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Há muitos anos, quando ainda não existia "a dengue" no Brasil, e muito menos "a cólera", aprendi na faculdade de medicina que as doenças "dengue" e "cólera" são substantivos masculinos: "o dengue se alastra", "o amor nos tempos do cólera". Que "grama", a unidade de peso, é do gênero masculino, aprendi no curso secundário. O meu Aurélio, 2ª edição, Editora Nova Fronteira, corrobora o que aprendi. Contudo, tenho que admitir que em 2016 a maioria dos Brasileiros, incluindo a mídia, usa as três palavras como se fossem do gênero feminino. A minha pergunta então é: é aceitável dizer "trezentas gramas de farinha", "a dengue atingiu 25000 pessoas neste verão", "parece que a cólera deu uma trégua...". Ou melhor, nos casos acima, o uso popular consagra como correto?

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  • De acordo com os dicionários que consultei, dengue é substantivo feminino, e cólera pode ser feminino ou masculino, então não aparece que são casos de "uso popular".
    – Dan Getz
    Feb 14 '16 at 14:32
  • Oops, já achei um dicionário que diz que dengue é masculino. Interessante. O Priberam e o Michaelis dizem feminino, e o Infopedia masculino.
    – Dan Getz
    Feb 14 '16 at 14:34
  • @DanGetz Meu Aurélio é de 1994. É provável que os dicionários que tu consultaste já tenham aderido ao "uso popular".
    – Centaurus
    Feb 14 '16 at 17:49
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Cólera

Sempre ouvi como feminino; o Priberam marca-o como feminino, o Aulete como dois géneros. Uma pesquisa no CETEMPúblico mostra esta palavra invarialmente usada como nome feminino. A gramática de Bechara dá uma explicação para o uso como masculino, que se deve a ser um nome composto formado irregularmente:

Os compostos são uma espécie de construção sintática abreviada, de modo que, se são constituídos por substantivos variáveis (biformes), o determinante (a 2.ª unidade) concorda com o gênero do determinado e é responsável pelo gênero do composto: a batata-rainha e não a batata-rei, a ponta-seca (instrumento de corte)

[...]

Contrariamente ao gênero da língua e por imitação inglesa, passou-se a usar de compostos em que o determinante, invariável, ocupa o primeiro lugar, e o determinado o segundo, ficando o gênero do composto regulado por este último elemento: a ferrovia, a aeromoça.

Segundo Martinz de Aguiar, por esta porta é que nos chegou o masculino de o cólera-morbo (morbo, latino, é masculino) e, na forma reduzida, o cólera, e não por influência francesa. A passagem ao hoje mais usual e aceito a cólera-morbo, a cólera, se deveu à analogia com o processo regular no português.

O vocabulário oficial marca quer cólera, quer cólera-morbo como feminino. Parece-me que é seguro dizer que a forma feminina foi a que vingou.

Dengue

Tenho ideia de ouvir dengue mais como nome masculino. O CETEMPúblico tem apenas uma entrada onde se pode discernir o género, e é masculino. Uma pesquisa no Google em jornais portugueses mostra que o uso oscila entre masculino e o feminino sem nenhum padrão à vista.

O Priberam e o Aulete marcam o nome como feminino, mas o vocabulário oficial marca-o como masculino.

Conclusão: as duas formas parecem coexistir. O que é curioso é nenhuma fonte que consultei marcar o nome como de dois géneros.

Grama

Este é um caso em que há fortes razões estruturais para usar o masculino. Ninguém diz uma kilograma, e uma miligrama parece ser também infrequente (~10-20x menos frequente a julgar pelo número de resultados no Google), portanto porquê uma grama?

O Priberam marca-o como masculino, mas o Aulete admite os dois géneros. O vocabulário oficial lista lemas para os dois casos, o que é de esperar dado que grama também existe como nome feminino. Parece-me que, no mínimo por uma questão de consistência, a forma masculina é recomendável. Além disso, falantes cultos (pelo menos em Portugal) usam preferencialmente o masculino -- o CETEMPúblico só tem ocorrências no masculino.

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  • Desculpe a minha ignorância, mas o que é o CETEMPúblico?
    – Centaurus
    Feb 14 '16 at 23:40
  • Presumo que "a cólera" da tua resposta refere-se à infecção causada pelo Vibrio cholerae.
    – Centaurus
    Feb 14 '16 at 23:45
  • Aqui no Brasil, quando surgiu a primeira grande epidemia de dengue na década de 90 do século passado, os meios de comunicação diziam "a dengue". Os médicos tentavam corrigir: "está errado, é masculino, é o dengue". Mas o povo nunca tinha ouvido falar na doença anteriormente e passou a usar o gênero usado pela televisão: a dengue. E assim ficou. Hoje em dia eu mesmo falo "a dengue" para não soar pedante, pois 99% dos brasileiros assim falam.
    – Centaurus
    Feb 14 '16 at 23:50
  • @Centaurus É um corpus de artigos dos anos 80/90 de um jornal de referência português. Adicionei um link. Em relação a cólera, refiro-me à doença, sim.
    – Artefacto
    Feb 15 '16 at 0:50
  • Em tempo, muita gente fala "uma miligrama" por aqui. Principalmente quando se trata de medicamentos. "Doutor, o senhor pode me dar uma receita de Rivotril de uma miligrama?" Ouve-se muito. Já uma quilograma eu nunca ouvi, porque quase ninguém usa essa palavra. no dia-a-dia. Na feira, no mercado, e no açougue, todos dizem "um quilo".
    – Centaurus
    Feb 15 '16 at 1:09

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