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Algumas vezes quem diz "sinto muito" realmente lamenta alguma coisa. Na maioria das vezes, contudo, tanto quem fala quanto o seu interlocutor sabem que ninguém lamenta coisa alguma, e usa "sinto muito" com o significado de "desculpe-me" que, por sua vez, também não é um pedido de desculpas. Exemplos:

  • "Sinto muito, mas a senhora vai ter que acatar nossa decisão."
  • "Sinto muito, mas o senhor não pode entrar por essa porta."
  • "Não gostou? Sinto muito, mas é o que temos."
  • "Sinto muito, João, mas tu tens que tirar o teu carro da frente do meu portão."
  • "Sinto muito, mas o seu carro não está pronto."
  • "Sinto muito, mas você mereceu."

Como classificar esse uso de "sinto muito"? Uma figura de linguagem? Qual?

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Eu não classificaria este uso como figurativo, a não ser que o emissor esteja usando uma ironia:

Sinto muito ter incomodado você com minha beleza e inteligência, mas nem todos conseguem ser insignificantes.

Nos exemplos que você citou, eu não vejo o emprego desta expressão como linguagem figurada, mas como linguagem literal mesmo. O sentido que o emissor quis dar à expressão corresponde ao literal da mesma expressão.

O que talvez esteja lhe trazendo confusão seja o uso comum de uma expressão de desculpas quando o emissor não sente, de fato, arrependimento. Neste caso, o uso desta expressão representa um desvio ético (no sentido filosófico), mas não denotativo ao significado de sinto muito. O autor utiliza a expressão pelo seu valor político na resolução de conflitos, mesmo que ela não corresponda ao sentimento real do mesmo, para (dis)simular empatia pelo destinatário da mensagem:

"Sinto muito, mas a senhora vai ter que acatar nossa decisão."

  • Sinto muito pelo incômodo que isto possa vir a lhe causar. Apesar disto, a senhora vai ter que acatar nossa decisão.

"Sinto muito, João, mas tu tens que tirar o teu carro da frente do meu portão."

  • Sinto muito que não haja outra possibilidade que não dependa de você, João, mas eu quero sair e o seu carro está me impedindo.

"Sinto muito, mas você mereceu."

  • Sinto muito que você só tenha sido capaz de aprender da forma mais difícil, mas isto não desfaz os danos que você causou, e agora você está sendo punido por isto.

Enquanto expressão idiomática, sinto muito é comum porque o emissor não admite responsabilidade sobre o infortúnio, exime-se da necessidade de conceder explicações, e não pode ser provado do contrário (mesmo que o interlocutor saiba ser mentira, ele não dispõe dos meios para prová-la).

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  • Em vários dos exemplos parece-me que "sinto muito" é usado pro forma. Creio que isso faz tambbém parde de "O autor utiliza a expressão pelo seu valor político na resolução de conflitos..." ? – Jacinto Dec 27 '16 at 16:51
  • Os exemplos que dei são aqueles em que a pessoa nada sente. Em "Não gostou? Sinto muito, mas é o que temos", o locutor não sente nada. O sinto muito é até irônico. – Centaurus Dec 27 '16 at 16:57
  • Não sendo uma figura de linguagem, seria uma figura de retórica? – Centaurus Dec 27 '16 at 17:31
  • @Jacinto Acredito que sim. Varia de personalidade para personalidade, mas me parece mais fácil emitir uma mensagem considerada desagradável para o interlocutor quando se começa com sinto muito. – Ramon Melo Dec 28 '16 at 12:37
  • @Centaurus É possível que seja irônico, mas também é possível que o emissor preferisse não estar na posição de ter de dizer "é o que temos". A diferença aqui estaria mais na questão mentira x linguagem figurada. Embora o autor da fala realmente não sinta nada, a mensagem que ele quer passar é a de que sente? Se sim, não entendo como uma figura de linguagem. Eu não saberia dizer se é uma figura de retórica, porque, a princípio, não me parece uma questão relacionada à linguagem, mas à ética (no sentido filosófico). – Ramon Melo Dec 28 '16 at 12:49

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