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Pelo que percebo, o uso correcto deste modo destina-se a acções passadas ou atemporais, em orações subordinadas iniciadas por que (a acção principal geralmente denota pedido, ordem, sugestão, etc.):

Foi-nos pedido que ligássemos antes.
Ordenei que se calassem!

ou em orações subordinadas condicionais iniciadas por se ou caso:

Se quisesse, fazia-o eu!
Caso isso se partisse, terias que o arranjar.

No entanto, tenho-me deparado, recentemente, na 10ª edição da Editorial Presença de Crime e Castigo (com tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra), com frases como as seguintes (ponho um pouco mais de texto, para ter a certeza que o contexto é transmitido, e que não é este, porventura, que justifica o uso do tempo):

Depois, num pânico louco, precipitou-se para o canto onde o buraco no papel de parede servira de esconderijo às coisas, enfiou a mão e durante alguns minutos apalpou-o minuciosamente, passando por todas as reentrâncias e rugas do papel. Como não encontrasse nada, levantou-se e começou a recuperar o fôlego. (p. 255)

e

— Com grande prazer. Ao chegar aqui à cidade, e como tivesse decidido empreender um... voyage, quis tomar algumas providências necessárias. (p. 275)

Ambas me soam mal. No segundo exemplo, talvez falte apenas um se, embora o uso repetido deste tempo verbal nesta tradução me leve a crer que não é esse o caso. No primeiro, parece-me que o pretérito perfeito do indicativo seria mais indicado.

Os tradutores fizeram uso do modo verbal errado, ou falha-me alguma coisa?

  • Tive que adicionar um citação dos Ornatos à resposta, lol. – Jacinto Jun 4 '17 at 20:30
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Essa construção está correta mas é arcaizante. O que te falta a ti, e a mim, e provavelmente à maioria de nós, é exposição a ela. Mas foi muito comum no passado e mantém-se ainda hoje, ainda que seja rara. Mas se o Machado de Assis, Alencar, Camilo e Júlio Diniz escreviam assim, não podemos dizer que esteja errado. Vejamos o que já dizia há quase um século Said Ali na Gramática Histórica da Língua Portuguesa, 1931 (2ª parte, p. 127, grafia original):

O port[uguês] hod[ierno], construindo sentença causal de como, prefere o imperfeito do indicativo ao imperfeito do conjuntivo para os actos passados, e serve-se do indicativo se tem de pôr o verbo no presente. Antigamente era mais frequente o emprego do imp. do conj. e em alguns autores occorrem tambem exemplos do presente do conjuntivo:

Como a tarde fosse serena e as arvores com gracioso ar se meneassem… lhe trouve aa memoria aquelle gracioso tempo (Mor. Palm. 1, 4)—Como o gigante viesse folgado e fosse dos mais forte do mundo… pelejava tam animosamente (ib. 1, 60)—E como o amor de Deos seja alto e vença todas as cousas, fica o bom subdito alto e vencedor obedecendo a hum baixo e vencido (H. Pinto 1, 129)—Como amizade seja hũa das boas cousas que ha no mundo, e seja fundada em virtude e razão natural, e no mesmo Deos, está claro que não ha entre perversos e depravados inimigos da virtude (ib. 2, 289)—Como não achasse mais que folhas [na fiqueira], amaldiçoou-a (Vieira, Serm. 5, 540).

Os autores citados por Said Ali são Francisco Moraes e Frei Heitor Pinto do século XVI e o Padre António Vieria do século XVII, mas o Corpus do Português mostra que a construção era ainda comum na literatura do século XIX e até mesmo do princípio do XX; e ainda se encontra ocasionalmente no final do século XX. Eis alguns exemplos (ênfase minha):

E, como soubesse que a familia real estava em Cintra, conjecturou que os deputados, e particularmente Calisto, deviam estar em Cintra para de lá governarem a Monarchia.
(Camilo de Castelo Branco, A Queda d’um Anjo, 1866, p. 209.)

Já estou boa. E como desatasse o lenço, a mãe disse-lhe timidamente que era melhor atá-lo, mas Capitu respondeu que não era preciso, estava boa.
(Machado de Assis, Dom Casmurro, 1899.)

Estendeu-me a flauta. ― Toma. E como tivesse ficado indeciso, disse-me que era para mim (Alves Redol, Fanga, 1943.)

Deu-lhe um riso áspero—àquela moça novidadeira, que, muito satisfeita, virava para o canto da parede e logo depois caía no mais doce dos sonos. Como estivesse vestida, Basília saiu sem demora do quarto. (Dinah Silveira de Queiroz, A Muralha, 1954.)

Era sudanês e vivia em Cartum, mas, como não encontrasse emprego na capital, decidiu partir para o Darfur. (Paulo Moura, “Esquecimento”, Público, 9-12-2007.)

O tocador de flauta, como tivesse terminado o trabalho ajustado, foi-se afastando, fleumático, com o seu estojo debaixo do braço. (Mário de Carvalho, Um deus passeando pela brisa da tarde, 1994.)


Atualmente o conjuntivo tem mais alguns outros usos comuns além dos indicados na pergunta:

Não vais achar nada bem que eu pague a conta em raiva.
E pudesse eu pagar de outra forma! E pudesse eu pagar de outra forma!
(Ornatos Violeta, Ouvi Dizer, 1999.)

Bateste à porta e ninguém atendeu? Talvez estivessem nas traseiras.

Lamento, mas já não há bolo. Olha, chegasses mais cedo.

Oh! quem tanto pudesse que fartasse
Este meu duro génio de vinganças (Luís de Camões)

Trabalhava todos os dias, chovesse ou fizesse sol.

Nestes exemplos, tal como no uso em orações subordinadas exposto na pergunta, o subjuntivo exprime potencialidade, hipótese, incerteza, possibilidade, irrealidade ou indeterminação, e é isso que nós normalmente esperamos. No uso em questão, nas orações causais de como―“como desatasse o lenço, a mãe disse-lhe”…―exprime um facto, e é isso que no causa perplexidade por falta de familiaridade. Note-se no entanto que esta associação do conjuntivo ao potencial, incerto, etc. é apenas uma tendência. Veja-se o que diz a Nova Gramática do Português Contemporâneo de Celso Cunha e Lindley Cintra (Lisboa, 2014, p. 583):

A distinção entre o MODOS INDICATIVO e CONJUNTIVO é complexa. Não existe correspondência entre os dois modos e distinções modais, um vez que a cada MODO se pode associar mais do que uma MODALIDADE.[...] A análise do CONJUNTIVO não tem sido consensual, considerando alguns linguistas que as duas formas surgem apenas por exigência de construção sintática.

E o que se passa é que existe alguma tolerância nestas “exigências de construção sintática”, e as “preferências”, como lhes chama Said Ali, têm variado. Temos também um exemplo oposto: no passado usou-se o indicativo após talvez e desde que, onde presentemente usamos o conjuntivo: talvez abuso versus talvez abuse; desde que não me aborrece versus desde que não me aborreça (vê esta pergunta). Exemplo similar noutra área: era comum no passado dizer-se já lhe não parecia em vez de já não lhe parecia (vê esta pergunta).

  • Interessante. Então achas que nenhum dos exemplos é hipotético e que o como é causal? (ou pelo menos o primeiro) – Artefacto Apr 25 '16 at 16:59
  • Eh pá, eu não ponho as mãos no fogo. Mas parece-me que nos exemplo quer da pergunta, quer da minha resposta, aquilo é tudo factual. – Jacinto Apr 25 '16 at 17:02
  • @JNat O primeiro exemplo ajudaria ter mais contexto. A minha interpretação foi que o pânico passou porque ele de facto encontrou qq coisa, mas que de seguida agiu como se não tivesse encontrado nada. Mas estando a leitura causal de como disponível, a tua interpretação parece-me mais plausível. – Artefacto Apr 25 '16 at 17:06
  • Os exemplos da pergunta são ambos factuais, sim. Pelo menos o primeiro é mesmo, com toda a certeza: ele não encontrou, de facto, nada. – JNat Apr 25 '16 at 17:06
  • @Artefacto Mas encontrei este exemplo do Público em que é conjuntivo com se omisso: «Como não bastassem já as terríveis tragédias do Médio-Oriente libaneses, curdos, palestinianos, etc para enegrecer as páginas da História Contemporânea, tornou- se necessário reeditar o inferno balcânico» Ou melhor, quer pretérito perfeito, quer como se não + conjuntivo funcionam, mas o último seria talvez mais esperável. – Jacinto Apr 25 '16 at 17:12
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Como diz o Jacinto, na primeira frase como parece ter um valor causal ou disso próximo; o verbo usar-se-ia geralmente no Indicativo. Mais informação na resposta dele.

O resto da minha resposta cobre cobre uma interepretação hipotética das frases (que poderá ser o caso para o teu segundo exemplo), equivalente a como se.

É de facto possível omitir a conjunção, da mesma forma que as duas frases seguintes são equivalentes:

  • Se gostasses dela, não lhe farias isso.
  • Gostasses tu dela, não lhe farias isso.

E da segunda (repara que a inversão é obrigatória), poderíamos omitir ainda o tu (com alguma perda de claridade):

  • Gostasses dela, não lhe farias isso.

Portanto, as três frases são também equivalentes:

  • Não ages como [agirias] se gostasses dela.
  • Não ages como [agirias] gostasses tu dela.
  • Não ages como gostasses dela.

Agora, a última frase é de facto bastante incomum em Portugal (como + <pretérito imperfeito do conjuntivo>) só dá dois resultados relevantes no CETEMPúblico (texto jornalístico), mas quando vamos para o corpus TODOS, que contém também textos literários e brasileiros, encontramos muito exemplos:

  • Taunay descreveu-os nos moldes dos antigos fundadores de Roma, como fossem eles patres patriae («os pais da nação») ou ditadores romanos (Taunay, 1929, p. 107, 115).
  • Entretanto, o pajem, como interpretasse de modo afirmativo o silêncio do sacerdote, continuou: -- Nhanhã Helena é uma santa.
  • O Marquês de Pombal, como pressentisse o perigo que podia advir da hegemonia econômica da Inglaterra, inspira-se em Colbert, para a realização do seu plano de fomento econômico.

Dito isto, também há exemplos que não se coadunam com esta interpretação, como esta passagem de Machado de Assis (cf. esta pergunta e resposta do Jacinto):

No fim do almoço, como fumássemos, deu-me novamente a indicação da casa em Lisboa, o título da folha política em que colabora, e ia confiar-me alguma coisa mais que calou, pareceu-me.

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