3

O par de frases seguintes é perfeitamente pacífico:

(a1) Desejamos vencer.
(a2) Vencer é tudo o que desejamos.

Mas como fica se usarmos um verbo com preposição? Comecemos com aspirar a no sentido de desejar (Aulete 4). Indico três possibilidades, com o número de resultados do Google search entre parenteses (apenas para “tudo ao/a/o que aspiro + aspiras + ... + aspiram”):

(b1) Aspiramos a vencer.
(b2) Vencer é tudo ao que aspiramos. (5)
(b3) Vencer é tudo a que aspiramos. (65)
(b4) Vencer é tudo o que aspiramos. (49)

A lógica parece ditar (b2): ao o da expressão tudo o que juntamos a preposição a requerida pelo verbo aspirar. Os internautas parecem não ser muito sensíveis a esta lógica. E eu também não sou extraordinariamente sensível, porque (b3) é a opção que me soa melhor. A (b4) tenho quase a certeza que está errada, Parece-me que não podemos dispensar a preposição, sob pena de o significado de aspirar mudar de “desejar” para “sugar”. No entanto (b4) é é muito comum na net (depurei os resultados de falsos positivos como tudo o que aspiramos a ser, tudo o que o [aspirador] aspira, etc.)

Vejamos agora a preposição por:

(c1) Lutamos pelo futuro dos nossos filhos.
(c2) O futuro dos nossos filhos é tudo pelo que lutamos. (154)
(c3) O futuro dos nossos filhos é tudo por que lutamos. (38)
(c4) O futuro dos nossos filhos é tudo o que lutamos.

Neste caso a preferência, ainda que não tão marcada, é a inversa: (c2), preposição por + o; enquanto que no caso anterior a opção equivalente, (b2), é rara. Incluí a (c4) só para ser exaustivo, pois não me parece fazer qualquer sentido. Nem indico os números, porque a maior parte dos resultados não seguem o padrão da minha frase.

Então quais são as opções corretas: tudo a que ou tudo ao que? Ou são as duas? E o mesmo para tudo por que ou tudo pelo que?

  • Tens de ir até à última página. "tudo pelo que lutamos" tem 93 resultados, contra 27 de "tudo por que lutamos". – Artefacto May 23 '16 at 3:25
  • @Artefacto O Google ao menos podia manter as proporções. Juntei as restantes pessoas do verbo para conseguir uma amostra mais numerosa. – Jacinto May 23 '16 at 8:12
  • tudo o que é esquisito: clul.ul.pt/files/telmo_moia/tmoia_tesemestrado1992.pdf (pág. 75 e seguintes)... – Artefacto May 23 '16 at 17:34
  • Vê também a errata, entrada a respeito da pág. 82. Eu depois escrevo a resposta. – Artefacto May 23 '16 at 17:47
  • @Artefacto Espero que troques tudo aquilo em miúdos, que eu estou com dificuldade em acompanhar. – Jacinto May 23 '16 at 18:52
2

Comecemos por pôr de parte as frases 4, a não ser que queiras admitir frases como coisas que nós lutamos. A estratégia cortadora não é admitida na língua-padrão (exceto talvez num par de casos), e os exemplos que dás, não obstante a alta contagem para (b4), parece,-me claramente agramaticais. Talvez a alta contagem para (b4) se deva a uma confusão entre os dois predicados (pretender vs. sorver).

Em relação às outras, Telmo Móia, na sua tese de mestrado, considera-as todas possíveis, mas marginais, independente de o pronome relativo ser ou não marcado:

?Tudo com o que ele sonhou realizou-se. [pág. 75]
?Tudo com que ele sonhou realizou-se. [errata, entrada para a pág. 82]

Isto corresponde também à minha sensibilidade — as frases 2 e 3 causam-me bastante hesitação; preferiria certamente:

Vencer é tudo aquilo a que aspiramos. (55)
O futuro dos nossos filhos é tudo aquilo por que lutamos. (85)

cujas contagens, feitas pelo mesmo método, estão entre as de 2 e 3 em ambos os casos.


Tentarei agora resumir (quão fielmente não sei, dado que linguística não é a minha área) as razões, segundo o autor, por que as construções com tudo o que são especiais.

O autor analisa este tipo de contruções nas páginas 73-82. Em primeiro lugar, nota que o que (e quanto), contrariamente a outros morfemas relativos pronominais como quem, não admite tipicamente antecedentes expressos, mesmo quando os morfemas estão precedidos de preposição:

A pessoa a quem dei o livro aprendeu muitas coisas.
*As coisas ao que se assistiu em Díli chocaram a opinião pública mundial.

Sem antecedente expresso, a distribuição é semelhante à de quem (pág. 74).

Com tudo o que, surge um padrão estranho:

(209) Tudo o que ele disse é mentira.
(211) ?Tudo com o que ele sonhou realizou-se.

Se, por um lado, tudo é um antecedente de o que, então a frase (209) viola a propriedade (enunciada antes) de que as formas marcadas do operador relativo como o que ou quem não podem ocorrer em posição adjacente aos antecedente (*as pessoas quem). Se, por outro, tudo não for antecedente, então (211) não deveria ser possível, da mesma forma que com o que ele sonhou realizou-se ou a quem ele leu o livro aprendeu muitas coisas não o são (o autor assume que os morfemas marcados são fruto de um processo de fusão morfofonológica entre o antecedente nulo e o operador relativo, que aí seria impossível devido à interposição da preposição) (pág. 75-76).

O autor acaba avançando uma solução em que o antecedente nulo tem um mecanismo de legimitação diferente do das outras relativas e que passa por tudo, com o seu traço [-humano] identificar o conteúdo do antecedente. O autor nota que esta explicação é compatível com a possibilidade de tudo ocorrer em posição pós-verbal (onde não pode reger o antecedente nulo) quando existe o antecedente realizado aquilo:

(224) ?Aquilo com o que ele sonhou realizou-se tudo.

e também de relativas precedidas de tudo em que ocorre a forma não marcada que (dado que a forma marcada deixa de ser necessária para identificar o conteúdo do antecedente nulo):

?Tudo que ele disse é mentira.

  • Vou precisar de digerir melhor a análise to Telmo. Eu só incuí as (4) para ser exaustivo. Creio que a alta contagem de (b4) vem de muita gente deixar cair a preposição quando aspiram a infinitivos: «aspiramos ser» (300 e tal no Google search) em vez de «aspiramos a ser» (198). – Jacinto May 26 '16 at 9:45

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