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O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 diz que a letra "G" pode ser chamado "gê" ou "guê".

Penso que diferenças deste tipo têm tendencia variar de acordo com a região do falador. Mas tudo que posso encontrar sobre o nome desta letra é que ambos os nomes são aceitaveis.

Existe ou não variação entre "gê" e "guê" que depende na região?

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    Pelo menos no Brasil, várias letras podem ter nome diferente dependendo da região. Sei que no nordeste do Brasil dizem "fê" para F, "lê" para L, "guê" para G, entre outras. Tem até uma música do Luiz Gonzaga sobre isso: youtube.com/watch?v=-Yd12zwNVBw – bfavaretto Jul 15 '15 at 19:17
  • @DanGetz Pra ver como estou fraco no portugues, eu me confundi :) Obrigado. – Guilherme Nascimento Jul 15 '15 at 20:10
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    Mas queres saber o nome da letra só? Eu aprendi como "guê" mas popularmente diz-se "gê". Em Portugal tem-se muito a mania de confundir "g" com "j" por causa do "gê". – Jorge B. Jul 20 '15 at 10:59
  • Acho que varia mais de pessoa para pessoa, independentemente da região. – someonewithpc Aug 16 '15 at 8:37
  • @Dan Estive a estudar a evolução do G, e daí resultou um resposta quase totalmente nova. A anterior tinha até erros. – Jacinto Dec 18 '15 at 21:04
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Estou convencido que a variação regional na preferência entre os nomes e guê é consequência e não causa da existência dos dois nomes. A causa parece-me ser esta: nós recebemos os dois nomes do latim; e por outro lado existe uma preferência largamente maioritária pelo nome , mas guê é o nome preferido para ensinar as crianças a ler.

No latim clássico, falado nos séculos I e II, o g tinha apenas o som /g/ (como em gato ou guerra). Portanto genus era pronunciado guénus. Depois deste período, o som do g quando seguido de e, i ou y começou a sofrer uma palatização que acabou por o transformar no /dƷ/ (como em bridge no inglês) do latim medieval e eclesiástico, do italiano e do romeno, no /Ʒ/ do português (vilia) e francês, e no /x/ do castelhano (Cartagena). Quando seguido de a, o ou u o som de g permaneceu /g/. (Vejam este artigo da Wikipedia)

Esta mudança foi ditada pela lei do menor esforço. Para lermos guerra ou guita, a língua coloca-se numa posição recuada para produzir o /g/ e depois tem que se chegar rapidamente à frente para pronunciar o e ou i. Para pronunciarmos o a, o ou u, a língua fica em posição recuada tal como para o som /g/. Portanto no latim tardio, nos conjuntos ge, gi e gy, a língua foi tentando pronunciar o g em posição cada vez mais avançada para facilitar a transição para a posição do e, i ou y, alterando o som da consoante. Exatamente a mesma coisa se passou com a letra c, que no latim clássico representava apenas o som /k/ (Cícero era pronunciado Kikero), e depois, antes de e ou i, evoluiu para /s/, /tʃ/ ou /Ɵ/ nos descendentes moderno do latim. (As duas pronúncias podem ser ouvidas aqui.)

Ora os nomes das letras no latim clássico seguiam mais ou menos o padrão que ainda hoje seguem no português. As primeiras consoantes do alfabeto eram pronunciadas (escrevendo à portuguesa) bé, ké, dé, éf, gué. Portanto o nome da letra g terá sofrido a palatização do g antes de e e i, dando o nome em português e francês. é por isso provavelmente o nome original do g em português. É esta a opinião deste artigo no Ciberdúvidas. Se por acaso os romanos tivessem lido as letras bá, ká, gá, a letra g provavelmente seria ainda lida nas línguas modernas.

Pelo menos desde o Renascimento que os estudiosos redescobriram o latim clássico, como se pode ver neste artigo do Ciberdúvidas:

Duarte Nunes de Leão, insigne jurista, historiógrafo e glotólogo, na sua Ortografia da Língua Portuguesa (1576), refere que usamos o G na sua própria significação quando o juntamos às vogais a, o e u, e que «outra pronunciação lhe viemos a dar, imprópria e adulterina, quando se ajunta ao e, i, que fica soando como i consoante* (...). A qual pronunciação com e, i, é alheia dos Gregos e Latinos, e própria dos Mouros, de quem a recebemos. De maneira que para pronunciarmos o G com e, i, da maneira própria e natural, como o pronunciamos com a, o, u, lhe acrescentamos um u, líquido, e dizemos Ga, Gue, Gui, Go, Gu». (* o i consoante é o atual J.)

O insigne Duarte Nunes de Leão estava redondamente enganado acerca de termos recebido a pronunciação dos mouros, mas mostra que a pelo menos a partir do século XVI já se sabia da pronúncia do g no latim clássico, abrindo a possibilidade para o nome alternativo guê.

O nome é no entanto claramente o preferido, pelo menos na atualidade. Aqui em Portugal, creio que só mesmo as crianças nos primeiros anos de escola, e os seus professores, é que usam o nome guê. Nas siglas o g é sempre pronunciado mesmo quando abrevia uma palavra onde é pronunciado guê: por exemplo GNR, Guarda Nacional Republicana, é pronunciado gê-ene-erre; do mesmo modo, TGV, Train à Grande Vitesse, é tê-gê-vê. A música A B C do Sertão de Luíz Gonzaga, agradecimentos ao Bfavaretto pela sugestão, sugere que o nome é uma peculiaridade sertaneja:

Lá no meu sertão, p'r' os caboclo ler, tem que aprender um outro ABC.

Mas há uma coisa que ajuda o nome guê a persistir: é este o nome geralmente usado para ensinar as crianças a ler: vejam este artigo do Ciberdúvidas e este outro. Eu googlei ensino do alfabeto na educação infantil – imagens, e verifiquei que a letra g é sistematicamente ilustrada com um gato. Este site usa uma ficha com várias ilustrações para cada letra, e no g, para além do inevitável gato, aparece uma galinha, um garfo, e outras coisas que começam com o som guê. Parece que as crianças começam por aprender palavras com ga, go, gu e só mais tarde é que aprendem coisas como gelo e giz. E facilita-lhes a aprendizagem aprenderem que a letra se chama guê.

É claro que o c também começa por ser ensinado em palavras em que soa quê (vejam exemplo no último link), e nem por isso mantém o nome quê entre os adultos. Creio que isso seria impedido pela existência do q. O g não tem essa concorrência, porque o j se chama jota. Mas eu lembro-me de aprender o c de cão e o q de nove (assim chamado devido à sua forma). Noutras paragens chamam-lhe o q de quá-quá (vejam comentário abaixo).

Portanto parece-me que o nome é o original, tendo resultado da evolução do latim tardio e depois deste para o português, com evoluções paralelas para outras línguas. O nome guê sobrevive por ser usado no ensino das crianças, recebendo também a legitimação do latim clássico.                         

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    E mais uma vez uma excelente resposta com uma pesquisa fantástica. – Jorge B. Sep 17 '15 at 13:53
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    Mesmo :D Aqui dizemos "quê de cão e quê de qua qua". (como fazem os patos) – Jorge B. Sep 17 '15 at 16:25
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    Essa também é boa: para eles se lembrarem como se escreve quatro, qual – Jacinto Sep 17 '15 at 16:27
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    Eu adicionei o "r" no nome da música mas precisa de no mínimo 6 caracteres diferentes, então adicionei o famoso alt+255... O problema é que isso alterou o link, poderia arrumar pra mim por favor? – Marcos Sartorato Sep 17 '15 at 16:29
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    Obrigado a todos os meus editores – Jacinto Sep 17 '15 at 16:33

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