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Eu ia já todo lampeiro dizer que não havia palavras que começassem por lh ou nh, mas por descargo de consciência consultei um dicionário, e há. Poucas, mas há.

Por lh temos, claro está, lhe, lho, lha (eu não lhe contei nada) e ainda lhama (tecido de ouro, prata ou cobre prateado ou dourado; variante de lama, o animal), lhano (sincero, franco), lhaneza (franqueza), lhanura (planura), lheguelhé (João-ninguém), lheísmo (substituição no tratamento por voçê dos pronomes o e a por lhe), e o meu favorito, lhufas (pronome indefinido, nada, coisa nenhuma, equivalente a népias no ptPT). E é tudo.

Começando por nh, o Houaiss tem uma página inteira, entre as 62,4 da letra n, e as 3800 do dicionário inteiro. A grande maioria são de origem ameríndia, principalmente tupi. Algumas são de origem africana. Outras têm origem no italiano (nhoque) ou no português (como nhô, nhonhô, de senhor). Mas mesmo uma página inteira é muito pouco. Mesmo o z tem 15, e o x 9 mais 34 do ch.

Qual a razão desta raridade? Imagino que tenha que ver com a maneira como os sons representados por lh e nh evoluíram do latim; e que por alguma razão essa evolução não se tenha dado em início de palavra. Espero que os nossos latinistas saibam explicar isto como deve ser.

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Vou desenvolver um pouco a resposta de @tchrist, já que a citação que ele fez exemplifica o caso do desenvolvimento ⟨lh⟩ e não explica ⟨nh⟩. Mas em resumo, a resposta é a mesma: não há ⟨lh-, nh-⟩ em início de palavra pois os fenômenos que desenvolveram estes sons não ocorreram em início de palavra (exceto em "lhe(o/a)" e já explico o porque).

Primeiramente, em nosso vocabulário há palavras que começam com ⟨lh-⟩, mas que são vindas doutras línguas ("lhama", "Lhasa-Apso"), ou formadas no português através de neologismos, onomatopeias e reduções ("lhufas < bulhufas"). O mesmo ocorre para o dígrafo ⟨nh⟩ ("nheco", "nheengatu", "nhá < sinhá", "nhô < sinhô").

A maior parte das palavras com esses sons foram criadas por um fenômeno chamado iotização. Iotização é uma forma de palatização desencadeada quando uma consoante se funde com um som palatal próximo (geralmente a semivogal /j/). Enquanto que palatização é uma alteração fonética de um som não-palatal que torna-se palatal (neste caso /l > ʎ/ e /n > ɲ/).

Dos fenômenos que formaram o ⟨lh⟩

No primeiro caso, /ʎ/ surgiu do /-lj-/ ou /-jl-/ intervocálico. Esse /j/ ocorria no latim vulgar em locais onde, no latim clássico, haviam /i/ ou /e/. Em notação fonética, as mudanças foram, do latim clássico ao latim vulgar e ao português:

LATIM > VULGAR > PORT. -- EXEMPLO
/VliV > VljV   > VʎV/  -- "melior >  melhor"
/VleV > VljV   > VʎV/  -- "valeo  > valho" (primeira pessoa do verbo "valer")
/VilV > VjlV   > VʎV/  -- "ille   > lhe"

Onde /V/ é uma vogal qualquer. 

No proto-português as consoantes /c/ e /g/ pós-vocálica, quando ocorria antes de outra consoante, transformou-se em /j/. Por exemplo, "oito", que veio do latim "octo", além de "noite < noctem" e "leito < lectum". Esse fenômeno também aconteceu antes do /l/, por exemplo, o latim vulgar "mac'la" (vinda do latim clássico "macula") transformou-se no proto-português /majla/ que, por iotização, virou "malha". Veja a lista dessas mudanças em notação fonética:

LATIM  > VULGAR > PROTO > PORT.  EXEMPLO
/VkulV > VklV   > VjlV  > VʎV/   "aurecula  > *orec'la   > orelha"
/VtulV > VklV   > VjlV  > VʎV/   "vetulum   > *vec'lu    > velho"
/VgulV > VglV   > VjlV  > VʎV/   "coagulare > *coag'lare > coalhar"

Como pôde ver, não há como este som aparecer no início de palavra, pois:

  • A primeira mudança só ocorreu com um /-lj-/ ou /-jl-/ intervocálico (entre vogais), o que só é possível no interior de uma palavra, exceto pelo pronome "lhe", que é um enclítico. Um enclítico é morfologicamente uma palavra individual, mas é fonologicamente ligada a outra. Em português os enclíticos são reconhecidos pelo uso do hífen: "dei-lhe", "dou-te".
  • A segunda mudança ocorreu com /-cl-/ ou /-gl-/ intervocálico, o que só é possível no interior de uma palavra. Palavras como "clave" não transformaram-se em "lhave" pois a transformação /c > j/ só aconteceu após uma vogal, portanto as transformações no proto-português foram "noite < noctem" e "majla < macla", mas não "jlave < clave".

Dos fenômenos que formaram o ⟨nh⟩

Dois dos três fenômenos de formação do ⟨nh⟩ são semelhantes e paralelos ao do ⟨lh⟩.

Primeiro a iotização do /-nj-/ intervocálico do latim vulgar:

LATIM  > VULGAR > PORT.   EXEMPLO
/VniV  > VnjV   > VɲV/    "seniorem > senhor"
/VneV  > VnjV   > VɲV/    "baneum   > banho"

Também há a iotização por semivogais criadas a partir de uma consoante oclusiva pós-vocálica no proto-português:

LATIM  > VULGAR > PORT.  EXEMPLO
/VgnV  > VjnV   > VɲV/   "tam magnum > *tammajno > tamanho"

E, no terceiro caso, o /ɲ/ foi criado após /i/ e antes de outra vogal, tal como especifico aqui:

LATIM > PT ANTIGO > PORT.     EXEMPLO
/i.nõ > ĩ.o       > ĩ.ɲo/     "vinum   > vỹo   > vinho"
/i.na > ĩ.a       > ĩ.ɲa/     "gallina > galỹa > galinha"

Novamente, esses fenômenos não podiam ocorrer no início de palavra pois:

  • O primeiro caso só ocorreu com o /-nj-/ intervocálico, o que não é possível no início de palavras.
  • O segundo caso só ocorreu com o /-gn-/ intervocálico, o que não é possível no início de palavras.
  • O terceiro caso só ocorreu com o /-n-/ após /i/, o que não é possível no início de palavras (pois um /n/ no início de palavra é o primeiro fonema e ocorre após nada, não tem como ele estar, ao mesmo tempo, após /i/ e após nada).

Conclusão

As consequências do fato desses fenômenos terem sido desencadeados sempre após uma vogal e antes de outra são:

  • Não há ⟨lh, nh⟩ no início de palavra; exceto "lhe" que, por ser um enclítico, faz fonologicamente parte do verbo que a antecede ("doulhe") embora que morfologicamente seja uma palavra por si só ("dou-lhe"; além de "lhe dou", no português moderno).
  • ⟨lh, nh⟩ só ocorrem entre duas vogais; exceto "lhe" que, por ser um enclítico, acontece após a vogal final de um verbo conjugado.

Este livro discute essas transformações desde o latim clássico ao latim vulgar e ao galego-português.

5
  • Excelente: eu preciso das coisas explicadas tintim por tintim. Então o /lj/ no início da palavra? Porquê? Por só ocorrer após a sílaba tónica (Gália, parafernália)? – Jacinto Jul 28 '17 at 9:03
  • Como disse, o /-lj-/ devia ser intervocálico para transformar-se em /-ʎ-/. Se ele ocorrer no início da palavra, não tem como ser intervocálico. Perceba que, no português, o ⟨lh⟩ e ⟨nh⟩ ocorre sempre entre duas vogais: "velho", "milho", "filho", "vinho", "senhor". – Seninha Jul 28 '17 at 19:03
  • Sim, mas há alguma razão para só o /lj/ intervocálico se transformar em /-ʎ-/? Bem, na verdade, parece-me que pelo menos em português o /lj/ só ocorre imediatamente a seguir a vogal tónica, o que obriga a ser intervocálico, mas não tenha a certeza se isso é verdade ou se o seria no latim. – Jacinto Jul 29 '17 at 8:35
  • Por exemplo, pelo menos no meu sotaque, liana é /li'jɐnɐ/ e aliado é /ɐli'jadu/, ao contrário de Gália, /'galjɐ/. – Jacinto Jul 29 '17 at 9:10
  • Sim, no português moderno também me parece que /-lj-/ só ocorre imediatamente após vogais tônicas, não sei o motivo. Mas no latim vulgar ibérico, o /-lj-/ ocorria também imediatamente antes de vogais tônicas, tendo gerado o /-ʎ-/ nestas posições (ex.: "semelhante", "melhor", "olhar", "aconselhável" ...). Creio que o fenômeno que criou o /-ʎ-/ só aconteceu nas proximidades de vogais tônicas, seja antes ou depois, pois ainda não encontrei qualquer contraprova disso, exceto em flexões e derivações daquelas palavras (e.g., "olharíamos", "semelhantemente"). – Seninha Jul 29 '17 at 16:01
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A razão pela qual (quase) não há palavras nativas em português começando dessa maneira é porque as mudanças fonológicas do latim que nos dão os dígrafos nh e lh não aconteceram no início da palavra.

De The Romance Languages; Harris & Vincent, Oxford University Press, 1990, pp. 139–140:

[…] In addition, intervocalic /l/ and /n/ were effaced, and geminate /ll nn/ reduced to single /l n/. […]

A wide range of palatal and dental consonants results from the palatalising influence of front vowels and yod as shown in Table 4.4. The development of an affricate /ʧ/ from obstruent + lateral clusters is an innovation peculiar to Galician-Portuguese and Leonese, and stands in strange contrast to the absence of delateralisation in /ʎ/ < /lj/ (compare Port. chave (OPort. [ʧave/]), filho and Sp. llave, hijo (p. 84)). The affricate /ʧ/ later merged with the fricative /ʃ/ in southern dialects (as in French, cf. p. 212). […]

Palatalisations

 ʎ  <  -lj-             filho           < FĬLIUM
       -Cl-             velho           < VĔT(Ŭ)LUM
                        olho            < ŎC(Ŭ)LUM

 ɲ  <  -nj-             vinha           < VĪNEAM
       -jn- < -gn-      lenha           < LIGNAM
       epenthetic ȷ̃       vinho < vĩo     < VĪNUM 

[…]

ʃ < ʧ < Cl-     OPort.  chantar         < PLĀNTARE
                        chave           < CLAVEM
                        chuva < chuiva  < PLŬVIAM
[…]

Mas não tenho nenhuma explicação para lhe / lhes, que parecem ser palavras únicas.

2
  • 1
    Compreendo a palatização em filho e vinha por influência do yod. Mas não a palatização em velho, olho, lenha. Qual foi a vogal frontal nestes casos? -Cl- refere-se a oculum? E portanto estes liu- e nea- não ocorrem no início de palavra em latim? – Jacinto Feb 29 '16 at 10:57
  • 3
    @Jacinto parece que Cl significa "consoante + /l/", então refere às duas, vetulum e oculum. – Dan Getz Feb 29 '16 at 18:11
5

O pronome lhe é derivado do pronome illi (dativo de ille) do latim (e lhe + o > lho, lhe + a > lha, etc.).

Não sei se é um caso de metátese il (illi > /ili/ > /lii/ > /lie/ > /lje/ = lhe) ou se a palatização foi uma consequência da elisão do primeiro i, mas em lhe, lho, etc., o som /lj/ no começo da palavra é um caso raro (e também vem do latim).

Muitas outras palavras começando em lh- vêm do ll- ([ʎ]) do espanhol: lhama, lhaneza, lhano, lhanos, lhanura.

(Etimologias do Aurélio.)

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  • 1
    Sempre às ordens. Tens aí todas as palavras em lh- (do Houaiss) menos o lheguelhé e o lhufas. – Jacinto Feb 29 '16 at 18:52
  • O Aurélio não tem etimologias para lheguelhé e lhufas... – Earthliŋ Feb 29 '16 at 18:56
  • 1
    Houaiss: lheguelhé < lagalhé , origem obscura; diz-se resultar da soletração lê + agá + é = lhé (l + h+ e = lhé), João Ribeiro (Frases feitas) relaciona com leguleio na aceção pejorativa «o rábula que conhece apenas de memória o texto das leis e não tem carta para advogar»; lhufas < bulhufas, vocativo onomatopeico [mas de quê?!] – Jacinto Feb 29 '16 at 19:08

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