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Em Portugal, diz-se e escreve-se nené, e, no Brasil, escreve-se neném e nenê, sendo, pela minha experiência, a primeira forma a mais comum.

Daí vieram-me duas perguntas:

  • A pronúncia fechada da última sílaba de nenê surgiu por conta de alguns imigrantes?
  • Qual é a origem do m de neném?
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  • 1
    Eu acho que em Portugal nem se costuma usar a palavra...
    – Jorge B.
    Dec 11 '15 at 10:44
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As variantes nené e neném já existiam antes de 1840; nenê, provavelmente também, e antes de 1860 existia de certeza. Isto é demasiado cedo para a imigração não portuguesa para o Brasil ter tido alguma influência. Se os africanos ou índios tiveram alguma influência, é que eu já não sei dizer. Esta variação entre Portugal e Brasil tem paralelos noutras palavras, e portanto não é de estranhar. Vou agora comprovar o que disse, começando com a antiguidade das três variantes.

Nené

É a única variante em Portugal. Hoje pode ser rara, mas vem nos dicionários publicados em Portugal desde 1831 (“Menino pequenino”, Moraes Silva). Aparece também nalgumas publicações portuguesas (grafia original e negrito meu em todas as citações):

[…] chama,
Imoralmentenéné,
A uma creança de mamma”
O Panorama, Lisboa, 1855.

[… e]m ella tendo o primeiro néné, baptisado de grátis
Luís de Araújo, A Baroneza dos Dentes, Lisboa, 1872.

Aparece também no Brasil no século XIX:

[…] quando tendo-me em seu collo, embalando-me, dizião «olhem o néné como é tão bonitinho,»
O Novo Domingueiro, Rio de Janeiro, 1847.

[Ó] nené foge que lá vem o tutu !
Diário do Rio de Janeiro, 1856.

Neném

Esta variante aparece já em 1830. Grafava-se sem acento (tal como tambem). Nos segundo e terceiro exemplos, refere-se depreciativamente a adultos.

[…] quando se fala com hum menino, dizem — as nossas amas nenem — quer papá, quer fazer piche &c.
O Amigo do Povo, Pernambuco, 1830.

[…] todos os que não quizerão mamar por cauza do tutu nenem, restauração serão seguros, e sentar-se-lhes-ha praça na Brigada
Diário do Rio de Janeiro, 1833.

— Olhem como é tolo o nenem, diz Demar, toma o mais bonito, e eu se rasgar as minhas calças, hei de ficar só com as cinzentas que já estão cheias de nodoas.
Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1842.

É talvez um baptizado
De nênem afortunado
O Grito Nacional, Rio de Janeiro, 1853.

Nenê

Indubitavelmente como ’criancinha’, encontrei só a partir de 1858, mas já existia em 1834 como alcunha:

Assistimos ao casamento e tú serás o padrinho do primeiro nenê.
Diario do Rio de Janeiro, 1858.

[…] hum individuo conhecido por Côcô, e outro por nênê
Diario do Rio de Janeiro, 1834.

Por esta altura no Brasil, as outras variantes também servem de alcunha: temos um Joaquim da Silva conhecido por Nené (Rio de Janeiro, 1833), uma sinhá Nenem (Espírito Santo, 1850) e um Antonio José de Souza, conhecido por Antonio Onofre Nenem, (Pernambuco, 1855). Nené era também nome oficial: Manoel Rodrigues Nené (Rio Grande do Sul, 1839) e José Cupertino de Abreu Nené (Rio de Janeiro, 1841).

Paralelos com outras palavras

Os dois ee têm timbre aberto em nené e fechado em nenê, daí encontrar-se no passado néné e nênê. Ora esta oposição entre timbre aberto em Portugal e fechado no Brasil encontra paralelos em palavras como género-gênero, efémero-efêmero, cónico-cônico, cómico-cômico, etc., que têm acento agudo em Portugal e circunflexo no Brasil. Segundo a Wikipédia,o acento circunflexo destas palavras no Brasil resulta de nasalação que a vogal tónica sofre por causa da consoante nasal n ou m que se lhe segue, levando isso também ao fechamento do timbre. Em Portugal essa nasalação não ocorre. Este artigo (“Progressive vowel nasalization in Brazilian Portuguese”) conclui que no Brasil ocorre também nasalação na vogal tónica precedida de m ou n, como é o caso do segundo e de nenê. Portanto a oposição entre nené em Portugal e nenê no Brasil enquadra-se perfeitamente num padrão mais geral das diferenças fonológicas entre Portugal e Brasil. O caso de neném pode ser simplesmente um fortalecimento da nasalação já presente em nenê, levando o escritor a sentir necessidade de incluir um m final para indicar a nasalação.

Esta nasalação de vogais por via de eme ou ene seguinte foi muito comum na evolução do latim para o português, e também se encontram casos de nasalação por via de eme ou ene anterior. Portanto esta nasalação que presentemente ocorre no português do brasileiro mas não no europeu não é nada de extraordinário no panorama geral da língua portuguesa. Mas alguns historiadores defenderam (segundo a Wikipédia) que ela resultou de influência dos índios.

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A palavra nenê não existe aqui. O correto para se referenciar a um bebê é neném.

Porém é comum na linguagem informal, as pessoas pronunciarem nenê ao invés de neném, mas essa não é forma correta.

Por conta disso, nenê pode ser usado como nome, como: Nenê de Vila Matilde.

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  • 3
    Os dicionários Aulete e Michaelis não concordam que "não existe". Tem alguma referência para "nenê" ser menos correto do que "neném"? E tem alguma resposta às 2 perguntas originais?
    – Dan Getz
    Mar 12 '16 at 21:36
  • 2
    Eu acho que, na verdade, ambos "nenê" e "neném" são informais. Já ouviu a palavra "neném" ser dita pela mídia? Apenas ouve-se "bebê".
    – Yuuza
    Mar 13 '16 at 5:42
  • 1
    Nenê, e seus sinônimos neném e bebê: dicio.com.br/nene
    – Luciano
    Mar 16 '16 at 11:39
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Os comentários responderam a esta questão.

A pronúncia fechada da última sílaba de nenê surgiu por conta de alguns imigrantes?

Eu acho que em Portugal nem se costuma usar a palavra... só se ouve a palavra bebé – Jorge B. (Parafraseado)

Ou seja,

A denominação para um "nenê", em Portugal, é bebé

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    embora o que escreveste clarifique problemas na pergunta, não responde ao que foi perguntado.
    – ANeves
    Mar 2 '16 at 14:50
  • 1
    @ANeves e Oak, na verdade não clarifica problema na pergunta. Nené já foi usado em Portugal (a palavra bebé é mais tardia) e é isso que é relevante para a pergunta.
    – Jacinto
    Jul 30 '19 at 16:11
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Nenê surgiu no cotidiano da escravidão indígena no Brasil. em tupi significa ’feder’ ou ’fedido’. Diferente dos filhos dos indígenas que sempre eram limpos após fazerem suas necessidades, os filhos dos senhores de engenho ficavam envoltos em panos e não eram limpos na mesma hora. Neste contexto, surge a indígena com "nê-nê" (’muito fedido’), avisando a senhora da casa que o bebê estava sujo. Porém, a senhora pensava que aquilo se travava de um elogio.

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    Antônio, bem-vindo à comunidade. Isso teria acontecido há 300 ou 400 anos, então é importante dizeres como é que sabes que isso aconteceu. Algum dicionário ou estudo sobre o assunto? Depois, a pergunta é porque é que é nené em Portugal e nenê ou nenem no Brasil.
    – Jacinto
    Jul 29 '19 at 6:00

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