6

Estava eu a almoçar e ouço a seguinte conversa:

—Compra esse tacho e experimenta, se for bom eu depois compro também. Ou queres para eu comprar?

Isto no sentido de Ou queres que eu compre? [E experimento eu.]. De referir que o falante é de São Tomé e Príncipe.

14
  • Em Angola, a expressão "queres para eu comprar?" está correcta.
    – An. Jorge
    Feb 3 '17 at 15:26
  • Eu não sei se é gramatical ou não, mas tenho amigos nordestinos (brasileiros) que falam algo semelhante: "quer para eu comprar?" (o uso da 2ª pessoa não é comum por estas bandas)
    – Ramon Melo
    Feb 3 '17 at 16:26
  • Não é gramatical em português Ibérico ou brasileiro "normal". São Tomé e Príncipe é como Cabe Verde e os Açores, nessas ilhas se falam dialetos do português e também existe o nível de escolaridade do falante. Neste caso, me parece que poderia ser o nível de escolaridade. Comparando com o resto do trecho, acho que dar para julgá-lo assim.
    – Lambie
    Feb 3 '17 at 18:01
  • 1
    Parecia mas nao estava. O verbo querer está conjugado na primeira pessoa do singular, formando um predicado válido. Dando uma segunda olhada se calhar até diria que é uma frase válida, por isso é mesmo melhor que alguém de uma resposta que nao eu. Feb 3 '17 at 19:52
  • 1
    Gente, não sendo falante nativo eu estou interessado nessa pergunta mas ainda não tenho claro. Eu só posso dizer que eu entendi a expressão sem precisar explicação e a verdade é que soa natural, paralela à estrutura de (por exemplo) Ela disse para eu comprar. Fora isso, se os falantes usam uma forma de discurso consistentemente, então a forma é gramatical, não é?
    – pablodf76
    Feb 6 '17 at 14:44
5

A frase não é gramatical na língua padrão em Portugal e pelos vistos no Brasil também não. De acordo com a Gramática do Português da Gulbenkian (Lisboa, 2013, vol. II, p. 1927-34), existem vários verbos que admitem complementos diretos oracionais infinitivos (como o da frase em questão), mas introduzidos por para, só mesmo os verbos diretivos, como dizer, implorar, insistir e pedir; nesse caso o infinitivo é flexionado. Exemplos meus:

Ele pede para eu comprar um tacho? [= que eu come um tacho.]

Ela disse para tu comprares um tacho. [= que tu compres um tacho.]

Os verbos dizer, pedir e querer pedem um complemento direto: dizer/pedir/querer algo. Nestes exemplos o complemento direto, a itálico, é uma oração com o verbo no infinitivo; daí a Gramática lhe chamar “complemento direto oracional infinitivo”.

O verbo querer admite complemento direto oracional infinitivo (não flexionado), mas não introduzido por para, como em (exemplos da Gramática, p. 1933-4):

(93) a. Os professores querem/desejam negociar um salário melhor.

[…]

(94) a. O cozinheiro quer ser ele a decorar a travessa.

A Gramatica do Português é uma gramática descritiva baseada primeiramente no português europeu. É fácil de ver que estas conclusões se aplicam também à língua escrita no Brasil. Procurei no Corpus do Português e encontro na literatura e imprensa brasileiras, tal como nas portuguesas, exemplos destes complementos diretos oracionais infinitivos introduzidos por para com verbos diretivos; nas não encontrei nem um com querer. (Procurei “[querer] para eu”, que busca todas as flexões de querer, e repeti com tu, ele, você, etc.) Agora, isto não elimina a possibilidade de esta estrutura com querer ser aceitável, pelo menos coloquialmente, em São Tomé ou outros países.

0

Só seria aceitável se o significado fosse: Queres o tacho que eu pago? De outra forma o correto no contexto seria "Queres que compre para experimentar?"

Your Answer

By clicking “Post Your Answer”, you agree to our terms of service, privacy policy and cookie policy

Not the answer you're looking for? Browse other questions tagged or ask your own question.