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Tenho algumas duvidas referentes ao uso do se que listei abaixo.

  • Na minha leitura de O Cortiço de Aluízio Azevedo recentemente, um dos trechos que me estranharam foi este:

Em todo o caso vamos seguindo, resolveu Jerônimo, impaciente, nem se temesse que a noite lhe fugisse de súbito.

O trecho faz parte do dialogo contido neste link. Gostaria que me respondessem qual é o sentido e a classificação morfossintática da partícula se no trecho.

Segunda questão: - Durante minha pesquisa para entender as variedades de se eu percebi uma ambiguidade que pode ser sintetizada na seguinte frase:

Levantou-se Joaquim.

Se é partícula apassivadora, ou é pronome reflexivo? Se a minha analise esta correta, ambas servem, pois poderia se tratar de alguém levantando a si mesmo, ou da forma passiva sintética equivalente a forma passiva analítica:

Joaquim foi levantado (voz passiva analítica)

Talvez poderia até mesmo ser partícula expletiva, mas não tenho certeza.

Espero ter sido claro em minhas questões.


Acho que não fui claro em relação a ter mais de uma pergunta com apenas o uso do se em comum. Talvez em devesse ter postado a segunda em outra questão.

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    Chris, isto são duas perguntas independentes. Então é melhor postar duas perguntas separadas: apaga a das orações subordinadas aqui e abre uma segunda pergunta. Já agora, facilitaria se desses um ou dois exemplos de orações que achas que estão nessa zona nebulosa entre a causal e condicional. No caso do Cortiço do A. Azevedo, eu diria que o se é conjunção; mas nunca vi aquela construção antes. – Jacinto Jun 6 '17 at 6:35
  • Joaquim foi levantado -> Levantou-se o Joaquim. Mesmo assim, o usual é Levantaram o Joaquim. – André Lyra Jun 6 '17 at 17:57
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O se d’O Cortiço é conjunção

Esta construção frásica d’O Cortiço não é de uso corrente. Eu nunca a tinha encontrado, e procurando neste Corpus do Português e no Google Books não encontro outra igual. Para mim a frase só tem sentido se interpretarmos se como conjunção e nem se forma uma locução conjuntiva comparativa; no fundo houve aqui a elisão de algo como como não estaria:

(a) “resolveu Jerónimo, impaciente, [como não estaria] nem se temesse que a noite lhe fugisse de súbito.”

Podemos ainda parafraseá-la em:

(b) resolveu Jerónimo, impaciente; nem se temesse que a noite lhe fugisse de súbito, ele estaria tão impaciente

(c) resolveu Jerónimo, mais impaciente do que (estaria) se temesse que a noite lhe fugisse de súbito

Esta é também a interpretação que encontrei em Notas de Português de Filinto e Odorico, 1955, de Martins de Aguiar, que identifica como equivalentes as locuções nem se, nem que e nem que se (segundo excerto para completar; grafia original e negrito meu em todas as citações):

[…] grunhia D. Cochino [um porco] pela estrada, de tal modo, como não grunhiria nem que cem magarefes [açougueiros] o acossassem. Também se emprega nem se e o cruzamento das duas expressões, nem que se:
“Em todo o caso vamos seguindo, resolveu Jeronymo, impaciente, nem se temesse que a noite lhe fugisse de subito.” (Aloísio de Azevedo, “O Cortiço”, pág. 243.)

O primeiro exemplo da Notas de Português (“como não grunhiria nem que cem magarefes o acossassem…”) tem a mesma estrutura que (a) acima (como não estaria nem se temesse…), com nem que em vez de nem se, e é uma paráfrase de Fábulas de J. La Fontaine, 1815, traduzidas por Francisco Manoel do Nascimento; o original tem a mesma estrutura que a frase d’O Cortiço

Grunhia Dom Cochino, pela estrada,
Nem que cem magarefes o acossassem:


Os outros ses não funcionam neste contexto

Se é de facto também partícula apassivadora na voz passiva sintética (e pronome indeterminador do sujeito numa construção aparentada; vê estas pergunta) e pronome reflexo, como nos teus exemplos do Joaquim. Mas nenhum desses ses faz sentido no trecho d’O Cortiço. Se fosse partícula apassivadora, a frase seria equivalente a:

(d) nem fosse temido que a noite lhe fugisse de súbito

Seria estranho usar a passiva, quando a questão é se o Jerónimo teme ou não. Mas a dificuldade maior nesta frase é que precisaríamos de qualquer coisa para ligar nem a fosse (ou a se temesse na frase original); teria de ser nem se fosse ou nem que fosse (nem que se temesse ou nem se se temesse na frase original). O se apassivador seria possível, mas noutro contexto:

Recomendaram que não se confiasse que a noite esperasse por eles, nem se temesse que a noite lhes fugisse de súbito.

O pronome reflexo é impossível. Neste caso, se seria o objeto direto de temer—Jerónimo teme-se a si mesmo. Mas o objeto direto de temer é a oração substantiva que a noite lhe fugisse de súbito. Há ainda o se inerente da conjugação pronominal, que pode à primeira vista confundir-se com a conjugação reflexa (ao contrario da conjugação reflexa, na pronominal a ação não incide sobre o sujeito; e.g. ele riu-se). Temer admite conjugação pronominal. O dicionário Houaiss (Lisboa, 2003) dá o exemplo “o heroico soldado que da morte não se teme”. Seria possível dizer:

Receou-se que Jerónimo se temesse (de) que a noite lhe fugisse.

A preposição de é frequentemente omitida nestes casos. Mas há também nesta interpretação o problema de ligar na frase original o nem ao se temesse, se o este se fosse inerente ao verbo e não a conjunção se.

  • Daí você vê o que é um serviço bem feito! +1 – Marcelo Ventura Jun 9 '17 at 0:30
  • Impressionante a resposta! – chris Jun 9 '17 at 5:06
  • Os exemplos do Joaquim coloquei porque tinha outra questão em mente relacionada ao "se" usado daquele modo. Não os via como possibilidades. – chris Jun 9 '17 at 5:23
  • Ah! @chris, eu pensei precisamente que estavas a explorar possibilidades para o se d'O Cortiço. Não sei a minha resposta responde satisfatoriamente à tua segunda pergunta? Realmente a tua pergunta original deveria ter sido três perguntas separadas. – Jacinto Jun 11 '17 at 21:19
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Essa construção permite ambas interpretações, a depender do contexto em que se insira a frase.

Nessa construção, tanto pode ser pronome reflexiva, como em

Após seu tombo, levantou-se Joaquim (ou seja, Joaquim levantou a si mesmo)

como também pode ser partícula apassivadora, como em

Após uma rápida avaliação dos candidatos disponíveis, levantou-se Joaquim (ou seja, o nome de Joaquim foi levantado por outras pessoas)

  • Marcelo, poderias detalhar melhor sua resposta ou adicionar referências à mesma para que fique claro o porquê da construção permitir ambas interpretações? – gmauch Jun 8 '17 at 2:03
  • Perdão pela excessiva brevidade – Marcelo Ventura Jun 8 '17 at 2:18
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    Nos exemplos do Joaquim se pode ser, como dizes, interpretado como partícula apassivadora ou pronome reflexo. Mas não consigo compreender, e tu não explicas, como é que esses ses funcionariam no trecho d'O Cortiço, que é o cerne da questão. – Jacinto Jun 8 '17 at 11:22
  • Acho que a confusão causada aqui é minha culpa, por ter postado duas questões juntas. Em relação a sua resposta, seriam interessantes fontes. – chris Jun 9 '17 at 5:34
  • Uma apostila minha (que não é uma fonte confiável e não prove uma explicação suficiente) resolve a ambiguidade, citada na segunda questão, dizendo que a posição em que o verbo esta é a característica que define, ou seja: Levantou-se Joaquim (partícula apassivadora). Joaquim levantou-se (pronome reflexivo). – chris Jun 9 '17 at 5:37

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