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No Brasil (não sei se em Portugal também) a expressão "custar o(s) olho(s) da cara" é usada para dizer que algo custa muito dinheiro. Exemplo:

—Por que você não comprou aquela TV?

—Porque estava custando os olhos da cara. (o preço estava muito alto)

Eu escuto a expressão tanto no singular ("o olho") quanto no plural ("os olhos"), sempre com o mesmo significado.

Pesquisei sobre a origem e só encontrei aqueles artigos pouco confiáveis (sem fonte, baseados em nada), dizendo que há várias possibilidades:

  • um consquistador espanhol perdeu o olho em um conflito com os Incas e afirmou que defender a Coroa Espanhola lhe custou um olho da cara
  • povos da Antiguidade tinham a tradição de arrancar os olhos dos prisioneiros de guerra
  • lenda obrigatória envolvendo a Grécia antiga

Entre outros. Nenhum dos sites cita fontes, então qual é a origem desta expressão?

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    Também se diz em Portugal. Se o Diego Almagro disse isso, de certeza não foi perante o Imperador Carlos V (o artigo diz que foi): ele viajou para o Novo Mundo em 1514 e por lá ficou até morrer. A etimologia popular é muito criativa :) – Jacinto May 11 '17 at 20:34
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    Essa expressão é de origem francesa, eu acho: couter les yeux de la tête. Dizem que começou no século XiX no sites franceses, com escritores como o Balzac. – Lambie May 11 '17 at 21:00
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    A expressão faz sentido: a visão é um sentido essencial, muito caro a todos nós, e aquele que a perde fica dependente de outras pessoas para quase tudo. Mas... não seria um pleonasmo? Afinal, temos outros olhos que não os da cara? – Centaurus May 11 '17 at 23:34
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    @Centaurus Bem, existe o chamado "terceiro olho"... – user1798 May 11 '17 at 23:35
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    Hugo, já que ele foi citado, acho que em muitas situações a expressão "custou-me o terceiro olho" até poderia ser usada, em sentido figurado, é claro. – Centaurus May 11 '17 at 23:44
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A expressão existe em várias línguas, mas a sua origem parece ser ibérica. Encontro exemplos em português desde 1560 e em castelhano desde 1528 (“hame costado los ojos de la cara”; CORDES¹); em italiano apenas a partir de 1780 (“costare gli occhi della testa”), e em francês a partir de 1842 (“coûter les yeux de la tête”). Encontra-se cerca do ano de 1140 “perdieré los averes mas los ojos de la cara e aun demás los cuerpos e las almas” (conforme o original no CORDES e texto em espanhol moderno) mas não é claro se o sentido é aqui literal ou figurado.

O primeiro exemplo que encontrei em português é de Jorge Ferreira de Vasconcellos, Comédia Eufrosina, 1560 (Ato 5, cena 8, p. 309; facsimile do original e grafia atual por baixo):

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(Porque também se o mandar matar, ele não tem que perder, e eu perco-me e custar-me-á a cavalgada os olhos da cara.)

Custar os olhos da cara é uma metáfora perfeitamente transparente. A indústria da etimologia popular gosta de explicações assentes em episódios ou práticas particulares. Poderão até ter existido vários episódios e práticas ao longo do tempo, mas um fator essencial e suficiente para a origem e popularidade da expressão é facto de os olhos serem algo muito precioso. Encontramos aliás no passado olhos da cara como metáfora para ‘valor elevado’ numa variedade contextos, não só na expressão custar os olhos da cara. Ainda na Comédia Eufrosina de 1560 (Ato 4, cena 8, p. 252) é-nos dito que não queiramos ser amigos das alcoviteiras, porque se lhe dermos a mão, elas vão querer o braço:

elas tem por lei o provérbio, Quem dá e não dá sempre, quanto dá tanto perde. Que lhe tenhais dado os olhos da cara, tanto sentem a bolsa seca, morto é o afilhado, porque tínhamos o compradado.

Bento Pereira regista em 1697 o adágio deve os olhos da cara (Corpus do Português). Em castelhano encontro ainda mais e mais variados exemplos, logo a partir de 1511:

y por mantener mi honor y fama reservo la parte por ti más deseada, la qual te será guardada como los ojos de la cara
(Anónimo, Traducción de Tirante el Bçanco de Joanot Martorell, 1511; CORDES.¹)

iuían en tan gran asosiego & en tan gran paz que non tomaua vn ome armas contra otro nin las osaría tomar por los ojos de la cara, ca el rey era mucho ardid & muy atreuido en armas, & tan justiciero que tan abondada fue la justicia que […]
(Anónimo, Crónica Popular del Cid, 1512; CORDES.¹)

Finalmente há a questão de porquê olhos da cara e não simplesmente olhos. Encontro no passado olhos na cara numa variedade de contextos, não apenas para exprimir figuradamente ‘valor elevado’. Muitas vezes é por oposição a “olhos” do entendimento, alma, coração, etc., como em Padre João Pereira, Exhortaçoens Domesticas Feytas no Collegios, e Cazas da Companhia de Jesus, de Portugal, & Brasil, Coimbra, 1715:

Santa Luzia tirando os olhos, naõ ficou sem elles ; porque naõ via cõ os olhos da cara; via com os olhos do entendimento

Mas noutros exemplos não é por oposição a nada, como neste exemplo em castelhano, no Poema de Mio Cid de cerca de 1140:

[...] besóle la boca e los ojos de la cara.

Ou este outro de Camilo de Castelo Branco, Cenas da Foz, originalmente publicado em 1857:

D. Vicência era vistosa e farfalhuda. Meneavase trejeitando com tamanha volúpia, que eram pouco os dois olhos da cara para a verem!

Parece que olhos da cara é de há muito uma frase feita. Pode ser que da cara seja acrescentado simplesmente por uma questão de prosódia e ênfase; para ajudar o ouvinte a formar uma imagem mais viva na sua imaginação. Parece ser comum neste tipo de expressões acrescentar elementos superficialmente redundantes, mas que poderão ter este efeito de avivar a imagem: a Infopédia regista, com o mesmo significado de custar os olhos da cara, custar os dentes da boca (não temos outros; atestado já em 1759 nas Infermidades da lingua); também dizemos ver com estes olhos que a terra há de comer e pagar com o suor do seu rosto (seu suor seria suficiente).


¹ REAL ACADEMIA ESPAÑOLA: Banco de datos (CORDE) [em linha]. Corpus diacrónico del español. Consultas em 12-5-2017. Para ver o texto, na página do CORDES, ao fundo, clicar em “recuperar”, e na página seguinte clicar no texto em azul para ver o texto envolvente.

  • Bem interessante. Parece que em português antigo o pronome oblíquo em ênclise era escrito da mesma forma que no espanhol moderno: "eu percome" – Centaurus May 13 '17 at 16:58
  • @Centaurus, é verdade. Nunca vi tracinhos em textos desses tempos. Mas creio que já vi coisas como custar hia – Jacinto May 14 '17 at 21:26

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