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Segundo os dicionários demão significa:

camada de tinta, cal, etc., que se aplica numa superfície (Infopédia)

É amplamente utilizado no Brasil, segundo o site Ciberdúvidas, é um brasileirismo. Por outro lado, segundo o mesmo site, há dicionários em Portugual que também trazem o significado dessa palavra sem menção ao Brasil. Dessa forma, entendo que é utilizada também em outros países.

Quando essa palavra começou a ser usada? E por uma simplificação de fala, como Vosmicê, por exemplo?

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    Demão não é brasileirismo: é usado com o mesmo significado em Portugal. O que segundo o Ciberdúvidas, ou melhor, segundo o Houaiss, é brasileirismo é mão com o significado de demão. – Jacinto May 18 '17 at 17:42
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Demão vem literalmente de de mão, e mão significa aqui o mesmo que demão. Veja-se por exempo mão no dicionário Morais Silva de 1858 ou no seguinte dicionário de artes de 1875 (grafia original e negrito meu em todas as citações):

MÃO DE TINTA, phrase vulgar, camada de tinta, e diz- se primeira mão ou demão de tinta, segunda, terceira mão ou demão, pôr ou dar a ultima mão ou demão; acabar bem uma obra d'arte, concluil-a com perfeição.
Francisco de Assis Rodrigues, Diccionario Technico e Historico de Pintura... Lisboa, 1875.

E ao longo do século XIX e até mesmo princípio do século XX encontramos demão escrito também separadamente, de mão,

Por exemplo, “dar-se-ha huma de mão de lacca” (Annaes das Sciencias, 1819), “huma de mão d'oleo de linhaça quente” (Francisco Rubião, 1844), “uma de mão de terebentina” (Agricultor Brazileiro, 1853), ou ainda em 1932 na Língua Portugusea, revista de filologia:

«Uma de mão». É a camada de tinta ou de cal, que se aplica, a pincel, nas superfícies a pintar ou caiar; e também a pequena ajuda para se carregar um cântaro à cabeça ou um fardo às costas.

Mão é, mesmo nesta aceção, o termo original e evoluíu já dum significado relacionado do latim manus; tanto que os cognatos castelhano mano (aceção 11, Real Academia Española) e italiano mano (aceção 3, Corriere dela Sera) também significam camada de tinta, verniz, etc. Os falantes de português parecem ter sido os únicos que se lembraram de acrescentar de a mão. A razão por que o fizeram já é debatida há século e meio, sem se ter chegado a uma conclusão definitiva. Dou pormenores mais abaixo, mas vamos primeiro ao latim.

Já se encontra em autores romanos as expressões manus extrema e ultimam manum com o significado de ‘retoque final’. Veja-se este A Latin Dictionary de Charlton T. Lewis e Charles Short (minha tradução do inglês):

B. Acerca da mão do artista: “manus extrema non accessit ejus operibus,” a última mão, o retoque final, Cic. Brut. 33, 126 […] “carmen nondum recepit ultimam manum,” ainda não levou o último polimento, Petr. 118.—Deste modo, extremam bello Imponere manum, pôr a mão finalizante na guerra, fazê-la acabar, Verg. A. 7, 573.

Mão é aqui metonimicamente usado no lugar de ‘trabalho feito pela mão’. Este uso de mão passou ao português, espanhol e italiano, não só na expressão última mão, mas também primeira mão, segunda mão, etc., referindo-se a cada uma das vezes que se começa ou se retoma o trabalho numa obra. Veja-se a aceção 18 no dicionário da Real Academia Española, a 3 do Vocabolario on line Treccani (é melhor fazer Ctr F “fasi do lavoro”) e novamente o Morais Silva de 1858: ou o Thesouro da Lingua Portugueza de Domingos Vieira (1873)

A ultima mão; o ultimo trabalho, aquelle que acaba uma obra.—Dar a ultima mão; aperfeiçoar, acabar.
Dar a segunda mão; retocar a obra.

A aceção ‘aplicação de tinta, cola, gesso, etc.’ é apenas um uso especializado deste sentido mais lato de mão. O Houaiss (Lisboa, 2003) ainda traz este sentido lato de mão—“19 B p.us. cada uma das vezes que se torna a tratar de um assunto ou a fazer algo”—mas restringe-o ao Brasil e diz que é pouco usado. O mesmo sentido lato é atribuído a demão, sem quaiquer restrições; vem também no Aulete e Infopédia

O primeiro exemplo que descobri de mão neste sentido foi uma citação de do artista Francisco de Holanda (1517-85) no dicionário de artes de Francisco Assis Rodrigues:

[…] se posibel for ante q̃ a obra não steja acabada não deve de ser vista de algũa pesoa, mas depois della cõ a strema mão ser acabada então seja ella p.ª a poder ver o mundo todo.

Depois temos “dar a ultima mão a esta obra” (Fr. Bernardo de Brito, 1597) e “dar a ultima mão a hũa imagẽ” (Rafael de Jesus, 1683).

Demão encontra-se quase tão cedo, num relato de Tomé Pinheiro da Veiga (1566/71 – 1656). Ele faz uma descrição maravilhosa duma dama portuguesa, Francisca de Aragão (citação neste livro):

«Cabelos tintos de açafrão e as pestanas de verniz, o rosto de almagra, a garganta de gesso e a boca de cetim, toda a óleo, com uma demão de unto de porco, e outra de manteiga crua… é a mais querida e amada senhora que há na Corte, e mais conhecida e respeitada Dama, que todas.»

No século XIX encontram-se em abundância quer demão quer de mão quer simplesmente mão. Mas ao contrário do que se passava comigo, que não fazia ideia que demão viesse de de mão, o pessoal da altura parecia esta consciente disso. Nos dicionários anteriores ao de Cândido de Figueiredo de 1899 não encontrei um verbete para demão; a palavra aparece no verbete mão. E muita gente escreve separadamente de mão.

Debate sobre o acrescento do de

Encontrei a primeira discussão do assunto numa carta dum leitor à revista Archivo Pittoresco (Lisboa, 1865):

Ultimamente occorreu escrever eu: «O drama está todo traduzido já; só lhe falta a ultima de mão
Notaram-me isto de corruptela do vulgo, e que devia dizer a ultima mão.
É certo que Moraes no Dicc. assim o ensina […]
Mas para evitar o cacófato (mamão) creio que podêmos muito bem inserir a preposição de,, como faz o vulgo, que tambem tem ouvido. E demais conforma-se isto com a doutrina que v. expendeu, de que a eufonia da nossa língua permitte estas e outras similhantes liberdades, no tocante ás particulas que não alteram o sentido da oração. […]
Estudos da Lingua Materna, 77.ª carta”, Archivo Pittoresco, vol 8, nº 44, Lisboa, 1865.

Na revista respondem-lhe que sim, que é uma boa ideia introduzir o de para evitar a cacofonia. Curiosamente sessenta anos mais tarde a mesma questão é colocada exatamente nas mesmas palavras à Revista de Língua Portuguesa (Rio de Janeiro, 1925) (para completar a discussão, excerto 2 mais 3, 4, 6, 7, 8 e 9) A opinião na revista foi que:

[…] não foi para evitar o cacophato que se inseriu a particula — de —entre — uma — e — mão.
E não o foi, porque a expressão — de mão — se usa em primeira de mão, segunda de mão, etc. — em que não existe o tal mamão
[…] Considerar o vocabulo — de — como particula de realce ou expletiva, á semelhança das construções conhecidas — pobre do homem: triste do menino; deu-lhe o nome de Pedro; feliz de quem morre.
Penso que a melhor explicação será a que considera — de — como particula de realce, principalmente porque se verifica com este vocabulo na frase — dar uma de mão — o que acontece geralmente com as particulas de realce : podem ser tiradas da oração sem que o sentido se altere e por fim permanecem na lingua crystallizadas e somente empregadas em certas frases com um sentido determinado e unico.
Revista de Língua Portuguesa, vol. 6, Rio de Janeiro, 1925, p. 71 e 72.

Não me parece o argumento válido: o de poderia ter sido introduzido para desfazer o cacófano nas expressões uma mão e última mão, e mais tarde passar a usar-se também em segunda, terceira mão. Mas a ideia de de ser partícula de realce não me parece menos meritória, e as duas ideias não são incompatíveis.

Por sua vez, José Joaquim Nunes (1859 – 1932) diz em Digressões Lexicológicas (citado em [Antenor Nascentes, Dicionário Etimológico da Língua Portuguêsa, Rio de Janeiro, 1955]):

A preposição de, que se juntou a mão formando uma palavra só, entrou aqui provavelmente como na locução popular última da hora.

Isto não adianto muito por aí além, porque não sabemos como é que o da entrou na expressão última hora. No entanto isto sugere-me uma ideia. É a minha contribuição pessoal para o debate.

Eu uso a expressão última da hora (e não última hora), mas ao contrário do caso de demão estou consciente da preposição. E ela leva-me a interpretar a exprssão última da hora como ‘fim da hora’, em que hora é aqui intepretado com período de tempo e não momento exato (como em “vou lá durante a hora do almoço”). É como se houvesse um certo período durante o qual a pessoa pudesse chegar, por exemplo, e ela chaga mesmo no fim, à última da hora. É como se houvesse uma entidade feminina [?] implícita na expressão: última [?] da hora. O facto de todos os substantivo que eu podesse introduzir ali serem masculinos—minuto, segundo, instante, momnento—não me impede que eu sinta a expressão desse modo.

Ora há uma porção de expressões na nossa língua em que parece haver uma tal entidade feminina [?] implícita:

Eles estão numa [?] boa.
Estou numa [?] de ir hoje jantar fora.
Essa [?] é boa!
Ora essa [?]!
Agora é que arranjaste a [?] bonita.
Chegou à última [?] da hora.
Essa parede precisa de mais uma [?] de mão.

No caso de dar uma [?] mão até poderíamos supôr dar uma passagem de mão, mas acho pouco provável que alguém tenha dito isso. Parece-me me mais plausível que dar uma de mão fizesse sentido, estando o locutor consciente do de, tal como as outras expressões acima fazem sentido para quem as diz.

Note-se que dar uma mão (Aulete) também significa ‘ajudar’, o que se compreende lindamente. Ora no passado também aqui se acrescentou um de, dizendo-se dar uma de mão, tal como já poderão ter reparado nalgumas das minhas citações, como a da Língua Portugusea, revista de filologia (1932), que eu repito aqui:

«Uma de mão». É a camada de tinta ou de cal, que se aplica, a pincel, nas superfícies a pintar ou caiar; e também a pequena ajuda para se carregar um cântaro à cabeça ou um fardo às costas.

Aqui ainda a ideia da tal entidade me parece mais convincene: “dá-me aqui uma [?] de mão com esta fardo”. Também este uso é antigo, e não foi só para ajudar a pôr um cântaro à cabeça ou um fardo às costas que se usou dar uma de mão. Aqui temos o Padre António Vieira em 1652:

Demos huma de mão aos Berlanguches, já que lha promettemos; e eles naõ querem, que lhes faltemos com o promettido.
Padre António Vieira, Arte de Furtar, Espelho de Enganos, Theatro de Verdades, Mostrador de Horas Minguadas, Amesterdão, 1652.

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