O acordo ortográfico, Base X, ponto 2, diz que na palavra rainha o i forma sílaba com o nh! Ora eu sempre pensei que a divisão silábica de rainha fosse ra.i.nha. E na verdade é isso que diz o Aulete digital e o Priberam. Alguém me explica então o significado de i formar sílaba com nh em rainha?

O mesmo se passa com palavras como bainha, moinho, remoinho, etc.. Isto é relevante para a acentuação de i e u precedido de vogal com a qual não formam ditongo, assunto discutido nesta pergunta.

  • Esta resposta do ciberduvidas vai na mesma linha, dizendo que existe um [j̃] que pertence à primeira mas nasalado pela segunda. – Artefacto Nov 29 '15 at 22:00
  • O artigo diz que o nh está na sílaba seguinte. Será então que é como se o n estivesse ao mesmo na sílaba do i para o nazalar e na sílaba do nha? Parece-me de qualquer modo imprecisa a linguagem do AO. Ou será que é gíria consagrada entre linguistas? – Jacinto Nov 29 '15 at 22:11
  • Acho que é o Ciberdúvidas que tem um erro e não o acordo. Ainda consigo admitir "ra.inha", mas agora "rai.nha"... – Artefacto Nov 30 '15 at 2:31
  • Segundo o Ciberdúvidas é ra.i.nha. Eles dizem que o nh na sílaba seguinte faz o i formar sílaba por si próprio. Acho que uma sílaba inha não faria parte da nossa tradição de divisão silábica. – Jacinto Nov 30 '15 at 8:09
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Eu entendo que o Acordo Ortográfico diz que o i de rainha se agrega à consoante seguinte, e por isso se lê ra·in·nha em vez de rai·nha.
O mesmo efeito seria obtido pondo um acento no i (ra·í·nha), como discutido nesta pergunta relacionada que referes: Quais são as regras de acentuação de hiatos e ditongos?

Neste caso, como o i já evita a formação de ditongo ao "colar-se" à consoante seguinte, deixa de ser necessário adicionar o acento.

As vogais tónicas/tônicas grafadas i e u das palavras oxítonas e paroxítonas não levam acento agudo quando, antecedidas de vogal com que não formam ditongo, constituem sílaba com a consoante seguinte, como é o caso de nh, l, m, n, r e z: bainha, moinho, rainha; adail, paul, Raul; Aboim, Coimbra, ruim; ainda, constituinte, oriundo, ruins, triunfo; atrair, demiurgo, influir, influirmos; juiz, raiz, etc.

Portanto, de acordo com a minha leitura deste ponto 2 da Base X do acordo ortográfico, estas palavras leem-se não com o i a formar ditongo com a vogal que o precede, mas com a consoante que lhe segue:

  • ba·in·nha, mo·in·nho, ra·in·nha;
  • a·da·il, pa·ul, Ra·ul;
  • A·bo·im, Co·im·bra, ru·im;
  • a·in·da, cons·ti·tu·in·te, o·ri·un·do, ru·ins, tri·un·fo; a·tra·ir, de·mi·ur·go, in·flu·ir, in·flu·ir·mos;
  • ju·iz, ra·iz,
  • etc

O meu entendimento, no caso de rainha e outros -inh-, é que o i forma uma sílaba anasalada com o apoio do nh que se lhe segue: ra·in·nha ou ra·inh·nha ou ra·im·nha, mo·in·nho ou mo·inh·nho ou mo·im·nho, etc.

  • 1
    nh é uma consoante não, duas. – Artefacto Jun 11 '16 at 15:02
  • @Artefacto sim, mas compare com oriundo: «n» e «d» são duas consoantes separadas, mas o «n» não faz o mesmo papel do que o «d»: em vez de ser consoante fonética, combina com o «u» para ficar /ũ/. A consoante «nh», apesar de ser uma consoante só, desempenha duas funções no mesmo tempo em rainha, como fosse *"raim-nha". Então «constituem sílaba com a consoante seguinte» pode ser mal-escrito, mas de alguma forma refere a esta situação: o «i» forma uma sílaba, mas não é a sílaba /i/: é a sílaba /ĩ/, precisamente por causa duma "combinação" com a consoante seguinte «nh». – Dan Getz Jun 11 '16 at 16:33
  • 2
    @Artefacto, a intenção do teu comentário é pouco clara. A edição corrige o que quiseste apontar? Se não, podes clarificar? – ANeves Jun 11 '16 at 18:13
  • 1
    Eu percebi a ideia, mas parece haver uma contradição entre "se agrega à consoante seguinte, e por isso se lê ra·in·nha" e o texto do acordo: "constituem sílaba com a consoante seguinte, como é o caso de nh". Talvez substituindo o parágrafo inicial com o final e usar "ĩ" em vez de "in" ficasse a resposta mais clara. – Artefacto Jun 12 '16 at 11:15
  • 1
    Já agora, se é isso que o acordo quer dizer, está muito pouco claro. Especialmente se considerarmos que de facto "constituem sílaba com a consoante seguinte" nos outros casos. – Artefacto Jun 12 '16 at 11:18

Não existem sílabas com dois sons de vogal, pelo menos em português; assim, “inha” nunca pode ser uma só sílaba.

A divisão silábica correta é ra.i.nha.

Aliás, a língua é primeiramente falada e só depois escrita, e por isso a escrita segue a fala (por vezes com algum atraso). Tente dizer “rainha” mantendo “inha” numa só sílaba… Conseguiu? Eu não. :) Se ninguém consegue dizer “inha” como uma só sílaba, também não é possível dizer que na escrita “inha” constitui uma sílaba.

O Portal da Língua Portuguesa dá uma definição teórica:

A divisão silábica consiste na identificação e delimitação das sílabas de cada palavra. As sílabas têm como constituinte obrigatório uma vogal, que determina o seu núcleo ou elemento central. Essa vogal pode ou não vir acompanhada de uma outra vogal, foneticamente chamada semivogal, formando um ditongo, como acontece na palavra cau.sa. O núcleo da sílaba pode ser precedido de uma ou mais consoantes, como em pla.no, e seguido de uma ou mais consoantes, como em pers.pe.ti.va.

Não tenho explicação para aquilo que no Acordo Ortográfico à primeira vista me parece uma gaffe. Pessoalmente, aceito a explicação do Ciberdúvidas.

  • Só falta aqui uma justificação para rainha se ler ra·i·nha, e não rai·nha como peito se lê pei·to ou raia se lê rai·a. – ANeves Jul 25 '16 at 14:25

É importante lembrar, como foi dito acima, que a ortografia é apenas um conjunto de convenções sobre a escrita. Muitas vezes, portanto, ortografia nada tem a ver com a língua per se. Fonologicamente, a divisão silábica mais provável é `ra.i.nha', por diversas razões. Ortograficamente, regras arbitrárias podem ser criadas que façam com que a silabificação "oficial" desvie daquilo que deveria ser.

Mas...

Apenas como contraponto, vou expor aqui uma possível razão linguística para a ortografia proposta.

Segmentos como nh ou lh são, muitas vezes, tratados como complexos em fonologia. São, por exemplo, mais "pesados" do que seus respectivos segmentos simples (n, l). Existem motivações independentes para essa conclusão (muitas delas vindas dos padrões acentuais da língua).

Com base nisso, muitas análises fonológicas partem do princípio de que nh é, na verdade, uma consoante geminada ("dupla" no nível suprasegmental), e que, portanto, está presente em duas sílabas ao mesmo tempo: ra.iN.Ha. Teoricamente, isso torna a sílaba penúltima pesada, o que explicaria por que não temos palavras proparoxítonas com nh ou lh nas sílabas final ou penúltima.

Por exemplo, não temos em português palavras como pátalho, e essa explicação dá conta dessa lacuna na língua. A explicação também é motivada com base em outras línguas, onde segmentos como lh ou nh se comportam de forma diferenciada. Foneticamente, ambos são (mais) complexos relativo a segmentos simples (e.g., têm mais duração e envolvem mais complexidade articulatória).

  • 1
    Queres dizer «está presente em duas sílabas ao mesmo tempo: ra.iN.NHa»? Achas então que é isso que o AO quer dizer com i formar sílaba com nh? – Jacinto Jun 26 '16 at 9:52

O acordo ortográfico está mal redigido nesse ponto.

De facto o caso do NH é excecional, pois ao contrário dos outros casos, a vogal tónica não faz sílaba com a consoante procedente.

O motivo para se ter optado por não utilizar acento gráfico nestas situações é o facto de não haver ditongos que precedam um NH.

  • Pois, também me parece que eles se explicaram mal. – Jacinto Nov 2 at 18:36

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