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Custa-me a crer ou a mim custa-me a crer não levantam espiga, mas eu custa-me parece violar a concordância verbal. No entanto, eu soam-me perfeitamente naturais esta e outras construções tais. E têm pergaminhos literários. Eis vários exemplos, com ênfase minha:

Eu custa-me a crer taes boatos […] [Revista do Instituto Histórico e Geográphico do Rio Grande do Sul, 1929]

Você sucedeu-lhe o quer que seja de muito bom! [Eça de Queiroz, Os Maias, 1888]

«Eu custa-me incomodar assim os senhores, mas vimos em serviço.›› [José Carlos Barros, Um Amigo para o Inverno, 2013.]

E é coisa antiga. Este exemplo já era antigo quando o Almeida Garrett o incluiu no Romanceiro e Cancioneiro Geral de 1843:

A porteira o que lhe importa […]

E tive que ir parar a um serbenfiquista.com/forum para encontrar uma destas (grafia original):

eu ninguem me tira da cabeça que isto de ganhar musculo vem mto de cada um. ora...um jogador d futebol tem que ter fisico se quer ter o minimo d hipoteses em campeonatos fortes em fisico e ate na diputa de um p um

Isto é alguma figura de estilo? Tem nome?

  • Ué! Usar um pronome pessoal do caso reto em uma frase que ele desempenhe papel de sujeito de alguma oração não seria uma construção não gramática? Onde você vê esse tipo de construção ainda ser usado atualmente? – Marcelo Ventura May 30 '16 at 18:40
  • 1
    @MarceloVentura Uma das minha citações é de 2013. E eu digo, eu custa-me a crer. – Jacinto May 30 '16 at 18:42
  • Sim, é bastante comum em Português de Portugal falado, pelo, menos. – Duarte Farrajota Ramos May 30 '16 at 22:57
  • 1
    @Duarte Tens aqui um exemplo brasileiro, livro, de 1984: Eu ninguém me quis. – Jacinto May 30 '16 at 23:06
  • Pra mim, nada mais é do q uma ênfase no sujeito. – Enrico Brasil May 31 '16 at 19:07
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É uma construção de tópico marcado, em particular deslocação à esquerda de tópico pendente, na terminologia da Gramática de Maria Mateus e outras (pág. 493 da 6.ª ed.). Os exemplos aí dados são:

(11) (a) O João… ouvi dizer que e̲l̲e̲ tinha ido passar férias a Honolulu.
        (b) “… eu … medicina privada realmente não m̲e̲ interessa.”

O grau de sintatização é fraco (apenas conformidade de pessoa, género e número) entre o tópico e o constituinte interno ao comentário (respetivamente em itálico e sublinhados); a Condição de Relevância («o comentário deve ser relevante acerca do tópico») é satisfeita através de uma correferência conforme nos traços mencionados entre o tópico e o constituinte interno (idem).

Contrariamente à outra construção que referes (a mim custa-me, uma deslocação à esquerda clítica, ver pág. 494-497), apresenta insensibilidade a ilhas e está limitada a frases raiz (factos que sugerem não haver um movimento). Os exemplos dados são estes:

O Carreras… muitas pessoas compraram bilhetes no mercado negro para o̲ ouvirem.
*/?Toda a gente me disse que o João … não l̲h̲e̲ pagaram o ordenado este mês.

Na gramática tradicional, esta construção é geralmente considerada um anacoluto, definido por Bechara como «a quebra da estruturação lógica da oração» (Moderna Gramática Portuguesa, 37.ª ed., 2006, versão ebook, pág. 739) e por Celso e Cunha (Nova Gramática do Português Contemporâneo, 1.ª ed., 1984, pág. 624) como «mudança de construção sintática no meio do enunciado, geralmente depois de uma pausa sensível». Bechara dá o exemplo:

Eu parece-me que tudo vai bem.

A Gramática de Celso e Cunha diz simplesmente que «é um fénomeno muito comum, especialmente na linguagem falada», mas Bechara admoesta:

O anacoluto, fora de certas situações especiais, é evitado pelas pessoas que timbram em falar e escrever corretamente a língua

  • Essa da deslocação do tópico, imagino que no (11.a) se pudesse fazer uma deslocação para a direita (ouvi dizer que ele foi passar férias a Honolulu, o João), ou para o meio. Na (11.b) não tou a ver que se pudesse deslocar o eu para a direita do me. Isto faz sentido? – Jacinto May 30 '16 at 20:39
  • 1
    Ainda parece estranho. Vejam, o anacoluto ocorre essencialmente quando o orador desiste da formulação original de sua fala logo após ter começado a pronunciá-la e acaba por pronunciar outra formulação da mesma fala. Daí a tal longa pausa. Isso é coerente. Contudo o que ocorre aqui é que a frase já é planejada desde o início dessa forma, sem mudanças de intenção ou de escolha de construção no meio do caminho. Simplesmente sai o "Eu parece-me" de prima. – Marcelo Ventura May 30 '16 at 21:58
  • @MarceloVentura Concordo. Por isso me parece que «deslocação à esquerda do tópico pendente» seja uma melhor descrição. Ainda tenho é que ver bem o que isso do tópico pendente. – Jacinto May 30 '16 at 22:42
  • 1
    @MarceloVentura Não vejo nada na pergunta (poderá o Jacinto esclarecer) que indique que não há pausa ou entoação diferente no tópico. É verdade que nenhuma das frases tem pontuação, mas acho que estás a ler demais nisso. Dificilmente vejo "eu parece-me que isso não é verdade" a ser lido como "ele parece doente", sem entoação. De resto, eu parece-me é tratado como uma construção de tópico aqui (sob tópico pendente) e aqui, por exemplo. – Artefacto May 30 '16 at 23:57
  • 1
    Eu creio que em certas expressões, como eu custa-me a crer/aceitar/etc., não há grande pausa. Não tenho a certeza se eu custa-me a crer soa como o meu custa-me €10 por mês. Mas parece-me, e creio que esse é o ponto principal do @Marcelo , que eu custa-me e outras que tais são expressões fixas: não resultam que eu começar a dizer uma coisa e mudar de ideias a meio do enunciado. – Jacinto Jun 1 '16 at 7:15

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