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Ando a ler o Dom Casmurro de Machado de Assis (1899), e deparei-me com umas frases curiosas para padrões atuais, pelo menos para os meus:

Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provável do meu interluctor, desde que a matéria não me agrava, aborrece ou impõe.

Aqui o narrador e protagonista escreve depois de se ter separado de Capitu, a sua apaixonada:

Outra vez senti os beiços de Capitu. Talvez abuso um pouco das reminiscências osculares; mas a saudade é isso mesmo; é o passar e repassar das memórias antigas.

Ora eu, e creio que toda a gente hoje, nas frases acima escreveria agrave, aborreça ou imponha e abuse. Que é que se passa, o uso do subjuntivo é hoje de facto obrigatório nestas situações? As passagens do Machado de Assis parecem indicar que já foi normal usar o indicativo a seguir a talvez e desde que. Quando é que deixou de o ser? Que outros exemplos mais ou menos recentes há do uso do indicativo em situações semelhantes?

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    No primeiro trecho achei confuso o uso do indicativo após "desde que". Mas no segundo, ele poderia estar se referindo a ele mesmo como ele lembra demais dos beijos de Capitu, justificando que a saudade causa isso nele, por isso o Indicativo – tdmsoares Jan 2 '16 at 17:30
  • @tdmsoares O narrador, que é o protagonista, está a falar de si mesmo. Agora se isso hoje em dia não justificaria, creio, dizer «talvez abuso». Mas a pergunta é em parte sobre isso.No link da pergunta tens o texto completo. – Jacinto Jan 2 '16 at 18:51
  • Jacinto, com o Acordo Ortográfico entrando em vigor no dia primeiro deste mês, "fato" deixou de ter "c" (risos) – Centaurus Jan 3 '16 at 12:43
  • Não sei explicar porque o uso, mas vamos lembrar que Machado de Assis é um escritor brasileiro do século XIX, em uma época em que ptPT e ptBR eram mais semelhantes entre si. Se há formas curiosas para ti em Dom Casmurro, para nós brasileiros do século XXI elas são tantas quanto ou mais. – Centaurus Jan 3 '16 at 12:46
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    O "c" de facto é pronunciado em Portugal, por isso mantemo-lo. É uma das palavras com dupla ortografia. – Jacinto Jan 3 '16 at 12:55
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Concordo que essas duas construções não são aceites pela maioria dos falantes europeus, especialmente a primeira. Trocar aí o subjuntivo pelo indicativo altera a interpretação de desde que duma conjunção condicional para uma conjunção temporal, como mostram estas duas frases:

(1) Desde que traga provas, acredito nele.
(2) Desde que traz provas, acredito nele.

No caso de um talvez preposto ao verbo, eu também rejeitaria frases como as que dás, ou como esta do CETEMPúblico:

(3) par=ext1336771-clt-92a-2: No entanto, se está de passagem, talvez é mais sensato apanhar o autocarro.

No entanto, repara que se talvez for posposto, já é obrigatório usar o indicativo:

(4) No entanto, se está de passagem, é talvez mais sensato apanhar o autocarro.

Tenho muita dificuldade em encontrar uma diferença semântica entre (3) (com seja) e (4).

No Brasil, a regra parece ser a mesma, pelo menos segundo os dois gramáticos citados nesta dissertação de Tatiana Pimpão (pág. 16). Mas, contrariando esta norma, a autora mostra que o talvez preposto só é acompanhado pelo subjuntivo em 73% das ocorrências num corpus da região sul do Brasil. Sônia dos Santos, na sua tese, analisa um corpus de comunidades rurais afro-brasileiras e, das 14 ocorrências com talvez, o subjuntivo só ocorreu em duas.

Epifânio Dias (1841-1916), na sua Syntaxe histórica portuguesa, admite ambas as formas:

O conjunctivo emprega-se independentemente, a par com o indicativo, nas orações de talvez e quiçá (conjunctivo potencial)
    no mundo todo talvez se não ache um paiz onde.. se encontrem tam villans, tam ridiculas, e absurdas construcções públicas como essas quasi todas que ha um século se fazem em Portugal (Garret, Viag., 180). Talvez foi elle | o primeiro cantor que.. | Soube entoar melodioso um hymno (Herc. Pões. 23).

Portanto a eliminação da hipótese de usar o indicativo com um talvez pré-verbal parece ter acontecido na passagem do séc. XIX para o séc XX. Uma pesquisa no Corpus do Poruguês parece suportar esta suspeita. Só começa a haver ocorrências para talvez [VS*]/[VT*] (talvez seguido de presente ou imperfeito do subjuntivo) no séc. XIX (com um número de ocorrências por total de palavras semelhante à do séc. XX). Já para o indicativo (talvez [VP*]/[VJ*]/[VK*], i.e., talvez seguido do presente, perfeito ou imperfeito do indicativo), temos ocorrências a partir do séc XVII, com um pico no séc XIX e queda acentuada no séc XX. Contudo, o número de ocorrências é reduzido e grande parte são falsos positivos.

Sobre desde que não encontrei muita coisa, e dado que a conjunção pode ter dois significados distintos, não será tarefa fácil contar ocorrências em corpora. Ana Neta, em O uso de formas do indicativo por formas do subjuntivo no português brasileiro mostra que desde que só seleciona o subjuntivo em duas de 10 ocorrências na fala da região Norte-Mineira. Esta tese de doutoramento de Erica Almeida indica a ocorrência do indicativo/subjuntivo ao longo dos séculos com vários conectores concessivos, mas não com desde que.

  • Excelente. Não queres traduzir aqueles [VS*]/[VT*] etc. em português corrente. Tornava a leitura mais fácil. O que é curioso é que eu não me lembro de encontrar estas coisas noutros autores do século XIX. – Jacinto Jan 2 '16 at 22:19
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    @Jacinto Feito. – Artefacto Jan 2 '16 at 22:26
  • A sensible discussion. +1 – Centaurus Jan 3 '16 at 12:48

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