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Eu gostaria de tirar uma dúvida sobre a regência do verbo lembrar (Priberam) no sentido suscitar a lembrança de alguém.

Salvo engano, são corretas as frases 1 e 2.

  1. Lembrei ao João o seu dever. (Lembrei-lhe o seu dever.)

  2. Lembrei ao João que tinha um dever. (Lembrei-lhe que tinha um dever.)

Mas são corretas também as frases 3 e 4?

  1. Lembrei o João do seu dever. (Lembrei-o do seu dever.)

  2. Lembrei o João de que tinha um dever. (Lembrei-o de que tinha um dever.)

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Todas as tuas frases estão corretas. Se vires lembrar no Aulete encontrarás exemplos análogos. O sentido em que usas lembrar (Priberam 1) divide-se no Aulete entre os sentidos 2 e 3 (as letras entre colchetes itálicos, [a], [b], etc. são adições minhas para referenciar os exemplos):

3. Advertir, avisar, prevenir [tdi. + a, de : [a] O juiz lembrou ao jogador que na próxima falta seria expulso] [tdr. + de : [b] Lembrou o empregado de suas obrigações]

4. Mencionar (algo) a (alguém), para que não seja esquecido [tdi. + a : [c] Lembrou ao marido que a conta de luz tinha que ser paga] [tdr. + de : [d] Lembrei-o do documento que tinha que assinar.]

O teu exemplo (2) é análogo aos exemplos [a] e [c]. O teu exemplo (3) é análogo a [b] e [d]. O dicionário Houaiss (Lisboa, 2003) tem um exmplo análogo a (1) — «lembrou ao amigo a antiga promessa» — e o dicinário da Academia das Ciências de Lisboa, um análogo a (4) — «lembrou o irmão de que lhe devia dinheiro».

De qualquer modo, do ponto de vista do uso de lembrar, não há diferença entre os exemplos (1) e (2) ou entre (3) e (4). Em (1) tens uma única oração com um complemento direto, o seu dever; em (2) em vez do complemento direto tens uma oração subordinada substantiva objetiva direta — que tinha um dever — que desempenha o papel de complemento direto de lembrar. Em (3) e (4) é a mesma coisa, mas aí é complemento indireto e oração subordinada substantiva objetiva indireta. Para mais sobre este tipo de relação entre frases vê esta resposta.

Para uma discussão mais completa dos vários significados de lembrar, comparando com recordar, vê esta pergunta.

  • Muito obrigado, @Jacinto. Pelo que eu entendi, "Lembrei ao João o seu dever" é gramaticalmente certo, mas não faz muito sentido, porque não parece um aviso, certo? – Akitirija Aug 16 '16 at 20:35
  • Tu quiseste dizer "mas aí é complemento INdireto", né? Só para eu não criar mais confusão hehe. – Akitirija Aug 16 '16 at 20:47
  • 1
    @Akitirija Faz sentido. O que permite distinguir entre os dois sentidos do Aulete, aviso e prevenir esquecimento, é o contexto. Compara: «lembrei ao João o seu dever, porque ele já estava esquecido» e «lembrei ao João o seu dever, porque ele já se estava a preparar para o não cumprir». – Jacinto Aug 16 '16 at 20:48
  • @Akitirija Exatamente. Vou corrigir. – Jacinto Aug 16 '16 at 20:48
  • 1
    @Akitirija Ainda reltivamente ao sentido, repara que os dois sentidos do aulete permitem as duas construções: lembrar a alguém qualquer coisa e lembra alguém de qualquer coisa. – Jacinto Aug 16 '16 at 21:05

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