (homem bonito), papo firme (conversa séria), papo furado (conversa boba), pé de chinelo (pessoa sem expressão), pelego (líder sindical governista), pode vir quente que estou fervendo (excitada), pra frente (moderno), quadrado (conservador), sifo (deu-se mal), sifu (deu-se mal), tremendão (rapaz bonito), uma brasa, mora (bom, ótimo!), ziriguidum (samba no pé, molejo de mulata).

  • Já aqui, creio que a Revista Deciframe não fez um bom trabalho. Encontrei cara com o sentido de 'pessoa' num livro de 1927: "Quem é aquele cara?"; +1 na mesma. – Jacinto Oct 18 '17 at 23:39
  • 1
    Talvez o uso apareceu naquela época mas isso não explica a origem.... – Lambie Jun 2 '18 at 15:10
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Provavelmente da palavra indígena “cara” [com acento na pronúncia no segundo a - car(á)], a qual significa senhor.

As variantes são:

Senhora: Cunhatã

Senhorita: Cunhataí

Senhorito: Caraí

  • 1
    Achei interessante. Fontes? Reforçará sua resposta. – Fabiano Monteiro May 26 '18 at 23:07
  • 1
    @gustavo-roriz indígena é bem abrangente, tens referência a algum dialeto específico? – Jedaias Rodrigues Jun 11 '18 at 11:56

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