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Aqui há uns tempos pus-me a traduzir por brincadeira um epigrama em versos decassílabos dum conto do Kipling, e deixei uns versos pendurados por causa da métrica.

Eu quero que cada verso tenha dez sílabas métricas, e as minhas dúvidas estão nos versos abaixo. O (c) é só uma alternativa ao (b). Cada um dos trechos a negrito são uma ou duas sílabas? Ou existe alguma flexibilidade, e podem ser uma ou duas conforme a conveniência?

(a) Vi o ocaso antes de os outros verem dia,
(b) Eu que sei a mais do que devia ignorar.

(c) Sábio a mais no que devia ignorar.

Deixo aqui as minhas reflexões. Em (a) eu acho que praticamente pronuncio o vio o o como um tritongo /viwɔ/. Mas isto é uma, duas sílabas, ou há flexibilidade?

Em (b), se fosse via seguida de consonante, creio que a norma é contarem-se duas sílabas. Mas com via ig eu não pronuncio o a, e aquilo fica simplesmente um i arrastado ou talvez dois ii separados por um hiato quase impercetível. Novamente é uma ou duas sílabas?

No (c) inclino-me mais para o bio a ser só uma sílaba. Mas digam de vossa justiça.

Se quiserem ver, o original está aqui. E se quiserem ver como é que o Camões fazia, têm aqui Os Lusíadas que é todo em versos decassílabos.

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  • falta uma palavra: "cada um [dos?] trechos"
    – ANeves
    Dec 2 '16 at 3:47
  • 2
    Não podem ser três sílabas métricas, também? Pessoalmente, parece-me que mais facilmente vejo 3 sílabas do que 1.
    – ANeves
    Dec 2 '16 at 3:48
  • 1
    @ANeves Em nenhum dos casos tens três sílabas métricas. Se tu ali contas três, quantas sílabas métricas contas em "A Fé, o Império, e as terras viciosas". A resposta certa é dez; é dos Lusíadas. Parece-me que Império e as forma uma única sílaba.
    – Jacinto
    Dec 2 '16 at 18:37
  • Nao podia ser: A Fé, o Im pé rio.e.as ter ras vi cio (sas). Vi.o.o ca so an tes de.os ou tros ve rem (dia)? Dec 7 '16 at 14:16
  • @Bruno Se compreendo bem a tua divisão silábica, no verso do Camões tens 11 ou 12 sílabas, o que não pode ser: Os Lusíadas são em versos de 10 sílabas. E eu acho que é vi.ci.o.sas, mas não tenho a certeza. Em império e as o e não forma sílaba sozinho: no mínimo junta-se com as. No meu verso, não podes excluir dia, porque dia é tónico.
    – Jacinto
    Dec 7 '16 at 14:28
4

A wikipedia explica como se deve proceder á contagem das silabas métricas.

Em suma ela é igual á divisão silábica, com algumas regras especiais.

No artigo pode encontrar as 3 regras aplicadas:

  1. Não se contam as sílabas poéticas que estejam após a última sílaba tônica do verso
  2. Ditongos têm valor de uma só sílaba poética.
  3. Duas ou mais vogais, átonas ou até mesmo tônicas, podem fundir-se entre uma palavra e outra, formando uma só sílaba poética.

Um problema que eu vi na pergunta do Jacinto é que ele não referiu qualquer problema de contagem em "caso antes" nem em "de os outros".

A divisão silábica métrica é respetivamente "ca so.an tes" e "de.os tros". (Eu denotei com "." a junção de duas silabas numa silaba métrica).

O verso "Vi o ocaso antes de os outros verem dia" seria dividido da seguinte forma:

"Vi.o.o(1) ca(2) so.an(3) tes(4) de.os(5) ou(6) tros(7) ve(8) rem(9) dia(10)"

O mesmo pode ser dito em relação a "devia ignorar" é aplicada a 3a regra. Até certo pode pode ser até equiparada á situação de "caso antes".

"de via.ig no rar"

Nestas situacoes o mais estranho parece ser estarem consoantes envolvidas no processo de separação... Mas são tão validos como em "de os"

Encontrei uma ferramenta online para fazer a separação de silabas métricas, para referencia futura.

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  • Então ótimo: é só uma sílaba como eu queria. Se bem que como um separador automático uma pessoa fica um bocado na dúvida. O meu problema com vi o ocaso é que embora o primeiro o de ocaso seja átono, tem timbre aberto, o que faz sobressair mais. Não mencionei o ocaso antes e de os, porque aí tinha a certeza que aquilo se juntava tudo numa só sílaba métrica. Já agora, podes incluir uma nota sobre o devia ignorar.
    – Jacinto
    Dec 7 '16 at 15:40
  • @Jacinto Editei Dec 7 '16 at 16:04
1

Até é possível dividir vio o o em uma sílaba somente, mas não sem tornar o verso duro, na minha opinião. Como diz Miguel do Couto Guerreiro no seu Tratado de versificação portuguesa:

"Se a vogal precedente se alongar,
Não tem a sinalefa então lugar."

Não vejo outra possibilidade, segundo as regras da boa poesia, a não ser dividir o seu primeiro verso como

Vi oo ca soan tes deos u tros ve rem dia

Veja estes exemplos retirados de Nicolau Tolentino e Alvarenga Peixoto, respectivamente:

"Eu vi a Márcia bela, vi Cupido,
Com arcos, setas e cruel aljava."

"Eu vi a linda Jônia e, namorado,
Fiz logo eterno voto de querê-la."

Note como não se faz sinalefa com o "i" de "vi" para o artigo que se lhe segue.

Escandiria b) do seguinte modo:

Eu que sei a mais do que de vi aig no rar

Ou ainda

Eu que sei a mais do que de vi a ig no rar

Embora o primeiro jeito me agrade mais.

Quanto a c), também separaria bio a numa só sílaba. A escansão em duas sílabas é possível, mas isso resultaria num verso frouxo.

"Frouxo será o verso quando, para chegar à medida, for necessário deixar hiatos, isto é, quando se não absorver uma vogal que devera sumir-se noutra".

Antonio Feliciano de Castilho, Tratado de metrificação portugueza.

E, para finalizar, deixo aqui uma tentativa de tradução desses versos, para caso lhe seja útil:

Antes que o dia vissem, vi o ocaso,
Sábio demais no que ignorar devera.

@edit

Tradução em oitava rima:

Colhi autúnea messe antes de Abril,
E os campos me dourou precoce grão;
O ano, a meu pesar, me descobriu
Mistérios que cerrou do Fado a mão;
Num místico senoide se imergiu,
Exânime e sem flor, cada estação:
Vi antes d'alva o declinar do dia,
Sábio demais no que ignorar devia.

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  • Muito obrigado. Também prefiro "sábio demais" a "sábio a mais", mas terminar em "devera" arruína-me a rima. Os meus versos anteriores são "O ano abriu seus segredos pra meu azar. / Deflorada, cada estação jazia, / Num mistério de viço e da agonia". Podia pôr "ignorar devia" e passava a rimar em "-ia"; ficava era um "-ar" sem rimar com nada. A terminação em "ocaso" também não rima. Uma solução é "os mais" em vez de "os outros"; não é tão imediatamente compreensível.
    – Jacinto
    Jun 12 '18 at 17:43
  • Como você dividiu o verso "O ano abriu seus segredos pra meu azar"? Eu contei onze sílabas aqui. O verso seguinte tem a medida certa, porém as sílabas tônicas não estão nas posições corretas (veja [este link][1]). Minha sugestão: Sem fruto ou flor, cada estação jazia. Voltando a a), sem mudar a consoante, outra possibilidade seria: Vi antes d'alva o declinar do dia. [1]: pt.wikipedia.org/wiki/Verso_decass%C3%ADlabo
    – Sasaki
    Jun 12 '18 at 20:40
  • Não consegui traduzir o poema usando o esquema de rimas que você escolheu, mas adicionei ao final da minha resposta uma versão em oitava rima. Não leio muita poesia em inglês, então fiz com base no que eu entendi dos versos de Kipling...
    – Sasaki
    Jun 12 '18 at 20:54
  • Dividi "o a.no a.briu . seus . se.gre.dos . pra . meu a.zar". Fiz provavlemente um sinalefa que tu não fazes. Eu mantive a rima do original: aabcccb.
    – Jacinto
    Jun 13 '18 at 8:15

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