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Aprendi na escola que o tempo verbal imperativo não é conjugado nas primeiras pessoas do singular e do plural. Gramáticos atuais também tem questionado o uso da terceira pessoa do plural. Apesar disso tudo, é comum nos depararmos com o uso do imperativo na primeira pessoa, tanto do singular quanto do plural, e também na terceira pessoa do plural. Vejamos abaixo (humm, esse vejamos é imperativo?) alguns exemplos:

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente, 
Repousa lá no Céu eternamente,   
E viva eu cá na terra sempre triste.                 Luís de Camões

"Alma minha", embora sendo um belo cacófato, é explicado pelos nossos professores como sendo "permissão poética" ou seja, Camões pode, mas eu não. Mais abaixo é que vemos o uso do imperativo na primeira pessoa em "E viva eu cá na terra"

Um outro exemplo do imperativo usado na primeira pessoa, agora do plural, é:

  • "Larguemos as armas e vamos discutir com calma"

e a terceira pessoa do plural, por exemplo,

  • "Fiquem eles de guarda na entrada"

Resumindo a pergunta: de acordo com as normas cultas vigentes em 2017, em quais pessoas podemos conjugar o imperativo afirmativo?

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    Nunca existiu imperativo na primeira pessoa do singular. – Lambie Jan 8 '17 at 19:04
  • 1
    e eu viva é subjuntivo. Não é imperativo... – Lambie Jan 8 '17 at 19:11
  • @Lambie O "viva eu" usado por Camões é considerado uma forma de optativo. O poeta estava exprimindo um optativo, não um desejo. Uma condição forçada, necessária, já que ninguém ordenar ou exortar imperativamente a si próprio. Nesse caso, "viva eu" não é exatamente a mesma coisa que "que eu viva". – Centaurus Jan 8 '17 at 19:56
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Todas os exemplos da pergunta são frases válidas, mas dois deles—“e viva eu cá na terra…” e “fiquem eles de guarda…”—são exemplos do subjuntivo/conjuntivo independente, não do imperativo. O imperativo não existe na primeira pessoa do singular (viva eu não é imperativo), e nas terceiras pessoas existe apenas com pronomes de tratamento—você aí, venha cá; vocês aí, venham cá.

Imperativo

Vejamos uma coisa de cada vez. Como observa a Nova Gramática do Português Contemporâneo de Celso Cunha e Lindley Cintra (2014, p. 597):

Quando empregamos o IMPERATIVO, em geral, temos o intuito de exortar o nosso interlocutor a cumprir a ação indicada pelo verbo.

E ainda segundo a Nova Gramática (p. 596), o imperativo existe em todas as pessoas exceto a 1ª do singular (negrito meu):

2. Como no IMPERATIVO o indivíduo que fala se dirige a um interlocutor, só admite este modo as pessoas que indicam aquele a quem se fala:

a) as 2.as pessoas do singular e do plural;

b) as 3.as pessoas do singular e do plural, quando o sujeito é expresso por pronome de tratamento, como você, o senhor, Vossa Senhoria, etc.;

c) a 1.ª pessoa do plural, que no caso denota estar o indivíduo que fala disposto a associar-se ao cumprimento da ordem, conselho ou súplica que dirige a outros.

Nos exemplos “viva eu cá na terra” e “fiquem eles de guarda” os sujeitos—“eu” e “eles”—não indicam a pessoa a quem se fala, logo não são imperativo. Eis exemplos para todas as pessoas admissíveis. Em todos os casos o verbo esperar exprime uma exortação direta—que o interlocutor espere:

2ª pessoa do singular: Espera, que ele já vem falar contigo.
3ª pessoa do singular: Espere, que ele já vem falar com você/ o senhor.
1ª pessoa do plural: Esperemos, que ele já vem falar connosco.
2ª pessoa do plural: Esperai, que ele já vem falar convosco (pouco usado).
3ª pessoa do plural: Esperem, que ele já vem falar com vocês/os senhores.

Na primeira pessoa, o imperativo não existe. Uma pessoa pode fazer exortações diretas a si mesma, mas nesse caso usa a 2ª ou 3ª pessoa do singular—a que preferir usar como tratamento de intimidade—ou ainda a 1ª pessoa do plural:

Digo eu: Jacinto, despacha lá esta resposta.

Returco eu: Calma Jacinto, vamos lá a ter calma


Conjuntivo/Subjuntivo

A confusão entre o imperativo e o presente do subjuntivo/conjuntivo decorre de na primeira e terceiras pessoas as formas do verbo serem iguais nos dois modos—originalmente o imperativo existia apenas na 2ª pessoa; as formas restantes vieram por empréstimo do presente do subjuntivo—e de o conjuntivo também ser usado para exprimir desejos e ordens. Mas diferentemente do imperativo, o conjuntivo não exprime uma ordem direta ao interlocutor. Quando digo “fiquem eles de guarda” não estou a dirigir-me a “eles” nem estou a ordenar ao meu interlocutor que fique de guarda. Vejamos o que diz a Nova Gramática (p. 584):

Conjuntivo independente

Empregado em orações absolutas, em orações coordenadas ou em orações principais, o CONJUNTIVO pode exprimir, além das noções imperativas que examinaremos adiante:

a) um desejo, um anelo:

Chovam hinos de glória na sua alma! (Antero de Quental, [Sonetos Completos, 1890,] 35.)

Que as horas voltem sempre, as mesmas horas! (Augusto Meyer, [Poesias, 1957,] 254.)

b) uma hipótese, uma concessão:

Seja a minha agonia uma centelha
De glória!... (Olavo Bilac, [Tarde, 1919], 197.)

Que a tua música
seja o ritmo de uma conquista!
E que o teu ritmo
seja a cadência de uma vida nova!
(Francisco José Tenreiro, [Obra Poética, 1967], 62.)

[…]

d) uma ordem, uma proibição (na 3.ª pessoa):

Que levem tudo no caixão: A alma e o suporte! (Miguel Torga, [Cântico do Homem, 1954], 31.)

Que não se apague este lume! (Augusto Meyer, [Poesias, 1957], 126.)

Os exemplos “fiquem eles de guarda” e “viva eu cá na terra” são formalmente do tipo do Olavo Bilac acima—“seja a minha agonia”—ou seja é do tipo conjuntivo + sujeito, dispensando o que que frequentemente antecede o conjuntivo.

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  • Muito informativa a tua resposta. Mas o meu comentário de que não se usa o imperativo na terceira pessoa do plural refere-se a "de quem se fala" e não a "vocês" ou "vossas excelências". O que me dizes de "Fiquem eles de guarda na entrada"? Em tempo: "as frases seguinte(s)" é um "typo" ou é assim em pt-PT? Também "das silva" – Centaurus Jan 8 '17 at 17:55
  • /Que fiquem de guarda na entrada/ ou /Fiquem de guarda na entrada/ E não: fiquem eles. – Lambie Jan 8 '17 at 19:09
  • @Lambie Podemos sim dizer "fiquem eles de guarda na entrada". "Não, vocês já trabalharam bastante. Figuem eles agora." – Centaurus Jan 8 '17 at 19:52
  • @Centaurus Tinha-me passado o teu exemplo do "fiquem eles de guarda". Já tratei isso. – Jacinto Jan 8 '17 at 20:47
  • @Centaurus O Houaiss indica o imperativo só para as segundas pessoas e 1ª do plural, mas na tabela deles 2ª pessoa é tu, vós e pronomes de tratamento. Ou seja por segunda pessoa eles querem dizer 'segunda pessoa do discurso', que inclui a 2ª pessoa gramatical e os pronomes de tratamento, que são 3ª gramatical. Talvez os tais gramáticos que referes que excluem a 3ª pessoa do imperativo se refiram à 3ª pessoa do discurso (ele, ela, etc.)? – Jacinto Jan 11 '17 at 8:32

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