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“Pai” e “mãe” vêm do galaico-português padre e madre, que por sua vez vêm do latim pater, patris e mater, matris. A minha pergunta é se pai e mãe terão começado por ter sido palavras familiares usadas com e por crianças (como mamã, mamãe atualmente) ou se resultaram de evolução fonética comum a outras palavras da língua portuguesa.

A pergunta está feita. Vou agora só apresentar a motivação. Isto é uma ideia que me tem andado na cabeça já há tempo, desde que observei que os britânicos, mesmo adultos, tratam tipicamente os pais por mum e dad e não por mother, father. Mesmo quando falam de eles é mais comum empregarem mum e dad. Em Portugal praticamente só se usa mãe e pai. Pouco se ouve mamã, mãezinha, papá, paizinho. Uma busca no Google parece indicar a mesma coisa para o Brasil: pai – 164 milhões; papai – 21 milhões; mãe – 87 milhões; mamãe – 15 milhões (papá não é comparável porque apanha as línguas castelhana, francesa e italiana). Por comparação: father – 880 milhões; dad – 698 milhões.

A primeira coisa que me ocorreu foi que mum/mom e dad são mais curtas, portanto mais práticas, que mother e father, e encurtar mãe e pai não daria grande resultado. Depois ocorreu-me que pai e mãe pudessem ter começado por ser os equivalentes de dad e mum, coexistindo primeiro com padre e madre, acabando por os eliminar depois. Espero que alguém possa lançar alguma luz sobre esta questão.

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    Talvez haja essa característica da língua em simplificar as palavras mais usadas. Como você, anteriormente vossa mercê, pai e mãe podem ter participado desse mesmo processo – tdmsoares Dec 26 '15 at 13:39
  • @tdmsoares Não me tinha lembrado do vossa mercê. É possível que tenha sido um fenómeno parecido, sim. O meu chamava à minha avó nha mãe (de minha mãe). Acho que em Cabo Verde ainda se fala assim. – Jacinto Dec 26 '15 at 14:20
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    @Jacinto a perda do D não foi tão extendida como a do L ou do N, mais por exemplo temos as formas de vós (-ades -> -ais) e algumas outras palavras (veder -> ver). Mas só quis dizer que se perdeu nestas palavras, não como regra geral. Se o R se trocasse com o D, teríamos madde, e os consoantes duplos nas línguas ibéricas ocidentais se perderam foneticamente (mas no português não até o séc. XX na escritura), assim que teríamos made e dali mae. A rama leonesa também apresenta as formas mai e pai na modernidade, assim que não foi só o galaicoportuguês que tive essa evolução – user0721090601 Dec 27 '15 at 8:36
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    @Jacinto no mirandés, usa-se padre só em contextos religiosos (Padre Nuosso). No asturiano, existem três formas (madre, mai, ma, e padre, pai, pá), padre/madre normalmente só se usam nos sentidos não parentescos (madre é, por exemplo, a última fila no xadrez), e quando se usa parentescamente sem dúvida é por influência castelhana. As formas diminutivas formar-se a base de pa(i) e ma(i) – user0721090601 Dec 27 '15 at 14:47
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    Na minha terra se fala "pade" em vez de "pai" em rezas também, mas só pelos mais idosos. Todos os dias ouço meu avô rezando o "Pade Nosso" em vez do Pai Nosso. Quanto ao sacerdote religioso, também se usa "pade" em vez de "padre". Um sacerdote bastante famoso e conterrâneo meu, o padre Cícero, é chamado popularmente de "Pade Ciço" ou "Padim Ciço" (onde "padim" é a abreviação do diminutivo "padinho", e "Ciço" é a abreviação de "Cícero"). – Seninha Nov 5 '17 at 18:32
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De facto, essa é uma explicação frequentemente avançada. Por exemplo, nesta resposta no Ciberdúvidas de Edite Prada:

O vocábulo pai, que já ocorre no séc. XIII, ainda que pontualmente, tem uma evolução obscura, digamos assim. A versão mais corrente explica a origem da palavra a partir de padre, tendo como origem a generalização de uma pronúncia infantil, em que se verifica a síncope do r: *pade. Seguir-se-ia a síncope do d e a alteração do ponto de articulação da vogal. Teríamos, pois, globalmente, patrem > patre > padre > *pade > pae > pai.

Note-se o evolução obscura. O mesmo diz o Houaiss, referindo-se também a "linguagem infantil":

prov[avelmente] objecto da evolução do lat[im] vulg[ar] patre- > padre > *pade > pai, por infl[uência] da linguagem infantil, que se manifesta ainda nas f[ormas] de redobro papá, em Portugal, e papai, no Brasil; ver pater-; f[ormas] hist[óricas] sXIII pai, sXIII pay, sXV paay, sXV pae, sXV pere.

E por aí adiante; pesquisando pai padre "linguagem infantil" no Google Books encontram-se muitas outras passagens no mesmo sentido. Não se veem, contudo, argumentos, e, quando há citações, todas elas vão parar às Lições de Philologia Portuguesa de José Leite de Vasconcelos, que não mais diz do que «provavelmente por influencia da lingoagem infantil».

Só consegui encontrar um argumento em Carolina Michaëlis de Vasconcellos (login com conta do Google parece ser precisa):

Na bôca das crianças padre transformou-se (como lembrámos já) em pade pela dificuldade que para elas há na pronúncia do grupo consonântico dr, e mesmo na de r simples, um dos fonemas últimos que, em geral, aprendem a balbuciar. Pade passou depois a pá-e pela queda de d intervocálico — seguramente na bôca de párvulos nas suas primeiras tentativas de falar; e pa-e ditongou-se. Do século XVI em diante a forma paí passou, dos círculos familiais à literatura — ao passo que padre se conservou em linguagem eclesiástica.

Em minha opinião, o argumento é bastante especulativo (note-se o «seguramente» na passagem de Carolina de Casconcellos, a qual, é bem sabido, é código em círculos académicos para «não tenho prova alguma de que isto seja verdade»). No Corpus Informatizado do Português Medieval (registo necessário), temos de facto ocorrências de pai em cantigas de escárnio e maldizer do século XIII, por exemplo:

Nom se vaia de Sevilha
ca será gram maravilha
quant’achar, se o nom filha,
ca assi fez[o] seu pai;

Não há qualquer indicação de uma natureza infantil da palavra, mas claro que (1) a amostra é pequena, que (2) pelo século XIII poderia já não ter esse caráter e que (3) os contextos em que essa natureza fosse evidente não ocorrem facilmente.

Silveira Bueno, em Estudos de Filologia Portuguêsa, apresenta ainda uma derivação distinta:

Formados com a vibrante r: br, cr, dr, fr, gr, pr, tr: conservam-se, exceto dr que vocaliza o d em i: [...]
patrem = padre = *paire = *paie = pai; matrem = madre = *maire = *maie = mai = mãe. Estas duas modificações explicamos pelo provençal e pelo francês, pois, as formas paire, maire são as mesmas que hoje encontramos escritas père, mère. A queda da vibrante r intervocálica é rara, mas, já vimos em proram = proa. As formas paie, maie ainda hoje ouvimos na linguagem infantil no Brasil, perdendo-se depois o e final por apócope desde que o i forma ditongo com a precedente. Temos confirmação dêstes nossos desenvolvimentos na palavra fratrem = fradre = fraire = freire = frei e também frade. E ainda em cathedram = *cadedra = cadeira, isto é, a vocalização do d em i.

Não compreendo bem o que quer o autor dizer com «ouvimos ainda hoje na linguagem infantil»; especialmente quando marca paie como forma hipotética. Em todo o caso, o autor defende que fenómenos semelhantes ocorreram (separadamente) em outras palavras, o que tiraria força à hipótese de que a transformação se deve a linguagem infantil.

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    Excelente. Portanto temos pai no sXIII e eu ainda ontem encontrei padre no sXV. Portanto as duas formas coexistiram pelo menos três séculos. Agora poderiam ser familiar/oficial ou popular/culto (as duas coisas não se excluem). A mim agrada-me a ideia de o nosso mãe e pai terem sido o mamã, mamãe, papá, papai de outros tempos. – Jacinto Dec 27 '15 at 8:02

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