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De um tempo pra cá comecei a perceber que os portugueses têm esse costume. Em frases onde no português brasileiro se esperaria o futuro do pretérito (-ia), em pt-PT é usado o pretérito imperfeito do indicativo (-ava).

Exemplos que encontrei na internet:

Eu até deixava aqui o meu site de memes originais, para quem está a dizer que gosta dos memes em Brasileiro, mas depois eles estragavam o 9GAG. < Fonte >

Pode-se perceber que o tempo da frase está no presente, e a pessoa está falando de possibilidades, condições, mas o pretérito imperfeito é usado, como se fosse costume "estragar" o 9GAG, mas depois passou a não ser mais. Em pt-BR seria algo assim:

Eu até deixaria1 aqui o meu site de memes originais, para quem está dizendo que gosta dos memes em português brasileiro, mas depois eles estragariam o 9GAG.

1 Ou "deixava" mesmo, nesse caso também é usado assim em pt-BR, mas não no caso de "estragavam".


Outro exemplo:

Gostava de saber quando se usa o «ao qual» e «à qual». < Fonte >

Costumava gostar, mas agora passou a não gostar mais. XD


Apesar de no português brasileiro também ser usado o pretérito imperfeito do indicativo em frases como "Até deixava você ir, mas apenas se voltasse", "Eu podia falar isso, mas não vale a pena" ou "Nooossa, não deixava!", porém em pt-PT o pretérito imperfeito do indicativo é usado em situações diferentes, situações essas em que seria usado o futuro do pretérito no brasileiro.



Por que isso? Existe o futuro do pretérito no português europeu? Depende da região? É assim mesmo que é dito em pt-PT?

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Todos os casos que indicaste são típicos do português europeu informal. Em nenhum deles o pretérito imperfeito estabelece qualquer tipo de relação com um tempo de referência passado — tem antes um valor modal.

Primeiro, o uso do pretérito imperfeito do indicativo pelo condicional (futuro do pretérito) em orações condicionais ou equivalentes. Na primeira frase há um antecedente implícito:

Eu até deixava aqui o meu site de memes originais (...), mas, se o fizesse, eles depois estragavam o 9GAG.

Sobre este assunto, diz a Gramática do Português editada pela Gulbenkian, na pág. 520 (numa secção escrita por Fátima Oliveira):

Em construções condicionais, o pretérito imperfeito pode (em português europeu) [negrito meu] ser usado na oração consequente em vez do condicional como se ilustra em:

(20) a. Se a Maria tivesse lido o jornal [já sabia/saberia] as notícias].
       b. [A Maria tomava/tomaria esse remédio] se o médico lho recomendasse.

Nestes dois casos, obtém-se uma interpretação epistémica (ou seja, de possibilidade) de toda a frase; em particular (20b) [...] tem uma leitura contrafactual [...].

Do mesmo modo, em construções paratáticas como [as seguintes], o imperfeito também pode ser usado, a par do condicional, com uma interpretação contrafactual [...]:

(21) a. Ele bebeu durante toda a noite. Mais um copo e ultrapassava/ultrapassaria os limites de álcool no sangue (cf. se tivesse bebido mais um copo, ultrapassava/ultrapassaria os limites de álcool no sangue)
      b. Os bombeiros chegaram no momento exato. Mais um minuto e a criança afogava-se/afogar-se-ia. [...]

Compare-se (21b) com os bombeiros acorreram ao local, mas [um minuto depois a criança afogava-se]. [Onde a expressão de localização temporal anafórica permite uma leitura temporal de Passado do imperfeito]

Repare-se que mesmo a frase (20b) pode ser interpretada contrafactualmente.

Existem contudo outros casos menos acentuadamente modais em que o pretérito imperfeito pode substituir o futuro do pretérito. Fátima Oliveira (nas Actas do 2.º Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, 1986) dá o seguinte exemplo (pág. 88):

Ele soube que eu não vinha no dia seguinte.

Mas partindo das condicionais, encontramos frases em que poderá estar oculta uma condicional (por exemplo «se não te importasses») e o imperfeito «serve para ativar uma hipótese, ou sugestão, a decidir e por isso pode ganhar a força ilocutória de proposta, pedido, anúncio de intenção, etc., consoante as condições do contexto e da situação» (Oliveira , 89). Alguns exemplos de Oliveira e da Gramática do Português:

  1. Espera um pouco. Ia só ali buscar um livro.
  2. Sendo assim, fazia o almoço num instante e depois saíamos.
  3. Agora, bebíamos um cafezinho, não?
  4. Se chegarmos a horas ao Porto, ainda íamos a tua casa.
  5. Amanhã passava pelo seu gabinete.
  6. Vocês podiam contar agora coisas da vossa viagem.

Daqui partimos para os casos de “delicadeza”, casos nos quais se insere a tua segunda frase. Oliveira dá os exemplos:

Vinha agradecer-lhe [...] [citando a gramática de Cunha e Cintra]
Fazia a fineza de… ?
Davas-me a direção do Pedro?

Aqui não está em causa qualquer oração condicional. O futuro do pretérito poderia ser usado com valor modal semelhante nas duas últimas frases, algo que é mais comum no Brasil, a julgar por este artigo de Marine e Barbosa intitulado Gostava que fizessem este exercício. – Gostava ou gostaria?. Oliveira diz que este uso é uma estratégia para «evitar uma afirmação peremptória de intensão ou de autoridade e em exprimir a deferência que merece o enunciatório» (pág 90).

Também temos usos em que o imperfeito marca um contraste. Dados estes exemplos:

  • A - O que estás aqui a fazer?
    B - Estava à espera do jornal.
  • Já não te via há muito tempo.
  • Fazia-te em Évora.

A interpretação destas frases assinala a existência de dois intervalos exclusivos — aquele indicado pelo imperfeito e um outro imediatamente anterior ao momento da enunciação, na transição dos quais se operou uma mudança de estado. No caso da última frase, a transição faz-se entre aquilo que o enunciador acreditava ser o mundo real e o mundo real (Oliveira, p. 83). Este efeito de contraste (a que não é alheio o facto de o imperfeito ser usado em condicionais contrafactuais) é também conseguido através da criação de um mundo irreal que contrasta com um mundo real em frases como (Oliveira, 84):

Pensava que eras médica.
Querias!…

Voltando à frase inicial:

Eu até deixava aqui o meu site de memes originais, para quem está a dizer que gosta dos memes em Brasileiro, mas depois eles estragavam o 9GAG.

O primeiro deixava já não nos deverá surpreender. Existe em certa medida uma condicional implícita (se eles não fossem depois estragar o 9GAG, eu deixaria aqui o meu site de memes originais), que é expressa com recurso a um mundo irreal em que o enunciador anunciaria o seu site de memes originais, construído pelo imperfeito.


Estes usos modais do imperfeito hão de ocorrer com menor frequência no Brasil, mas não tenho muitos dados a esse respeito. A gramática de Evanildo Bechara (gramático brasileiro), em todo o caso, menciona alguns (pág. 345 da versão eletrónica da 37ª ed.):

Nos pedidos e solicitações [o pretérito imperfeito] ou denota que duvidamos da realização do fato ou exprime um desejo feito com modéstia ou com o simples propósito:

“Queria viver para o seu filho – é como ele explicava o desejo da vida”.
Sr. Manuel, eu desejava telefonar.

Pode substituir, principalmente na conversação, o futuro do pretérito, quando se quer exprimir fato categórico ou a segurança do falante:

“Se me desprezasses, morreria, matava-me”

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Refiro-me a língua falada, em pt-BR.

"eu até deixava" é comum em pt-BR. Não posso afimar se mais comum do que "eu até deixaria", mas é bem comum na língua falada.

  • "Olha, se eu fosse você eu deixava tudo de lado e ia embora". Neste caso em particular creio ser o imperfeito mais comum do que o condicional ("eu deixaria") em pt-BR.

Já com o verbo gostar, concordo que "eu gostava de saber" é menos comum que "eu gostaria de saber" mas ainda assim ouve-se ocasionalmente entre os mais letrados. Por outro lado, dizemos "eu ia gostar de saber" com mais frequência do que "eu gostaria de saber" quando não estamos em busca de uma informação. Notem bem, "eu gostaria de saber" é muito usado quando queremos uma informação:

  • "Eu gostaria de saber se você não vai fazer o que prometeu"

Mas não no seguinte contexto:

  • "Ah, eu ia gostar muito de saber que eles se separaram."

Há essa diferença entre "eu gostaria de saber" e "eu ia gostar de saber" conforme demonstram os exemplos acima. Em "gostaria", tu buscas uma informação.

E ainda, "eu queria saber" (imperfeito do indicativo) é mais comum do que "eu quereria saber" (condicional).

Quanto a "depois eles estragariam", não é a forma mais comum em pt-BR. Dizemos mais frequentemente "depois ele iam estragar" e neste caso, "iam", da mesma forma que "estragavam", está no imperfeito do indicativo

Creio que a diferença transatlântica está mais na língua falada onde em pt-BR usa-se o condicional um pouco mais frequentemente, embora não haja nenhuma regra a respeito.

Quanto à pergunta "existe o condicional em pt-PT? Sim, ele existe. No registro oral e da nesma forma que em pt-BR, contudo, frequentemente usa-se o imperfeito do indicativo em seu lugar. Em pt-BR eu diria "Se ele me dissesse uma coisa dessas...ah, eu dava um soco na cara dele", mas eu não diria "eu daria um soco na cara dele".

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  • "Quanto a "depois eles estragariam", não é a forma mais comum em pt-BR." "Eles iam estragar" é bastante informal, mas "Eles estragariam" é igualmente comum, eu mesmo diria "estragariam" se fosse eu. E "eu queria saber" não tem o mesmo sentido que "eu quereria saber" ou "eu iria/ia querer saber". – Yuuza Apr 18 '16 at 17:00
  • @BrunoLopes No registro oral eu nunca ouvi "eu quereria saber". Independente do contexto, soa pedante. – Centaurus Apr 18 '16 at 23:25
  • Nem eu, ouve-se sempre a segunda (ia/iria querer), mas é possível. Exemplo: "-- Se você fosse ele, qual seria sua reação? -- Eu quereria [iria/ia querer] saber o que aconteceu!" – Yuuza Apr 18 '16 at 23:34
  • Francamente, eu acho que "Ah, eu ia gostar muito de saber que eles se separaram." tem um sentido condicional:gostaria, apesar de ser imperfeito. Talvez estes usos pertencem a um registro meio baixinho tambem... – Lambie Nov 12 '19 at 0:05
  • @Lambie Eu vejo uma diferença entre o meu exemplo "Ah, eu ia gostar muito de saber que eles se separaram.", e "Ah, eu ia gostar muito de saber se eles se separaram." A primeira frase refere-se a sentir alegria com a confirmação da separação. Já na segunda frase, a pessoa quer apenas dizer que apreciaria a informação, seja ela "sim" ou "não". – Centaurus Nov 12 '19 at 1:05
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No português br também se usa a locução ia +verbo no português falado muito mais comumente que propriamente o futuro do pretérito -ria-. No entanto com mesmo valor semântico.

-Eu ia falar, mas não deu tempo.
Se pegasse um táxi, ela ia chegar mais cedo.

Ou a locução iria+verbo.

Eu iria comer do bolo, mas precisei sair antes.

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    Olá Rebeca, bem vinda ao Portuguese SE! Me permita sugerir destacar as frases de exemplo com aspas, "como essa", ou com o sinal > seguido de espaço (como editei tua resposta - você pode alterar minha edição, se desejar) ao invés de escrevê-las em maiúsculas: pois essas são de desagradável leitura e podem ser interpretadas como texto gritado. Também é recomendável evitar abreviações como "tbm" e, em geral, ser cuidadosa na redação. Obrigado. – stafusa Feb 1 '19 at 22:43
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No Brasil, o fenômeno é em geral restrito à segunda e terceira conjugações:

Eu queria saber como é que chegaste a essa conclusão. (em vez de "quereria")

Mas

Eu gostaria de saber como é que chegaste a essa conclusão.

(Em Portugal é comum dizer "eu gostava de saber", mas não aqui.)

Minha impressão é que as formas do futuro do pretérito e do pretérito imperfeito (que não deixa, afinal, de ser uma espécie de "presente do pretérito"...) são muito semelhantes na segunda e terceira conjugações (queria/quereria, comia/comeria, partia/partiria, ia/iria, etc.), o que faz mais natural a substituição (especialmente quando o verbo já tem um "r" na raiz, como "querer"). E que em Portugal - mas não no Brasil - depois se operou uma regularização lógica (se se faz assim na segunda e terceira conjugações, então se faz também na primeira).

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PRETÉRITO IMPERFEITO EM PERÍFRASE (IA + V [infinitivo]), o caso discutido aqui:

  1. Outra forma que substitui o futuro do pretérito é formada pelo verbo IR (auxiliar) no imperfeito, seguido do infinitivo do verbo principal:
    “Ninguém ia descobrir, ninguém ia vê-la.” (Verissimo, 1996)

Ou seja, usando o futuro do pretérito, a frase acima daria:
Ninguém descobriria, ninguém a veria. [padrão formal, mudança de registro]

futuro do pretérito

Ou seja: O verbo IR é usado no imperfeito + um infinitivo para substituir o futuro do pretérito.

Tesis: [...]

ao nos depararmos com a língua usada na comunicação do dia-a-dia, percebemos certos usos de imperfeito sem que seu significado denote ação habitual / não concluída ocorrida no tempo passado, ocupando o ambiente sintático-semântico tradicionalmente definido para o uso do futuro do pretérito, como ocorre no slogan de uma famosa marca de lingerie: "Se eu fosse você, só usava Valisere", veiculado através da imprensa falada e escrita.

(negritos e itálicos meus)

Já antigos estudiosos da língua portuguesa verificaram que o futuro do pretérito pode ser substituído pelo imperfeito do indicativo em alguns contextos. Said Ali (1969)1 faz tal constatação no português do Brasil do inicio deste século. Podemos ir ainda mais longe: Vaz Leão ( 1961 ), ao coletar periodos hipotéticos em textos literários, mostra que o imperfeito do indicativo aparece neste contexto desde a época do português arcaico.

[Nota-se: Isso tambén inclui o PRETÉRITO IMPERFEITO EM PERÍFRASE (IA + V [infinitivo])

O caso discutido em nossa pergunta aqui:

Se encontra na tesis:

Português informal no Rio de Janeiro

  • PRETÉRITO IMPERFEITO EM PERÍFRASE (IA + V [infinitivo])

Se eu fosse você, só ia usar Valisere.

Por transformação baseada nessa regra, podemos escrever:

Se eu fosse você, só usaria Valisere.

[O sentido não muda.]

Ou seja, a subsituição é IA + infinitivo para o futuro do pretérito. Isso sim.

Na frase da pergunta: Eu até deixava aqui o meu site de memes originais, não seria uma frase bem feita, nem em linguagem coloquial.

Seria: Eu até ia deixar [ou deixaria] site de memes originais* [etc].

O futuro do pretérito, seja o formal [deixaria] ou informal [ia deixar, linguagem falada] "pode ser substituído pelo imperfeito do indicativo em alguns contextos", mais não na frase da pergunta.

Por exemplo: Eu até gostaria de viajar pelo mundo. não é: Eu até gostava de viajar pelo mundo.

Se fosse possível sistematicamente a substituição do futuro do pretérito pelo imperfeito, a communicação da frase acima se tornaria impossível.

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    Estás enganada. A frase em questão — “Eu até deixava aqui o meu site […]” — está perfeitamente correta. Tem o mesmo significado que “eu até deixaria aqui […]”, mas não que “eu até ia deixar aqui […]”; porque este deixava/deixaria tem valor modal e não temporal. Está tudo muito bem explicado na resposta do Artefacto. Aliás, a resposta do Centaurus mostra que esta frase é também perfeitamente aceitável no Brasil. E encontras exemplos deste tipo de uso do imperfeito em várias gramáticas. – Jacinto Nov 13 '19 at 16:37
  • Claro, em certos contextos (veja minha resposta acima) "o futuro do pretérito pode ser substituído pelo imperfeito do indicativo nas afirmações condicionadas: se tivesse estudado, tinha um bom emprego." Aqui, a frase não é condicionada. Estudo universitário: lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/60707/… – Lambie Nov 13 '19 at 18:48
  • 1
    A frase está condicionada, sim senhor. A condição está implícita. Está tudo explicado na resposta do Artefacto. Poderias também dizer, naturalmente, "eu até deixaria aqui o meu site [...]", mas não podes dizer aquilo que tu sugeres, "eu até ia deixar aqui o meu site [...]", porque isto tem um significado diferente. – Jacinto Nov 13 '19 at 21:19
  • @Jacinto: Tudo bem. Se pensas que "Eu até deixava aqui o meu site de memes originais, para quem está a dizer que gosta dos memes em Brasileiro, mas depois eles estragavam o 9GAG." tem condição implícita, não tenho mais nada que dizer ao respeito. Não vejo leitura de uma afirmação condicionada possível. Eu acho que não disse que ia estragar e estragaria seriam 100% iguais em termos de sentido. – Lambie Nov 13 '19 at 23:07
  • Tem, sim, condição implícita, tal como explicado na resposta do Artefacto. A frase é equivalente a "eu até deixava [= deixaria] aqui o meu site [...] se eles não fossem depois estragar o 9GAG". Não vejo nenhuma outra interpretação possível. Qual é a tua interpretação? Isto é uma tipo de frase comum em Portugal. Exemplo mais simples: "eu até comprava, mas não tenho dinheiro" = "eu até comprava se tivesse dinheiro". – Jacinto Nov 14 '19 at 8:19

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