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Quero saber, qual é a origem da palavra religião.

O que significa?

Ela é uma palavra traduzida para o português?

Qual seu o idioma originário?

Quando começou a ser utilizada?

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Religião é no seu moderno sentido primário um conjunto de crenças num ser ou força (ou seres ou forças) superior e sobrenatural, criador e sustentador de tudo quanto existe, e um conjunto de atitudes, práticas e regras associados a essas crenças. Isto é uma definição muito geral nas minhas palavras. A Wikipédia tem um artigo desenvolvido sobre os assunto, e o Aulete e o Michaelis trazem mais uma porção de aceções, para além do sentido primário.

A palavra vem do latim religio e já aparece em textos galaico-portugueses do século XIII, com as grafias religião e religion; também se encontra neste século religioso, do latim religiosus (dicionário Houaiss, Lisboa, 2003). Não se encontrar a palavra anteriormente não significa que ela não estivesse já em uso: chegou até nós pouquíssimo material em português dos séculos anteriores. Dada a importância da religião nos tempos antigos, e como a palavra vem já do latim, quase de certeza que esteve presente na língua o tempo todo na evolução do latim até ao português.

Segundo o Houaiss, o latim religio significava ‘culto religioso, práticas religiosas’. As palavras francesa e inglesa religion vem também do latim religio, a inglesa, via francês. E o Etymoline, dicionário etimológico da língua inglesa, explica mais pormenorizadamente o significado e possíveis origens do latim religio (tradução minha):

“respeito para com o que é sagrado, reverência para com os deuses; consciência, sentido de correção, obrigação moral, temor aos deuses; serviço divino, observância religiosa; qualquer religião, fé, modo de adoração ou culto; santidade”, e no latim tardio, “vida monástica” (século V).

De acordo com Cícero [religio] deriva de relegere “passar novamente por” (numa leitura ou pensamento), de re- “novamente” […] + legere “ler” […]. Contudo, a etimologia popular entre os antigos (Servius, Lactanius, Agostinho) e a interpretação de muitos autores modernos relacionam [religio] com religare “ligar, atar firmemente” […], por via da noção de “impor uma obrigação a”, ou “ligação, vínculo entre humanos e deuses”. Neste caso, o re- seria um intensificador. Outra origem possível é religiens “cuidadoso”, contrário de negligens.

Procurando no Corpo Informatizado do Português Medieval encontram-se a partir do século XIII vários exemplos de religion, religiõ, religiom, religiam e religiões, todos aparentemente com o sentido de ‘vida monástica’, isto é, a vida de monges, freiras, etc. em comunidades religiosas. Hoje, neste sentido, diríamos normalmente, não religião, mas ordem, congregação religiosa; mas o Michaelis 7 ainda regista esta aceção de religião. Só a partir do século XV é que encontrei religião (nas suas diversas variantes gráficas) com o moderno sentido de ‘conjunto de crenças e atitudes relacionadas com o divino’. Exemplos com a minha “tradução”, espero que correta, para português atual:

Ena Gran Bretanna foi hũa sazon / que un mõesteiro de religion / grand' ouv' y de monges, que de coraçon / servian a Virgen bẽeita sen par.
Na Grã Bretanha foi uma época, que houve um grande mosteiro de religião e monges, que de coração serviam a Virgem bendita sem par
Cantigas de Santa Maria, 1264-84 (aqui edição de 1959)

Est’ ome[…] soube senpre ben sen mal / e Santa Maria, a que pod' e val, / amou mais que al ren, e por lle leal / seer entrou logo en religion.
Este homem […] soube sempre bem sem mal e amou mais que [qualquer] outra coisa Santa Maria, a que pode e vale, e por lhe ser leal entrou logo em religião
Cantigas de Santa Maria, 1264-84 (Wikisource)

Deffendem(os) firmemẽte q(ue) nenhuũ clerigo segral nẽ de religiõ nõ seya osado de tomar nenhuũ p(re)ço por dar fossas nen logar hu as façã.
Defendemos firmemente que nenhum clérigo secular ou de religião tenha ousadia de tomar preço por dar cova [para sepultura] ou lugar onde as façam
Afonso X, Foro Real, Beira Alta, 1280? (em Elisângela Santos, Elementos Textuais

E exemplo mais antigo que encontrei com o sentido moderno é de D. Duarte, Leal Conselheiro, 1437-8, (edição de 1842):

Estas tres virtudes suso [‘acima’] scriptas, scilicet [latim, ‘a saber’], fe, sperança, e caridade […] e das outras quatro, scilicet, prudencia, justiça, temperança e fortelleza, […] E no livro das Collaçõões de sam Joham Casiano, e seus stabellicymentos, os quaaes, ainda que trautem segundo a xpãa [‘cristã’] religiom, todo [‘tudo’] porem fillosofalmente he fundado sobre as virtudes e seus contrairos.

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