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Eu sempre disse vende-se casas e frases do tipo, considerando que existe ali um sujeito indeterminado. Esse tipo de uso é reconhecido há mais de 100 anos, como analisado – e aceito – por Said Aliem 1908 (!). Até o Evanildo Bechara, um dos gramáticos brasileiros mais tradicionais, reconhece esse uso, embora o recrimine.

Mais recentemente, vimos uma ofensiva das gramáticas normativas contra esse uso, dizendo que sempre se deveria usar vendem-se casas, onde o "se" é interpretado como agente da passiva, tendo a frase o sentido de "casas são vendidas".

Afinal, onde está o erro em considerar que a frase tem sujeito indeterminado? Ela não faz mais sentido do que considerar que a frase está na voz passiva sintética?

  • Vendem-se casas é voz passiva, e "casas" é o agente da passiva. Formalmente, sim, é errado, e pode resultar em perda de pontos em uma avaliação. Ms a língua é feita pelas pessoas que a falam e, como tal, muda. Hoje já é aceitável usar "Vende-se casas" no português (Brasileiro) coloquial, e a tendência é que deixe de ser formalmente exigido obedecer ao agente da passiva no futuro. – Fernando Cordeiro Jul 15 '15 at 5:59
  • Mas é justamente isso que eu estou questionando. Pode-se interpretar como voz passiva ou não. Aliás, a minha frase anterior tem sujeito indeterminado ou está na voz passiva? Para mim ambas as interpretações são possíveis e válidas, não entendo por que os gramáticos cismam em querer vetar uma delas. – bfavaretto Jul 15 '15 at 18:26
  • 2
    Aí é que está o problema. Temos academias de letras e gramáticos. Enquanto eles decidirem que uma das interpretações tem precedência, essa é a norma culta. São as desvantagens de centralizar decisões que padronizem a língua. O ideal é que lingüistas cobrem um relaxamento disso, a meu ver. – Fernando Cordeiro Jul 15 '15 at 20:05
  • Concordo, @FernandoCordeiro. No fundo eu perguntei pra provocar um comentário como esse seu :) – bfavaretto Jul 15 '15 at 22:55
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As três obras que consultei descrevem todas usos do clítico impessoal com verbos transitivos e não os apontam como desvio, ainda que possam indicar a existência opiniões em sentido distinto (e com a ressalva que só talvez a primeira se poderá considerar normativa).

João Andrade Peres e Telmo Móia em Áreas Críticas da Língua Portuguesa (p. 234, mantida a ortografia):

O clítico se impessoal é uma expressão que indica a existência de um sujeito indeterminado numa frase. Observem-se os seguintes três exemplos:
    (814) Naquela festa, cantou-se a noite inteira.
    (815) Vive-se bem países de clima mediterrânico.
    (816) Ouve-se ruídos durante a noite.
Este clítico impessoal acompanha sempre formas verbais singulares. [...] Distingue-se [...] do clítico apassivante, que pode ser combinado [...] com formas verbais singulares e plurais. Distingue-se ainda do clítico apassivante no que respeita ao tipo de verbos com que se pode combinar. Com efeito, pode surgir tanto em frases com verbos intransitivos — do tipo de (814) e (815), em que temos os verbos cantar e viver, respectivamente — como em frases com verbos transitivos — do tipo de (816), em que temos o verbo ouvir. Já o clítico se passivo só é compatível, como vimos, com verbos transitivos.

E a ressalva (negrito meu):

A propósito desta questão, importa notar que alguns puristas apenas admitem construções em que o clítico se impessoal se combina com verbos intransitivos, rejeitando, pois, frases em que o verbo é transitivo e tem um segundo argumento não preposicionado com que não concorda, como acontece nas seguintes frases:
    (817) Ouve-se vários ruídos durante toda a noite.
    (818) Recitou-se verbos de Pessoa.
    (818) Vende-se casas.
Como a alternativa a estas estruturas, propõem construções passivas de clítico, em que o verbo surge na forma plural. [...] Na nossa opinião, ambas as construções são aceitáveis, embora admitamos que se possa preferir uma ou outra por razões estilísticas. A nossa posição resulta da consideração de dois factores: por um lado, a aceitação generalizada por parte dos falantes que o uso clítico impessoal com verbos transitivos parece ter; por outro lado, o facto de não julgarmos haver razões — estruturais ou semânticas — para aceitar a construção com clítico impessoal nuns casos e rejeitá-la noutros.

E desvalorizam o facto de isto gerar frases estruturalmente ambíguas (p. 235):

No que respeita aos casos em que a forma verbal é transitiva e singular, pode verificar-se uma de duas situações: ou o segundo argumento do verbo é plural — caso em que não concorda com o verbo —, e estamos perante uma construção impessoal [...], ou o segundo argumento é singular, [...] — comprou-se um livro encadernado. Admitimos duas possibilidades de análise estrutural deste tipo de frases — como construções passivas (em que o argumento interno — neste caso, um livro encadernado — é sujeito) e como construções impessoais (em que temos um sujeito indeterminado e o argumento interno é complemento direto). Pode-se, pois, dizer que [tais] frases [...] são estrutalmente ambíguas. Trata-se, no entanto, de uma ambiguidade estritamente sintática, que não tem consequências ao nível semântico, já que a informação veiculada é a mesma nas duas construções. Na frase [atrás], por exemplo, temos a mesma relação — denotada pelo verbo comprar — entre um Agente em ambos os casos indeterminado e um mesmo Paciente — representado por um livro encadernado.

Quanto à Gramática do Português da Gulbenkian, esta vai na mesma linha. No capítulo 13 ("Orações Ativas, Passivas, Incoativas e Médias"), na página 446:

[As orações ativas de se impessoal podem] conter um verbo transitivo (cf. nesta praia, vende-se apartamentos, parafraseável por ‘nesta praia, {as pessoas/há pessoas que} vendem apartamentos’ ou ‘nesta praia, alguém vende apartamentos’) [...].

Há pequena nota de rodapé depois do exemplo “Descobriu-se os genes no séc. XX”:

Exemplos deste tipo, com um verbo transitivo no singular e sintagma nominal plural, são frequentemente estigmatizados na norma padrão.

No capítulo 11, há alguma especulação em relação ao motivo da rejeição por alguns da construção impessoal (p. 392):

A construção de se impessoal ilustrada em (69d) [“Comeu-se morangos à sobremesa”], com o verbo no singular e com um complemento direto plural, é por vezes estigmatizada, plausivelmente em virtude de estar em concorrência com a construção passiva pronominal comeram-se morangos à sobremesa, na qual o argumento interno se realiza como sujeito gramatical, concordando com o verbo. Outro par de exemplos do mesmo tipo, frequentemente citado na literatura gramatical, vende-se casas vs. vendem-se casas. Esse estigma deve-se talvez ao facto de os verbos verdadeiramente impessoais ­— que não selecionam um sujeito, como haver ­— serem raros e relativamente marcados em português [...]. Em (69d) e similares, os falantes porventura reagem mal à presença de um sintagma nominal que poderia funionar como sujeito mas não funciona — o argumento interno SN —, preferindo a construção alternativa em que esse argumento assume efetivamente a função de sujeito — ou seja, a construção passiva pronominal.

Por fim, Mira Mateus et al, em Gramática da Língua Portuguesa (6ª ed., p. 836, referências omitidas):

Em frases como as seguintes, o sujeito frásico, que denota uma entidade arbitrária, é assinalado pelo clítico se. Estamos pertante o que alguns autores designaram por clítico sujeito impessoal ou indeterminado e outros se-nominativo.
(40) (a) A grande questão está naquilo em que se acredita.
        (b) Aluga-se casas.
        (c) Trabalha-se demais.
O sujeito associado a este clítico é interpretado como indefinido e não-específico, sendo parafraseável por expressões nominais como alguém.

  • Excelente! Só não percebi uma coisa: na primeira fonte citada, qual é a diferença entre os exemplos (816) e (817)? Não vejo como o quantificador possa interferir na transitividade do verbo. – bfavaretto Dec 15 '15 at 2:35
  • @bfavaretto Não há nenhuma. Simplesmente os autores decidiram não reciclar os exemplos. Estão a fazer comentários distintos em relação aos dois grupos de exemplos. – Artefacto Dec 15 '15 at 2:42
  • Há só uma coisa que não percebo na tua resposta. Começas com "as três obras que consultei dizem que sim." Mas dizem que sim a quê? Certamente não a ser "errado dizer 'vende-se casas'?". – Jacinto Dec 15 '15 at 8:41
  • @Jacinto hmm troquei um "não" por "sim". Editei a resposta para ficar claro. – Artefacto Dec 15 '15 at 9:46
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Para mim, a gramática tradicional é neste ponto incoerente e absurda. Aqui está o que eu apurei.

Na gramática tradicional, a voz passiva sintética (VPS) funciona somente com verbos transitivos diretos, tal como a analítica, e do seguinte modo a partir da voz ativa (VA):

(a1 VA) Nós bebemos vinho; (a2 VPS) bebe-se vinho.

(b1 VA) Nós bebemos uns copos de vinho; (a2 VPS) bebem-se uns copos de vinho.

Ou seja, o objeto direto da VA, vinho, uns copos de vinho, passa a sujeito oficial da VPS, e o se de algum modo 'apassiva' o verbo. O verbo está na terceira pessoa e concorda em número com o 'sujeito oficial'.

Depois existe a voz ativa com o pronome indefinido se ou índice de indeterminação do sujeito se (VASI para voz ativa com sujeito indeterminado). Na gramática tradicional, Isto funciona com verbos intransitivos e verbos transitivos indiretos (Vti), mas não com verbos transitivos diretos. O verbo fica sempre na terceira pessoa do singular.

Portanto, de acordo com a gramática tradicional, vende-se casas está errado porque:

  1. Não é VPS porque o verbo não concorda em número com o sujeito oficial, casas.
  2. Não é VASI, porque a VASI não admite verbos transitivos diretos como vender.

Ora aí está! Agora a gramática tradicional admite umas coisas curiosas. As frases seguintes são exemplos legítimos de VASI:

(c1 VA) Vamos à festa; (c2 VASI) vai-se à festa. (Verbo intransitivo.)

(d1) VA) Gostamos de vinho; (d2 VASI) gosta-se de vinho. (Vti)

(e1 VA) Gostamos de uns copos de vinho; (e2 VASI) gosta-se de uns copos de vinho. (Vti)

Portanto na frase seguinte,

(d2) Gosta-se de vinho, (a2) bebe-se vinho,

de acordo com a gramática tradicional, vinho é objeto indireto de (d2) e sujeito de (a2)! Porque gostar é transitivo indireto, e beber é transitivo direto! E vejamo agora a frase seguinte:

Foi um belo dia: (f1) foi-se à praia; (f2) deu-se um mergulho; (f3) comeu-se uma sardinhada; (f4) falou-se das novidades.

De acordo com a gramática tradicional, (f1) é VASI, (f2) é VPS com sujeito mergulho, (f3) é VPS com sujeito sardinhada, e (f4) é novamente VASI.

Eh pá, eu acho que qualquer pessoa normal olha para aquela frase e diz que o sujeito é o mesmo em todas as orações (f1) a (f4), que é um sujeito formalmente indeterminado, mas que é um grupo de pessoas que provavelmente inclui o locutor: eles foram à praia e fizeram aquelas coisas todas. A recusa em aceitar que (f2) e (f3) sejam VASI, porque os verbos são transitivos diretos, parece-me resultar unicamente de não se querer que haja frases que possam ser VPS e VASI ao mesmo tempo. E é por isso, caro bfavaretto, que estás a violar a boa gramática quando dizes vende-se casas!

Mas... mas... mas encontrei estas páginas todas no cibedúvidas que com mais ou menos entusiasmo aceitam construções a análogas a vende-se casas, isto é, VASI com verbos transitivos diretos

  1. Aceita sem reservas fala-se línguas estrageiras.
  2. Aceita sem reservas vende-se maçãs.
  3. Aceita vende-se parafusos, mas diz que há gramáticos do bons que o "repudiam fortemente," e que há outras maneiras de dizer.
  4. Diz que a forma correta é veem-se as nuvens e não vê-se as nuvens , mas lá diz numa nota de rodapé com letras minúsculas que há certas gramáticas que aceitam as duas.

Nota: lembrei-me de responder a esta questão depois de ter andado a investigar estas coisas para estoutra pergunta.

  • Gostei, você mostrou bem certas incoerências das gramáticas normativas. – bfavaretto Nov 23 '15 at 16:31
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Pesquisei no google a mesma questão e acabei por achar uma parecida se não igual, segundo a resposta é correto dizer vendem-se ou vende-se, eis a explicação:

Se - palavra apassivante ou apassivadora e pronome indefinido; este, como indeterminante do sujeito.

  1. É palavra apassivante, quando, ligada ao verbo, o torna de valor passivo:
    • Alugam-se quartos.
      É o mesmo que «Quartos são alugados», embora não digamos assim. Mas uma coisa é ter sentido, valor passivo; outra é podermos dizer «Quartos são alugados», ou «São alugados quartos», que são frases que, assim isoladas, não empregamos. Aqui, quartos é o sujeito.
  2. A outra função é a de pronome indefinido. Chama-se assim, porque indefine o sujeito, indetermina-o:
    • Aqui está-se bem. Na África, morre-se de fome.
      Estas frases não as podemos transformar em «Aqui é estado bem», «Na África é morrido de fome».

Seguindo este raciocínio, são corretas estas duas construções:

  1. «Falam-se línguas estrangeiras.»
  2. «Fala-se línguas estrangeiras.»

Na primeira frase, temos a voz passiva, à semelhança da frase «Alugam-se quartos». O se é palavra apassivante (e não pronome).

Na segunda frase, temos a indeterminação do sujeito, como em «Aqui está-se bem. Na África morre-se», operada pela palavra apassivante ou apassivadora se Empregamos esta construção, quando não sabemos qual é o sujeito ou, sabendo-o, não o queremos determinar. Neste caso, o verbo fica na 3.ª pessoa do singular.

  • 2
    Em Portugal é mais comum dizer "alugam-se quartos" ou "aluga-se quartos"? – bfavaretto Jul 15 '15 at 1:01
  • 1
    Eu arriscaria a dizer alugam-se quartos em vez de aluga-se quartos, isto porque alugam-se poderia ser interpretado como plural enquanto que o aluga-se seria singular. Porém, isto não é levado à regra até porque normalmente as pessoas numa conversa conseguem entender, levando a que isto se torne hábito e passe de gerações a gerações, ficando assim entranhado nas raízes da língua. Para terminar, fiz uma pequena pesquisa em um site de classificados onde pesquisei por aluga-se quartos, vê por ti mesmo, espero que isto ajude! – RebeloX Jul 15 '15 at 14:00
  • 1
    Em está-se o pronome se não indicada indeterminação, mas sim que o sujeito a que se refere está implícito. Neste sentido, estar é um verbo reflexivo. – someonewithpc Aug 7 '15 at 8:31
  • Estar nesse contexto, reflexivo? Eu não digo estou-me bem. Quando muito, estou-me nas tintas. – Jacinto Sep 28 '15 at 18:50
  • @RebeloX Fui ver os classificados, mas desisti à terceira página. O pessoal só tem uma casa ou quarto para arrendar, logo não dá para testar o arrenda-se/vende-se/aluga-se casas. – Jacinto Nov 22 '15 at 19:24
1

Penso que o raciocínio do gramático tradicional é o seguinte:

Na Praia do Palmito, vendem casas pela hora da morte.

É um caso em que o sujeito é evidentemente indeterminado. Alguém vende casas pela hora da morte. Quem? O ouvinte que descubra. E, portanto, a construção pronominal deve conter um pronome indeterminativo:

Na Praia do Palmito, vende-se casas pela hora da morte.

Mas vejamos o caso seguinte:

Aqui na Imobiliária Acredite Se Quiser, vende-se casas a preços ridículos.

Ou

Aqui na Imobiliária Acredite Se Quiser, vendem-se casas a preços ridículos.

Existem aqui dois possíveis significados:

  • Primeiro, pode ser que se esteja dizendo que a imobiliária vende casas por preços ridículos.
  • Segundo, pode ser que se esteja dizendo que clientes da imobiliária vão lá e vendem suas casas por preços ridículos.

E neste caso, somente a segunda acepção é indeterminada; a primeira tem um pronome oculto bem determinado, "nós":

Aqui na Imobiliária Acredite Se Quiser, vendemos casas a preços ridículos.

Ora, como não há indeterminação aqui, o pronome não pode ser indeterminativo. Ele tem de ser apassivador, por que a construção é passiva:

Aqui na Imobiliária Acredite Se Quiser, casas são vendidas (por nós) a preços ridículos.

Já a segunda acepção é obviamente indeterminada:

Aqui na Imobiliária Acredite Se Quiser, casas são vendidas (por alguém, não por nós) a preços ridículos.

E aí a lógica é que a primeira acepção, sendo uma construção passiva, tem o objeto da frase na voz ativa por sujeito. As casas é que são vendidas, logo, vendem-se as casas.


O problema é que essa é uma distinção que os falantes - e os "escreventes" - não fazem mais. Para o falante médio do português, e mesmo para uma boa parte dos mais sofisticados, "as casas" não é sujeito dessas construções em nenhum caso; é sempre objeto. E o verbo não concorda com o objeto.


Na dúvida, eu usaria sempre as construções ativas. São mais elegantes e não deixam margem a ambiguidades.

Aqui na Imobiliária Acredite Se Quiser, vendemos casas a preços ridículos.

Se você acreditar, vá lá, para comprar uma casa barata.

Aqui na Imobiliária Acredite Se Quiser, vendem casas a preços ridículos.

Vá lá, se você quiser vender sua casa por muito menos do que ela vale...

  • Concordo com seu raciocínio, mas tem mais uma coisa: vários "gramáticos" (de botequim) costumam reclamar de placas onde se lê (hehe) apenas "Vende-se casas". Nesse caso o contexto é bem vago. – bfavaretto Sep 12 '18 at 22:13

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