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No português, há pares de consoantes sibilantes homófonas que são grafadas de maneiras diferentes por motivos históricos. São os seguintes pares:

  • ⟨ch, x⟩, exemplo feche e feixe;
  • ⟨s, z⟩ (o ⟨S⟩ simples-intervocálico), exemplo: coser e cozer;
  • ⟨ss, ç⟩ (o ⟨S⟩ duplo-intervocálico; e o ⟨C⟩ palatizado/cedilhado), exemplo: massa e maça.

Ainda existem dialetos portugueses que conservem a diferença fonética de algum desses pares?

Ouvi dizer que na fronteira norte de Portugal, o ⟨ch⟩ tem som africado "tx" (ou o "tch" de "tchau"), talvez por influencia do Galego/Espanhol (que conservam a diferença desse par), mas não pude confirmar essa informação em nenhuma fonte fiável nem com nativos.

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  • 2
    Sim, ainda se mantém o som africado "tx" em zonas fronteiriças de Trás-os-Montes, no Norte de Portugal. É uma pronúncia que está a cair em desuso. Ouve a pronúncia de "chamuscam-nos" aos 6 segundos desta recolha: cvc.instituto-camoes.pt/hlp/geografia/som4.html
    – ANeves
    Jun 29 '17 at 13:43
  • Se me lembro bem, a distinção entre coser e cozer faz-se em Viseu (o nome desta cidade soa mais a /j/ do que a /z/). Pelo menos, assim ensinou-me um professor que era dali Jun 29 '17 at 18:39
  • No caso de Trás-os-Montes, seria mais por causa da segunda língua oficial de Portugal, o mirandês, não é? Jun 29 '17 at 18:51
  • @guifa não acho que seja. O mirandês é limitado a uma zona muito pequena e limítrofe de Trás-os-Montes. O "tx" também é usado na zona de Vila Real (conheço exemplos de Vila Pouca e Pedras Salgadas), por exemplo, que fica a 150km daí. ... pensando melhor, quero desdizer o "fronteiriças" dali do primeiro comentário. :)
    – ANeves
    Jun 30 '17 at 10:49
  • @Seninha, tentei tornar o título mais "sexy". Vê se gostas.
    – Jacinto
    Oct 25 '17 at 20:25
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O estudo de referência sobre o assunto é ainda a “Nova Proposta de Classificação dos Dialectos Galego-Portugueses” de Lindley Cintra de 1971 (Instituto Camões). Este estudo baseia-se em dados recolhidos pelo autor nos anos 50, mas é ainda nele que se baseia a discussão do assunto na imensa Gramática do Português da Gulbenkian de 2013 (p. 88-104).

Pronúncia diferenciada de sinto/cinto, coser/cozer, etc.

Segundo Lindley Cintra a pronúncia diferenciada nos pares sinto/cinto, massa/maça, coser/cozer, etc. ocorre nos falares transmontanos e alto-minhotos, no nordeste de Portugal. Pode ver-se neste mapa no Instituto Camões (zona a azul-claro). Mais abaixo na mesma página podem ouvir os dois ss em registos sonoros dessa região. O c seguido de e ou i e o ç segue a norma-padrão de Portugal e do Brasil, mas o s inicial ou ss intervocálico soa intermédio entre ç e ch.

Por exemplo, no registo de Perafita 2, o c/ç é pronunciado como na língua norma-padrão em ouço e mocinha, mas o s inicial/ss de senhoras, Souto, missa, assim, etc. é muito diferente, de tal forma que missa se aproxima de micha. O mesmo se passa com as variantes sonoras: o z em princípio de sílaba segue a norma-padrão, mas o s intervocálico aproxima-se do som de j; comparem no mesmo registo reza e dizia (norma-padrão) com casa e coisa (aproximam-se de caja e coija).

Para produzir estes “outros” ss, tentem pronunciar o s com a língua arqueada de tal modo que apenas a ponta se aproxima do céu da boca; por isso se chama apical, nomeadamente fricativa apicoalveolar sonora (casa) ou surda (massa); enquanto na pronúncia norma-padrão as fricativas são sempre pronunciadas aproximando uma parte maior da língua do céu da boca, chamando-se por isso fricativas alveolares pré-dorsais.

Explica a Gramática do Português (p. 96) que estas quatro fricativas eram a norma no português antigo. As apicoalveolares vieram do latim, onde já eram representadas por s; as pré-dorsais evoluíram também do latim, mas de sons representados do c e t quando seguidos de e, æ, i ou y (Cicero, Cæsar, certus, gratia, etc.); no latim clássico estes c e t eram mesmo pronunciados [k] e [t], mas começaram a evoluir para outros sons ainda no latim tardio, dando origem às nossas fricativas pré-dorsais, que eram representadas no português antigo por c (seguido de e ou i), ç ou z (para a evolução do som de ci, ce, etc., ver esta pergunta). Depois herdámos também palavras com este som do árabe.

Entretanto, exceto nos falares transmontanos e alto-minhotos, as quatro fricativas reduziram-se a duas, desaparecendo na pronúncia a diferença entre sinto e cinto ou coser e cozer. Nos dialetos meridionais, que se estendem até Aveiro, Coimbra e Castelo Branco (ver mapa no Instituto Camões) as fricativas apicoalveolares passaram a pré-dorsais, e foi esta a pronúncia que vingou no Brasil; entre esta região e a área dos falares transmontanos e alto-minhotos—uma área que inclui o Baixo Minho, Douro Litoral, Beira Alta e parte da Beira Baixa—foram as fricativas pré-dorsais que passaram a apicoalveolares; daí estas fricativas serem popularmente conhecidas em Portugal por s beirão.

Tch: tchave, tchuva, etc.

Novamente segundo Lindley Cintra, a pronúncia de ch, mas não do x, como se fosse tch (chave como se fosse tchave, bucho como se fosse butcho) ocorre numa área que coincide aproximadamente com a do s beirão (os dois azuis no mapa do Instituto Camões), mas não completamente, não incluindo por exemplo o litoral dos distritos de Braga e Porto. Podem ver o mapa do Lindley Cintra na “Nova Proposta” (p. 16), mas é difícil de ler.

Persistência e declínio destas pronúncias

Note-se que estas pronúncias ocorrem nestas regiões, mas não quer dizer que sejam dominantes. A minha impressão de contactos com pessoas dessas zonas, é estas pronúncias são pouco comuns. Em particular, a respeito do tch diz a Gramática do Português (p. 92):

Esta pronúncia, que é sentida como rústica, tem sido progressivamente eliminada. Conserva-se ainda, contudo, na pronúncia de pessoas idosas das aldeias […] materiais recolhidos posteriormente para o [Atlas Linguístico e Etnográfico de Portugal e da Galiza] revelam que, apesar de geralmente erradicado na fala das camadas jovens e adultas, ainda na última década do século XX, na área tradicional deste traço, pessoas que normalmente o omitem, pelo menos perante estranhos, na realidade ainda o conservam, deixando-o “escapar” na fala espontânea.

E já no final do século XIX, um observador comentava que a distinção sinto/cinto, coser/cozer estava a desaparecer na vila de Valpaços, bem no centro da região onde a diferença ocorre:

Nesta minha terceira carta á cêrca do sub-dialecto valpacense completarei as informações [...]

13. A distinção constante entre os valores de ç e s surdo, de z e s sonoro, que eu reputo, acompanhado o sr. Gonçalves Vianna, como caracterisitica phonetica do dialecto transmontano, vae desapparecendo nesta villa; facto de que o povo tem consciencia, pois diz de pessoa, que não faz esta distincção, ser cidadosa.
(“Linguagem Popular de Valpaços”, Revista Lusitana, vol. III, 1895, p. 325, disponível no Instituto Camões.)

7
  • Lembrei dessa pergunta e me veio agora a dúvida seguinte. Em algum momento na história de nossa ortografia, foi decidido que o ⟨ç⟩ não seria mais usado em início de palavra, enquanto que ⟨ce, ci⟩ se mantiveram. Grafias como ⟨çapato⟩ tornaram-se ⟨sapato⟩, mas ⟨ciência⟩ manteve-se inalterada. Os dialetos portugueses nordestinos (transmontano, etc.) perderam o /s/ apical no inicio de palavras (e essa reforma ortográfica seria um reflexo disso); ou estes dialeto ainda mantêm este som em posição inicial (e "sapato" é pronunciado como se possuísse ⟨ç⟩ independente da ortografia)?
    – Seninha
    Aug 31 '17 at 23:27
  • 1
    Mas, nesses dialetos, "sapato" (ou outras palavras que eram iniciadas por ⟨ç⟩ cedilhado, creio que não são muitas) continua a ser pronunciado como çapato (pré-dorsal) ou é "x"apato (apico-velar)? Pois a impressão que tenho, é que essas palavras mantêm a pronuncia pré-dorsal independente da ortografia. Infelizmente não encontrei nenhuma dessas pronúncias nos registros sonoros do site do Instituto Camões.
    – Seninha
    Sep 1 '17 at 20:43
  • 1
    @Seninha, também não encontrei nesses registos nenhuma palavra que já tivesse começado por ç. Mas há uma senhora ou senhoras que falam com as 4 fricativas e pronunciam centeio (Outeiro 1) e cima (Outeiro 2) com pré-dorsal, o que me leva a crer que pronunciariam também sapato com pré-dorsal. Não encontrei qualquer menção de uma exceção na pronúncia das fricativas iniciais. Para a maioria dos falantes o ç (inicial ou medial) foi mantido por tradição escrita (já que fundiram as 4 fricativas em 2). >>
    – Jacinto
    Sep 2 '17 at 9:12
  • 1
    >> Penso que o abandono do ç inicial na escrita tenha sido uma opção estética, mas duvido que isso possa ter influenciado a pronúncia. Até porque até princípio do sXX a grande maioria da população rural em Portugal era analfabeta.
    – Jacinto
    Sep 2 '17 at 9:19
  • 1
    @Seninha, a Revista Lusitana é uma fonte inesgotável de informação: na tal carta também vem uma observação acerca das sibilantes em Valpaços, que juntei à resposta
    – Jacinto
    Oct 25 '17 at 20:00

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